O que é Educação empreendedora e como colocá-la em prática na escola?

Ao investir em conhecimento, pensamento crítico e aprendizagem socioemocional, a escola forma cidadãos autônomos e proativos, ajuda no desenvolvimento de relações interpessoais saudáveis e na construção de um mundo melhor

POR:
Anna Rachel Ferreira
Ilustração: André Asahida

Desde crianças, nos deparamos com situações e problemas complicados e tentamos encontrar soluções. Enfrentamos questões das mais diversas: “Como organizar os brinquedos da turma para encontrá-los com mais facilidade no dia seguinte?”, “como construir um balanço novo para o parque da escola usando somente um pneu e cordas?”, “como trocar a resistência do chuveiro?”, “qual profissão seguir?” e “como fazer minha empresa vender mais produtos?”

Em alguns casos, falhamos na busca pela solução e temos de tentar de novo. E de novo. E de novo. Até conseguir acertar. Em outros, acertamos de primeira. Independentemente do cenário, uma certeza: quanto mais nos empenhamos em buscar a melhor saída, tendo uma postura proativa, engajada e colaborativa, mais aprendemos. É exatamente disso o que trata a Educação Empreendedora, uma abordagem para o desenvolvimento de competências e habilidades importantes para a vida na sociedade contemporânea.

E o que a escola tem a ver com isso? Tudo! A Educação Empreendedora é uma ferramenta para os educadores despertarem e motivarem os alunos para a construção de ideias inovadoras, auxiliando a formação de cidadãos críticos, autônomos, transformadores e empreendedores. 

Conforme Rose Mary Almeida Lopes, no livro Educação Empreendedora: Conceitos, Modelos e Práticas, essa abordagem é “um processo dinâmico de conscientização, reflexão, associação e aplicação que envolve transformar a experiência e o conhecimento em resultados aprendidos e funcionais. Compreende conhecimento, comportamento e aprendizagem afetivo-emocional”. Assim, colocando a Educação Empreendedora em cena é possível fazer que, enquanto estudam os conteúdos previstos no currículo, os alunos se desenvolvam como cidadãos ativos, responsáveis, colaborativos e resilientes. 

Afinal, o que é ser empreendedor? 

Embora no senso comum essa palavra esteja mais relacionada ao mundo empresarial e de negócios, ela vai muito mais além, envolvendo a vida de forma abrangente. O dicionário Michaelis define o termo como aquele “que se lança à realização de coisas difíceis ou fora do comum; ativo, arrojado, dinâmico”.

 

Como educar de maneira empreendedora na prática?

No Ensino Médio, a Educação Empreendedora é um eixo estruturante, mas na Educação Infantil em todo o Ensino Fundamental já é possível trabalhar nessa perspectiva. “A complexidade das atividades serão diferentes a depender da etapa, mas o foco está sempre no aluno”, diz Paulo Emílio de Castro Andrade, professor especialista em Desenvolvimento Integral e pesquisador do Núcleo de Pesquisas em Novas Arquiteturas Pedagógicas da Universidade de São Paulo (USP). No mais, é importante tratar dos conteúdos de maneira contextualizada com a realidade e o interesse dos estudantes, considerando que as turmas são heterogêneas. Confira: 

1. Educação Infantil: colocar em cena qual brincadeira fazer em determinado momento, convidando os pequenos para conversar, opinar e decidir, por exemplo. Outra sugestão é a ação de criar cantos diversos e dar às crianças oportunidade de escolher em qual quer brincar, começando um trabalho de desenvolvimento de autonomia. 

2. Ensino Fundamental I: durante a resolução de um problema de Ciências ou de Matemática, e na discussão e projetos sobre descarte de produtos, origens e culturas, o que é ser criança.

3. Ensino Fundamental II: comunicação e participação nos combinados da turma, desenvolvimento de aplicativos, debates sobre dilemas contemporâneos. 

3. Ensino Médio: propostas de melhorias para o próprio ambiente escolar, projetos interdisciplinares sobre sustentabilidade. 

Esses são apenas alguns de muitos exemplos possíveis. Se no dia a dia, você se preocupa em criar espaço de participação e protagonismo para crianças e adolescentes com propostas que fazem sentido para eles, já está no caminho da Educação Empreendedora. Mas, além do protagonismo dos educandos e da contextualização, a experiência é parte crucial da abordagem em questão. “Oferecer situações desafiadoras que vão exigir uma atitude criativa dos estudantes ou que demandam uma colaboração mais efetiva é a chave para o processo ser bem-sucedido e completo”, explica o professor Samuel Andrade, especialista em produção e edição de materiais pedagógicos. 

Na Educação de Jovens e Adultos (EJA), especificamente, a Educação Empreendedora pode ser explorada também com temas como trabalho, negócios e meio empresarial - possíveis de serem explorados no Ensino Médio também, especialmente no último ano.

Do problema até a solução 

Uma sugestão de caminho do que pode ser feito para trabalhar com os alunos na perspectiva da Educação empreendedora:
  1. Compreender o problema
  2.  Pesquisar jeitos de resolvê-lo
  3. Verificar a possibilidade de colocar uma das soluções em prática
  4. Mudar de ideia ou adaptá-la caso necessário
  5. Conversar com os demais envolvidos sobre qual caminho seguir e argumentar sobre isso, além de escutar e analisar as ideias deles
  6. Permitir se reinventar quando alguma ideia falhar
  7. Ser resiliente e persistente para alcançar o objetivo final

 

Competências empreendedoras Na Base Nacional Curricular Comum (BNCC), é fácil encontrar os pontos de conexão com essa abordagem. As 10 competências gerais envolvem de alguma maneira as propostas da Educação empreendedora. No entanto, quatro delas têm a ver com o tema de modo mais explícito. Confira:

Qual o papel da gestão escolar na perspectiva empreendedora

Quando coordenador pedagógico e diretor apoiam o trabalho docente e têm uma postura aberta para que a Educação Empreendedora realmente seja colocada em cena na escola, os resultados podem ser maximizados e a comunidade escolar toda se envolve na proposta. 

A dupla gestora pode criar tempo de planejamento de práticas empreendedoras e promover o diálogo entre a equipe pedagógica para o desenvolvimento delas, compartilhar materiais de referência e inclusive desenvolver projetos institucionais que dialoguem com a abordagem.

Um exemplo de trabalho possível é organizar momentos de intercâmbio entre escolas para os alunos divulgarem projetos e conhecimentos aprendidos em classe.