Padrões de aprendizagem para pensar sobre desigualdade

A Matemática performa na escola com distorções de aprendizagens maiores a cada encerramento de ciclo escolar. Uma imersão nos dados de Ribeirão Preto mostra a desigualdade de uma rede

POR:
Mozart Neves Ramos
Crédito: Dreamstime

Há duas décadas a Educação pública brasileira apresenta resultados consistentes e positivos quanto ao acesso à escola. Políticas com enfoque em merenda, transporte escolar, Bolsa Família, manutenção e desenvolvimento do ensino e valorização do magistério colaboraram para isso. Ao longo dos últimos anos, tivemos melhorias em taxas de reprovação e abandono escolar, mas ainda estamos longe dos indicadores ideias. O grande desafio está na aprendizagem escolar.

Uma imersão no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2013, 2015 e 2017 para Matemática no 5° e 9° anos do Ensino Fundamental pode mostrar ainda que parte desse desafio consiste na redução das desigualdades. Estas, se apresentam entre diferentes níveis: entre regiões, entre estados, entre escolas de uma mesma rede, entre redes escolares diferentes ou de municípios circunvizinhos.

Os dados de 2017 do Movimento Todos pela Educação, publicados no Anuário Brasileiro da Educação Básica 2019, indicam que percentuais de aprendizados escolares em Matemática são sempre inferiores àqueles verificados em Língua Portuguesa. A análise indica ainda que a distorção entre a meta esperada e o resultado obtido cresce conforme se avançam os anos escolares. No 5° ano do Fundamental, a diferença é de -7,8%; no 9º, de -32,5%; no último ano do Ensino Médio, ela chega em -43,6%, seu ponto mais crítico da aprendizagem.

Um case para analisar os padrões de proficiência

No interior de São Paulo, a rede municipal de Ribeirão Preto, é um exemplo de como a distorção de aprendizagem em Matemática esconde diferentes padrões de comportamento em proficiência. Para ser mais preciso, os resultados revelam que para o 5° ano do Ensino Fundamental há sete padrões de proficiência, enquanto existem apenas quatro padrões para o 9º ano. Confira nas imagens abaixo os padrões para cada um dos anos:

Com exceção de duas escolas, a rede escolar tem dois padrões de comportamento em proficiência para o 9° ano do Ensino Fundamental.


Análise dos padrões de comportamento de proficiência na rede municipal de Ribeirão Preto

5º ano do Fundamental (27 escolas analisadas): o padrão predominante corresponde a uma estagnação de aprendizado para 41% das escolas no período estudado. Para três delas, essa estagnação corresponde a um patamar elevado de aprendizagem escolar. O segundo padrão mais verificado corresponde a um crescimento consistente de 2013 para 2015 e de 2015 para 2017 em seis escolas (22%) da rede.

9° ano do Ensino Fundamental (20 escolas analisadas): verifica-se essencialmente dois comportamentos em termos de proficiência escolar. Para 18 das 20 escolas estudadas observa-se um forte crescimento no aprendizado escolar de 2013 para 2015. Contudo, a diferença entre elas se verifica de 2015 para 2017, em que nove escolas permanecem estagnadas, enquanto as outras nove mostram uma queda no aprendizado escolar.


Para pensar com os dados e aprender com o Brasil

O Brasil sabe que a aprendizagem da Matemática, especialmente no 9° ano do Ensino Fundamental e no 3° ano do Ensino Médio, deve merecer uma atenção especial no campo da política educacional. O país está literalmente estagnado e num patamar muito baixo.

A boa notícia é que, assim como a rede escolar de Ribeirão Preto tem escolas com desempenho exemplar em Matemática, todo o Brasil conta com escolas que apresentam resultados consistentes e que podem compartilhar seus aprendizados – ajudando a alavancar os resultados das escolas com baixa proficiência. É possível, assim como faz o estado do Ceará, estruturar uma política de colaboração por pares entre escolas de maior proficiência com aquelas de menor proficiência. A experiência mostra que as soluções podem estar em nossa própria rede.

Estou cada vez mais consciente de que o Brasil precisa aprender com o Brasil. Aí talvez o país consiga encontrar um caminho mais sustentável de melhorar os resultados no campo da aprendizagem escolar e na redução de suas desigualdades.

Apesar da importância do Ideb, do ponto de vista de mobilização social para a melhoria da qualidade do ensino, como posto na meta 7 do Plano Nacional de Educação (PNE), para o gestor é importante olhar não só os dois indicadores que o compõem, mas os aprendizados para cada uma das duas disciplinas: Língua Portuguesa e Matemática.

Quer conhecer a experiência da rede municipal de Ribeirão Preto mais à fundo? Baixe a análise completa sobre o tema clicando aqui.

Mozart Neves Ramos é titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP) – Ribeirão Preto. Engenheiro químico de formação, possui doutorado e pós-doutorado na área, além de grande trajetória no Ensino Superior. Foi professor, pró-reitor acadêmico e reitor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e atualmente é membro do Conselho Nacional de Educação (CNE) e diretor de articulação e inovação do Instituto Ayrton Senna. Eleito pela Revista Época como uma das 100 pessoas mais influentes do Brasil em 2008, também foi considerado Educador Internacional do Ano, em 2005, pela IBC Cambridge. Mozart atuou como secretário de Educação de Pernambuco, foi presidente do Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Educação (Consed) e presidente-executivo do Todos Pela Educação. Também é autor dos títulos “Educação brasileira: uma agenda inadiável” e “Educação sustentável”.

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