Afastados das crianças, mas sempre aprendendo: 5 reflexões em tempos de quarentena

Como relacionar teoria e prática? Existe tempo para brincar? Algumas ponderações sobre esses e outros temas no isolamento social

POR:
Evandro Tortora
Foto: Getty Images

Com a pandemia de covid-19 que nos assola, muitos de nós estão em casa trabalhando remotamente. Esse tempo afastado das minhas crianças e conversando com outros professores do Brasil me trouxeram uma série de reflexões sobre a nossa formação. Uma série de relatos de professoras e professores mostram-me como algumas concepções presentes nos discursos de educadores ainda não foram traduzidas em práticas.

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alinhados à BNCC de Educação Infantil

Gosto muito de um artigo do professor António Nóvoa, experiente professor português da Universidade de Lisboa, intitulado “Para uma formação de professores construída dentro da profissão”. Logo na introdução do seu texto ele aponta que na Educação “sentimos a necessidade da mudança, mas nem sempre conseguimos definir-lhe o rumo”. “Há um excesso de discursos, redundantes e repetitivos, que se traduz numa pobreza de práticas”, emenda. Eu complementaria a fala do professor Nóvoa dizendo que essas práticas traduzem uma teoria que não afetou muitos docentes da forma esperada e geram contradições.

Os motivos disso? Não sei dizer, mas já temos rumos bem desenhados e é nesse ponto que vamos focar a partir daqui pensando em algumas situações que vou compartilhar com vocês. Tais situações suscitaram algumas reflexões sobre as práticas das professores e espero que vocês possam se identificar com algumas delas.

São assuntos mal resolvidos que parecem estar atrelados a concepções conflitantes. Não quero aqui apontar “erros pedagógicos” (termo horrível por sinal, mas que já ouvi anteriormente) ou eleger culpados pelas deficiências no nosso ensino, mas quero colocar “uma pulga atrás da sua orelha”, ou seja, mostrar que há coisas a serem aprendidas mesmo quando pensamos já dominar um assunto. Esse texto é uma oportunidade de refletir sobre o que não sabemos daquilo que acreditamos saber.

Primeira reflexão: “A prática é uma coisa, mas a teoria é outra coisa...”

A primeira discussão veio de uma formação que ministrei a um grupo de colegas professoras remotamente. Essa reflexão veio de um elogio no qual uma professora disse que eu tinha uma “fala muito prática” por ser professor de Educação Infantil e que “apesar de ter doutorado, não ficava na teoria. A prática é uma coisa e a teoria é outra”. Aquilo me incomodou um pouco e ao perceber as outras professoras concordando fiquei mais incomodado ainda. Caso você, colega professor ou professora, ainda tenham essa concepção, saliento que há um grande equívoco nela!

Não há teoria sem prática ou prática sem teoria. Existe um diálogo constante entre elas, o que não permite uma visão dissociada de ambas. Refletir sobre sua prática com base em teorias é uma das ações mais comuns ao professor, além de tornar práticas suas reflexões sobre as teorias. Nenhuma das minhas falas ou inquietações vêm apenas de situações práticas, mas são frutos de uma pedagogia construída a partir de estudos e reflexões em conjunto com meus pares. Sendo bastante simplista, uma prática desvinculada de uma concepção teórica recai numa ação mecânica, na qual não há reflexão sobre a ação, apenas segue-se uma receita na qual disseram que haveria sucesso. Pense nisso! wink

Segunda reflexão: “Na minha sala as crianças têm um momento para brincar”. Só um?

“Mas de novo isso, Evandro? Vamos falar sobre brincar na Educação Infantil?” Sim... de novo! A partir do meu texto sobre as diferenças do brincar com as famílias e o brincar nas instituições de Educação Infantil fui questionado com argumentações do tipo “mas eu deixo as crianças brincarem, na minha escola tenho momentos para as atividades e para as brincadeiras”. Entenda-se aqui uma “atividade” como um fazer individual a frente de uma folha de papel e uma porção de lápis à moda escolar.

Percebia que havia uma dissociação entre “brincar” e “atividade” quando a professora conversava comigo, logo me propus a entender melhor sua prática e ajudá-la a entender um pouco do que se desenvolvia no seu dia a dia. Na sua instituição, as crianças tinham momentos de atividade e momentos para brincadeira, ou seja, o brincar situava-se num momento específico do dia...

Oras! As Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil (DCNEI) já instituem a brincadeira e as interações como eixos norteadores das propostas curriculares da etapa há anos, algo reforçado dentro da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Ao meu ver, temos instituições que precisam olhar para o seu conjunto de práticas (vide currículo nas DCNEI) e repensar no lugar que a brincadeira tem dentro da sua rotina. A brincadeira é, dentre tantas outras ações, uma forma de se expressar, aprender e viver e não ter apenas um momento específico no dia a dia das crianças.

Terceira reflexão: Precisamos trabalhar em equipe! 

Essa reflexão veio a partir de um conflito que ficou mais evidente quando conversei com um grupo de professoras sobre um texto no qual discuto o letramento na Educação Infantil. Nesse texto eu dou pouca importância às atividades mecânicas para o desenvolvimento da coordenação motora, mas saliento práticas sociais em que esse desenvolvimento se dá de forma mais natural. Logo, uma professora me chamou pelo Facebook dizendo ser impossível argumentar sobre isso com sua coordenadora, visto que deveria seguir o “método da escola”, o planejamento feito pela direção, o qual dá pouco espaço para intervenção do professor com suas próprias crianças.

Ora, o planejamento institucional, o qual se orienta pelos princípios do Projeto Pedagógico não deveria ser um plano coletivo e construído com participação dos docentes, comunidade escolar, famílias etc.? Não houve participação do docente na sua elaboração? Como essa elaboração pode ser revista? Os planejamentos não são flexíveis? Parece-me que esses princípios novamente não são concretizados em práticas nas ações de algumas instituições de Educação Infantil. Além disso, nunca é tarde para mudanças quando percebemos que nossa prática se aprimora.

Há alguns anos estamos discutindo a necessidade de mudarmos a escola, afinal a maneira tradicional de se ensinar não atende mais às demandas atuais de crianças e adolescentes, sem falar na questão de formação de cidadãos autônomos e de direitos sociais. Esse tipo de mudança não se delega somente a terceiros, mas passa pelos planejamentos coletivos dentro das instituições educacionais. Reconhecer que temos papel importante e essencial para mudar a escola passa por uma reestruturação de práticas e, por consequência, do currículo. Você consegue perceber isso?

Quarta reflexão: Por um planejamento centrado nas crianças!

Além dessa discussão, vieram outros assuntos com outras professoras, como o fato de terem que dar conta das atividades propostas nas apostilas relacionadas à alfabetização das crianças. Há anos a Educação Infantil vem se constituindo como um espaço de valorização das infâncias e se distanciando de uma visão na qual a aprendizagens centram-se no conteúdo. Logo, pensando nas crianças e nas suas experiências como foco das práticas (e não em apostilas e no seu preenchimento), esse tipo de discussão deveria ser repensando dentro de cada sistema municipal de educação considerando quais são as vivências que são propostas às crianças objetivando suas aprendizagens.

Sobre o uso de apostilas, tão difundido nas redes municipais atualmente, tenho algumas considerações que considero importantes e devem servir de reflexão às equipes responsáveis pela sua contratação nos municípios. Quando uma rede de ensino pública opta pela utilização de apostilas para Educação Infantil, bem como estrutura seu currículo com base em documentos sugeridos por tais instituições, elas estão abrindo mão de construir seu próprio currículo a partir dos ideais que já balizam claramente as ações pedagógicas com crianças de zero a seis anos.

Logo, está renunciando à oportunidade de chamar seus professores e dar condições para que juntos construam uma prática própria, consigam refletir sobre o seu cotidiano e estabelecer estratégias de ensino e aprendizagem a partir da sua cultura, refletir sobre as suas necessidades e elencar, com base na legislação, os seus princípios educacionais. Dentro da minha concepção, como um professor que já atuou em municípios com e sem sistemas de ensino apostilado, ao contratar um sistema de ensino externo o município pode perder a oportunidade de discutir sua própria identidade enquanto rede municipal de ensino.

Quinta reflexão: Ser professor é ser um eterno aprendiz!

Nem mesmo distante das crianças deixo de aprender. A cada livro lido, a cada troca de ideias, a cada live assistida pelas redes sociais, encontramos oportunidades de rever nossas aprendizagens! Ser professor é realmente ser um eterno aprendiz e encontrar novas formas de reinventar ou de dar valor ao que já foi aprendido.

Podemos sempre nos conceder o benefício da dúvida sem deixarmos de lado princípios da nossa prática com as crianças. Aos poucos surgem oportunidades de rever diversos aspectos da minha realidade e saberes já adquiridos, pensando que há vários outros seres humanos com tanto a nos ensinar!

Logicamente houve outras tantas reflexões nessa quarentena que poderiam estar nesse texto, porém farão parte das próximas produções desta coluna. wink

Com esse sentimento de criança-aluno-aprendiz, estarei sempre disposto aprender e ensinar com colegas dispostos a dialogar comigo!

Um abraço carinhoso e até breve!

Evandro Tortora é professor de Educação Infantil há 7 anos na Prefeitura Municipal de Campinas, licenciado em Pedagogia e Matemática e doutor em Educação para Ciência pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Bauru. Além da docência na Educação Infantil, tem experiência com pesquisas na área da Educação Infantil e Educação Matemática, bem como desenvolve ações de formação continuada para professoras e professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental.

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