Roteiro de estudos, um aliado no ensino presencial ou a distância

Além de ajudar no desenvolvimento da autonomia dos estudantes, essa estratégia colabora para o atual momento de isolamento social

POR:
Anna Rachel Ferreira
Foto: Reprodução-Facebook EMEF Desembargador Amorim Lima

Neste momento de distanciamento social, um dos pontos mais preocupantes para os educadores é como fazer com que os alunos deem conta do que precisam aprender sem o monitoramento constante e as informações trazidas em sala de aula. No mundo atual, já não é mais possível encarar o professor como o único detentor do conhecimento. As informações estão disponíveis pela televisão, jornais, revistas, podcasts, vídeos e outras publicações da internet. Elas vêm de todos os lugares do mundo e podem ser confiáveis ou não. Como então garantir que seja mantida uma rotina de estudos e que ela tenha qualidade? 

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Cada aluno, um caminho

Algumas escolas, como a EMEF Desembargador Amorim Lima, na Zona Oeste de São Paulo, tem uma vasta experiência no trabalho com roteiros de estudos. “O principal ponto é que os roteiros respeitam a autonomia dos estudantes tanto para a escolha quanto para o tempo necessário de desenvolvimento”, explica Lilian Regina da Silva Ianish, professora de Matemática da escola. Nessa unidade, os professores trabalham em conjunto para desenvolver a pasta de roteiros que será utilizada ao longo do ano. Em geral, são cerca de 15 roteiros sugeridos aos estudantes e todos eles aparecem como propostas, já que serão construídos e adaptados conforme o interesse e pesquisa do aluno com o apoio do corpo docente da escola. As perguntas iniciais surgem dos próprios livros didáticos escolhidos pelos docentes, mas também de outros materiais como filmes e literatura. 

Assim como na Amorim Lima, o Projeto Âncora sempre trabalhou com roteiro de estudos. Tendo como prioridade a construção de autonomia, os alunos sempre tiveram liberdade para estudar a partir de um tema que lhes interessasse. O estudante definine o que deseja estudar, como e com quem. Os projetos não acompanham nenhum padrão esperado: eles montam seu próprio caminho. Tanto a turma quanto o próprio projeto indicam onde chegar e os caminhos vão se desenhando durante a execução.

Um tema, várias abordagens

Lilian reforça a importância do papel do professor nesse processo para “trazer perguntas, indicar fontes de pesquisa e apresentar possíveis conexões interdisciplinares”. No Projeto Âncora, as crianças e adolescentes, conta a ex-cordenadora da escola Marisa Montrucchio, apresentavam suas propostas aos professores que apontavam outras questões de interesse do tema para que fosse explorado. “Em um projeto que começou para discutir padrões de beleza nos ano 1950, poderia acontecer um estudo de história da moda daquela época e até mesmo de padrões de costura e modelagem.”

Nas duas escolas, sempre existiu um cuidado para que todas as disciplinas e habilidades sejam contempladas ao longo do ano dentro dos roteiros. Mas também ocorrem outros momentos de aprendizagem como oficinas e até mesmo aulas expositivas, caso seja considerado necessário. Não existe uma única estratégia. “O roteiro de estudos é uma parte da metodologia e tudo o que é feito no entorno dela também é essencial”, ressalta Marisa.

Uma trajetória em construção

Na Amorim Lima, os alunos podem escolher qual roteiro desejam fazer dentre os propostos e a ideia é que ele cumpra com o previsto até o final do 9° ano, última etapa oferecida pela unidade escolar. Ao longo da construção desse estudo, ele é acompanhado por um tutor em um grupo de 5 alunos. O papel desse professor-tutor é apresentar novos caminhos e possibilidades para os estudos que estão sendo realizados. “É essencial o olhar atento do educador para ajudar o aluno a criar roteiros cada vez mais contextualizados e com sentido”, ressalta Lilian. A dinâmica no Projeto Âncora é bastante semelhante com a presença de tutores e a abertura para mudanças de trajetórias que se mostrem interessantes no meio do percurso.

Mas, além dos professores e o aluno, essa trajetória também sofre interferência dos colegas. Em ambas as escolas, os alunos podem fazer projetos individuais ou em grupo que não necessariamente correspondem a sua série e idade. Isso enriquece a troca de experiências e percepções. Em alguns momentos, o estudante pode estar trabalhando num projeto solo, porém agrupado de uma forma que troque com colegas que já tenham passado por aquele roteiro, por exemplo.  

Roteiros a distância

Nesse momento de quarentena, o trabalho com roteiros de estudos continua a todo vapor na EMEF Amorim Lima. Os alunos têm se encontrado com seus grupos de tutoria e em rodas de conversa por videoconferência. A instituição também já havia usado em forma de teste a ferramenta Google Sala de Aula, o que foi intensificado neste momento. Dessa forma, as turmas compartilham informações, entregam tarefas e dão continuidade às suas pesquisas com tranquilidade. E fica muito claro como esses exercícios de autonomia e desenvolvimento da sua própria aprendizagem tem facilitado esse processo. “Os alunos já conhecem os caminhos e estão trabalhando com temas de interesse. Isso torna mais fácil mantê-los engajados e no caminho da aprendizagem”, comenta Lilian.