Blog de Alfabetização

Troque experiências e boas práticas sobre o processo de aquisição da língua escrita.

Escola vazia: relato de uma professora de alfabetização durante a quarentena

Conheça como Mara Mansani tem enfrentado o isolamento social e sua experiência ao entrar na instituição sem alunos

POR:
Mara Mansani

Foto: Getty Image

Que não está sendo fácil para ninguém esse período de pandemia isso já sabemos. E quando pensamos nessa perspectiva de todo o mundo, começamos a entender a dimensão e complexidade dos problemas que estamos enfrentando e como isso pode mexer com nosso emocional!

Senti isso muito próximo dias atrás. A escola onde trabalho em Salto de Pirapora (SP) chamou os professores para que a gente buscasse as atividades feitas pelas crianças, que as famílias haviam devolvido, para acompanhamento e correção. Estamos preparando as atividades que estão sendo impressas na escola para todos, num trabalho conjunto de professores, funcionários e equipe gestora, pois o acesso à internet e a outras tecnologias, não é a realidade de todas as famílias. Tudo feito tomando os devidos cuidados para evitar aglomerações e contágio.

Pesquisar planos de aula para usar a distância

Com tanto tempo fazendo isolamento em casa, saindo raramente para buscar alimentos, confesso que até dirigir estava estranho e a paisagem pela estrada me parecia bem diferente. Fui pelo caminho pensando “que vontade de voltar ao trabalho, para a escola e encontrar meus alunos”.

Mas o difícil mesmo foi entrar na escola. Silêncio, nenhuma gargalhada, nenhuma correria, ninguém brincando no pátio, nenhum professor e professora atuando em sala, nenhuma bronca, nenhuma “arte” de criança, ninguém chamando “PROFESSORA”, engasguei ao falar com a coordenadora Patrícia.

Foi nesse momento que percebi como estava abalada emocionalmente, como tudo isso, e, logicamente, o mais difícil o luto de tantos, o medo e as incertezas, mexeram comigo.

A Unesco estimava em março mais de um bilhão de crianças e jovens pelo mundo com suas escolas fechadas. É um número tão absurdo que é difícil de acreditar, afinal nunca vivemos algo nessa proporção. Mas quando você vê sua própria escola vivendo essa situação dá para sentir o peso dessa realidade.

Voltei para casa tentando me equilibrar, fui pensando pelo caminho como não afundar nessas tristezas e continuar. Lembrei dos meus alunos, de cada rosto, do jeito de cada um, das nossas conversas, das coisas engraçadas que as crianças dizem e fazem, do carinho e amor que sempre trazem, da alegria deles e da capacidade que têm de acreditar que amanhã vai estar tudo bem. Por isso agradeço sempre a oportunidade de estar com eles e de ser professora há tanto tempo. Me senti melhor!

Minha reflexão me levou a outra percepção: não estou sozinha! São tantos professores e professoras, no Brasil e no mundo, sentindo-se assim como eu. Isso, de certa forma, traz um certo consolo, pois estamos todos juntos, mas não para sofrer, e, sim, para se apoiar, para passarmos e sairmos juntos desse momento tão difícil. Estamos sofrendo e provavelmente sofreremos ainda mais, mas juntos teremos força para superar.

Essa força da união, da empatia, da solidariedade, do estar juntos, pode ser muito maior que qualquer sentimento ruim. Por isso, se você, querido amigo professor, querida amiga professora, estiver pendendo mais para a tristeza, se apoiem, conversem virtualmente se possível, troquem experiências, compartilhem saberes, façam ações coletivas, se doem pelo o outro. Todos podemos contribuir na melhora do outro, penso que isso até pode ter um efeito terapêutico para nossas dores, afinal, fazer o bem, nos faz muito bem!

Venho ampliando ações como essas e como é bom estar com tantos professores incríveis desse nosso Brasil! Conversar, desabafar, vê-los mesmo que remotamente.

Deixo a vocês algumas sugestões para colocar em prática:

  • Marque um bate-papo. Não só para falar de trabalho, mas para rir e matar as saudades;
  • Faça leitura colaborativa em encontros virtuais, troquem impressões sobre livros;
  • Troque fotos de bons momentos;
  • Crie e compartilhe uma playlist de músicas bacanas, para cantar, dançar, amar;
  • Crie grupos para ações solidárias. Há tantas famílias, de alunos ou não, que estão precisando de nossa ajuda nesse momento difícil;
  • Reserve um tempo para ouvir alguém que esteja precisando mais de apoio que você para enfrentar a pandemia;
  • Crie um grupo de saúde para fazer atividades físicas. Cada um em sua casa, juntos, mas remotamente;
  • Junte os colegas de escola para ações pela comunidade escolar e pelo alunos!

Essas são minha sugestões para esse pacto de empatia e união. Para que a gente mantenha uma interação, socialização, que nos faz tanta falta.

Agora desafio vocês, meus queridos amigos professores! Contem aqui nos comentários o que vocês andam fazendo para manter a saúde emocional e  deem suas sugestões para nosso pacto.

Um grande abraço a todos e vamos juntos,

Mara

Mara Mansani é professora há quase 30 anos, lecionou em vários segmentos, da Educação Infantil ao 5º ano do Ensino Fundamental, passando também pela Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em 2006, teve dois projetos de Educação Ambiental para o Ensino Básico publicados pela ONG WWF, no livro “Muda o Mundo, Raimundo”. Em 2014, recebeu o Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, na área de Alfabetização, com o projeto Escrevendo com Lengalenga.