A sociedade em busca de mais tolerância

Cabe à escola contribuir para que crianças com Down e outras deficiências não sejam discriminadas e possam aprender como as demais

POR:
Meire Cavalcante
A pequena Joana com a mãe Letícia Santos. Foto: Fernanda Sá
A pequena Joana com a mãe Letícia Santos.
Foto: Fernanda Sá

 

Helena, personagem de Regina Duarte na novela Páginas da Vida, da Rede Globo, vai à reunião de pais na escola da filha Clara, 5 anos (interpretada por Joana Mocarzel, 7 anos), que tem síndrome de Down. Ansiosa, ela aguarda a distribuição dos trabalhos para ver a produção da menina. Mas qual não é sua surpresa ao ver que ela não tem uma pasta. Furiosa, a mãe percebe que a filha não fez as mesmas atividades dos demais e que passou o tempo brincando de massinha e no parquinho - longe dos colegas, para não se machucar. Revoltada, ameaça denunciar a professora ao Ministério Público e, ao conversar com a diretora, descobre que alguns pais quiseram tirar os filhos da escola por causa de Clara. Essas cenas, exibidas no mês passado, foram as primeiras em que a menina foi discriminada na história.

A novela, que vai ao ar em horário nobre, está despertando o público para a questão do preconceito, inclusive em sala de aula. Mesmo depois de 18 anos da promulgação da Constituição, que prevê "igualdade de condições para o acesso e permanência na escola", alguns diretores e professoresacreditam que estudantes com deficiência não conseguem aprender e, em classe, devem apenas brincar ou passar o tempo. Há ainda pais que não aceitam os filhos se relacionando ou estudando com "retardados", pois acham que isso baixa a qualidade do ensino. Outros acreditam que a deficiência é doença e que os "anormais" devem ser evitados.

Além de enfrentar a pressão da família dos alunos, muitos educadores têm de aprender a lidar com o próprio preconceito. "Isso deveria ser trabalhado desde a formação inicial. Se a inclusão é garantida por lei, como podem os professores sair da faculdade sem conhecer o assunto?", questiona a produtora de cinema Letícia Santos, mãe da pequena Joana, que estuda em escola regular desde a Educação Infantil. Letícia e o marido, o cineasta Evaldo Mocarzel, acreditam que a participação da filha na novela contribui para diminuir a intolerância contra a síndrome de Down.

A pequena Joana com Regina Duarte na novela Páginas da Vida, em que interpreta Clara: luta contra o preconceito na vida real e na ficção. Foto: Tv Globo/ Willian Andradeditos
A pequena Joana com Regina Duarte na
novela Páginas da Vida, em que
interpreta Clara: luta contra o
preconceito na vida real e na ficção.
Foto: Tv Globo/ Willian Andradeditos

 

Comportamento aprendido


Educadores, diretores, pais, estudantes: nenhum deles nasce com preconceito. A intolerância é assimilada e fomentada pela sociedade, muitas vezes resistente quando se trata de lidar com as diferenças. "A discriminação surge da necessidade que temos de qualificar as coisas e os indivíduos dentro do que é socialmente considerado normal", diz Dorian Mônica Arpini, do departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul. As crianças só repetem as atitudes dos adultos em relação às pessoas com deficiência e ao papel que estas desempenham na sociedade.

"Desde as civilizações primitivas, o homem se organiza socialmente centrado em si mesmo. Com base nisso, ele julga os demais pelas roupas que usam, pelos alimentos que consomem, por sua história e sua moral", afirma o sociólogo Eladio Antonio Oduber Palencia, do Instituto de Educação Superior de Brasília. "Os grupos são formados de acordo com classe social, idade, cultura, religião, região onde vivem, estética", explica. As chamadas comunidades de referência pressionam as demais e ensinam atitudes como o deboche. Para Palencia, quando uma pessoa ocupa uma posição que, pela "normalidade", não faz sentido, surge o estranhamento. "Certa vez perguntaram a uma empresária negra se ela era esportista, pois estava bem-vestida em um restaurante caro", conta.

O primeiro passo para combater a intolerância é aceitar que ela existe. Em uma pesquisa feita pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, em São Luís, apenas 25% dos familiares de crianças com deficiência dizem tê-la aceito quando receberam a notícia (veja o gráfico abaixo). Isso demonstra o despreparo e a falta de informação. A mesma pesquisa aponta que 22% das famílias só identificaram a deficiência da criança quando ela tinha entre 3 e 10 anos. "A resistência às pessoas com deficiência é fruto do desconhecimento sobre o assunto. Só quem tem mais contato sabe que elas podem se desenvolver se forem motivadas", afirma a pesquisadora Terezinha Moreira Lima, uma das autoras do levantamento.

Os números mostram ainda que 62% das crianças com deficiência já sofreram algum tipo de discriminação em diferentes situações, inclusive na escola (veja o gráfico abaixo). No entanto, apenas 38,7% dos responsáveis tomaram providências.

O papel da Educação

A escola, portanto, é um local em que é necessário combater o preconceito. "Alguns pais acham que a escola inclusiva anda para trás porque o ensino piora com a presença de alunos com deficiência", diz Palencia. "Como vivemos num mundo em que todos querem competir para ter sucesso, talvez andar para trás, no sentido de diminuir um pouco esse compasso frenético, seja positivo." Ele lembra que, normalmente, quando bate o sinal na hora da saída, todos correm alucinados em direção à porta da sala: "Se há um colega em cadeira de rodas, porém, eles aprendem a esperar, a ajudá-lo e acompanhá-lo."

A inclusão ensina a tolerância para todos os que estão diariamente na escola e para a comunidade. "A chegada das crianças com deficiência está provocando uma grande reflexão", observa Dorian. Por isso, os especialistas afirmam que a inclusão escolar é uma revolução silenciosa. Para que ela aconteça, no entanto, toda a equipe deve pensar em conjunto. A idéia precisa estar incluída na proposta pedagógica e levar todos a conhecer melhor o assunto. Quando não há informação, se torna angustiante para o professor receber esse aluno e lidar com ele. O trabalho em equipe leva todos os educadores e funcionários a desempenhar de maneira mais eficiente seu papel nessa área.

Windyz Ferreira, coordenadora do projeto Educar na Diversidade, do Ministério da Educação, publicou em 2003 a pesquisa Aprendendo sobre os Direitos da Criança e do Adolescente com Deficiência, da organização sem fins lucrativos Save the Children Suécia, que luta pela disseminação dessas práticas no mundo todo. "Em vez de só levantar números, procuramos coletar depoimentos de jovens, pais, parentes, professores e outros profissionais sobre o preconceito e a violação dos direitos humanos", explica Windyz.

Em um desses relatos, a mãe de um menino de 13 anos com deficiência mental diz que ele era tratado como palhaço pelos outros estudantes. "Certa vez, colocaram um papel com o desenho de um pênis em suas costas. Enquanto ele andava, os alunos e até os funcionários riam dele. Então o tirei da escola." Uma garota de 18 anos, com deficiência física, conta: "Quando comecei a estudar, me olhavam como se eu tivesse uma doença contagiosa e alguns me chamavam de aleijada. Quase todos os dias, chegava em casa chorando".

Escola não é lugar de sofrimento e humilhação. Por isso, os professores e funcionários precisam adotar posturas conscientes e coerentes com seu papel de formadores (leia o quadro acima). "Quem pode dizer onde terminam as possibilidades de aprendizado de quem tem deficiência? Só com as portas da escola abertas é que poderemos saber. Por isso ela é tão importante", conclui Dorian.

Atitudes do educador que inclui

? Procura conhecer a legislação que garante o direito à Educação das pessoas com deficiência.

? Exige auxílio, estrutura, equipamentos, formação e informações da rede de ensino.

? Deixa claro aos alunos que manifestações preconceituosas contra quem tem deficiência não serão toleradas.

? Não se sente despreparado e, por isso, não rejeita o aluno com deficiência.

? Pesquisa sobre as deficiências e busca estratégias escolares de sucesso.

? Acredita no potencial de aprendizagem do aluno e na importância da convivência com ele para o crescimento da comunidade escolar.

? Organiza as aulas de forma que, quando necessário, seja possível dedicar um tempo específico para atender às necessidades específicas de quem tem deficiência.

? Se há preconceito entre os pais, mostra a eles nas reuniões o quanto a turma toda ganha com a presença de alguém com deficiência.

? Apóia os pais dos alunos com informações.

Fonte: Aprendendo sobre os Direitos da Criança e do Adolescente com Deficiência, Save the Children Suécia

 

COMBATER O PRECONCEITO...

? Garante o cumprimento dos direitos da criança.

? Dá ao aluno com deficiência a mesma oportunidade que têm os demais.

Reação dos familiares ao saber da deficiência da criança

73% Não aceitam imediatamente

25% aceitam

2% Rejeitam

Onde há preconceito*

27% - Família

20% - Na escola

7% - Na igreja

68% - Na vizinhança

40,9% - Transporte coletivo

9% - Hospitais

4,5% - Ruas, praças e locais públicos

* Do total de crianças que já sofreu discriminação (respostas múltiplas).

Fonte: Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de São Luís

 

Quer saber mais?

CONTATO
Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de São Luís, R. Isaac Martins, 84, 65010-690, São Luís, MA, tel. (98) 3214-1073

BIBLIOGRAFIA
Direitos das Pessoas com Deficiência, Eugênia Augusta Gonzaga Fávero, 342 págs., Ed.WVA, tel. (21) 2493-7610, 40 reais

Inclusão Escolar - O Que É? Por quê? Como Fazer?, Maria Teresa Eglér Mantoan, 96 págs., Ed. Moderna, tel. 0800-172-002, 12,50 reais

Sociedade Inclusiva: Quem Cabe no seu Todos?, Claudia Werneck, 236 págs., Ed. WVA, 30 reais

Violência e Exclusão, Dorian Mônica Arpini, 206 págs., Ed. Edusc,tel. (11) 6436-3011, 28,40 reais

INTERNET
No site www.scslat.org, entre no link Publicaciones e faça o download da pesquisa Aprendendo sobre os Direitos da Criança e do Adolescente com Deficiência 

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