Como usar o Youtube e produzir vídeos no ensino a distância

Você não precisa ter experiência com audiovisual, mas pode utilizar as ferramentas disponíveis e desenvolver habilidades de curadoria digital

POR:
Lucas Santana
Foto: Getty Images

Se tem algo que a pandemia ensinou aos professores é que é preciso se adaptar ao mundo da Educação a Distância. Enquanto perdurarem as recomendações das autoridades de saúde para o distanciamento social como forma de conter o avanço do coronavírus, as salas de aula permanecerão vazias. E enquanto uma vacina eficiente não surgir, a escola não será a mesma. É aí que as aulas digitais emergem como grande solução para esse momento de pandemia, em especial as videoaulas transmitidas pela internet.

Confira planos de aula para uso
a distância alinhados à BNCC

 Slides, blogs e livros digitais têm seu valor enquanto solução para educação digital, mas uma videoaula enviada ou transmitida enriquece muito a experiência de aprendizagem dos alunos. NOVA ESCOLA já deu várias dicas sobre criação de vídeos educacionais, como editar e criar aulas no Youtube e como os vídeos podem auxiliá-lo em suas aulas. Para facilitar seu trabalho e instigar sua curiosidade para buscar outras soluções, reunimos aqui 7 dicas valiosas sobre como o formato de vídeo pode se tornar uma opção incrível para suas aulas e também como conteúdos disponíveis na internet podem enriquecer o aprendizado das crianças e adolescentes.

Para organizar essas dicas, NOVA ESCOLA ouviu um time especial de educadores ao longo das últimas semanas em transmissões ao vivo no Facebook onde eles contam suas experiências com educação em rede, criação e uso de aulas em vídeo. São eles: Renata Capovilla, formadora de professores com pós-graduação em psicopedagogia e neuropsicologia; Peter Trento, professor e revisor de conteúdos de Geografia no Youtube Educação e coordenador de inovação da rede municipal de ensino de Vinhedo, interior de São Paulo; Ceila Luiza Pastório, diretora pedagógica da creche Baronesa em Limeira, interior de São Paulo; e Lorena Carvalho, professora alfabetizadora, criadora de conteúdo educacional no canal Professora Coruja.

As transmissões foram conduzidas pela nossa mediadora Sheylli Calefi e por Barbara Castro, coordenadora pedagógica da NOVA ESCOLA. 

Use e abuse do Youtube e demais plataformas de vídeo online

Os alunos de hoje são de uma geração conhecida como nativos digitais. Eles já nasceram em uma época em que a internet e demais ferramentas tecnológicas, muitas vezes um bicho de sete cabeças para os mais velhos, são recursos do cotidiano tão triviais quanto o livro didático era para a geração de 30 anos atrás. Estão acostumados a buscar o que precisam no Google e a entender a realidade online e offline como uma coisa só. É o que explica Peter Trento, revisor de conteúdos de Geografia da plataforma Youtube Educação, ferramenta voltada para a educação disponível no Youtube. “O uso do vídeo é essencial hoje, pois nossos alunos são muito imagéticos, eles precisam de imagens”, argumenta Trento. Ele lembra que as imagens ajudam os alunos a trazerem os conteúdos do plano conceitual para o concreto. Há materiais no Youtube para todas as faixas de idade, dos bebês aos adolescentes.

Mas o ecossistema de plataformas de vídeo online vai além do Youtube. Há diversas outras opções como o Vimeo, o IGTV, ligado ao Instagram, portais de notícias com conteúdos relevantes em diversas áreas do conhecimento como a BBC. O Ministério da Educação oferece o Mecflix, com vídeos que preparam os alunos do Ensino Médio para o ENEM. NOVA ESCOLA também tem uma acervo de vídeos que você pode usar. “São recursos gratuitos e que tornam as aulas mais agradáveis”, destaca Renata Copovilla, formadora de professores.

Desenvolva sua habilidade de curadoria

Muito bem, as plataformas de vídeo online são muitas e a quantidade de conteúdo é infinita. Mas qual o papel do docente nessa história? Tornar-se um bom curador ou curadora desses conteúdos.

Curadoria é a prática de pensar, montar, revisar e organizar conteúdos para uma exposição, segundo define o dicionário. “É importantíssimo que o professor assista aos vídeos do começo ao fim para saber se ele condiz com o que você quer, de que o tema proposto nele é aquilo que você espera de verdade, que não há nenhum erro naquilo que está sendo ensinado. É necessário ter uma curadoria detalhada”, recomenda Renata.

Para ela, é imprescindível que o professor avalie bem os vídeos para oferecer aos seus alunos conteúdo educacional de qualidade. Ela explica ainda que o educador faz uma boa curadoria quando olha para a sala de aula como um corpo de alunos heterogêneo. Logo, é fundamental que ele selecione os materiais de acordo com o perfil dos alunos. “A curadoria existe para pensar nos alunos como todo. Mas o professor deve partir da ideia de uma classe heterogênea. As aulas devem ser pensadas e preparadas de acordo com as características pedagógicas de cada turma”, aconselha a formadora.

A própria plataforma Youtube Educação possui uma biblioteca imensa de vídeos que você pode utilizar para criar suas aulas. Há inclusive aulas ao vivo dadas por professores e que estão disponíveis na plataforma. “Só no Brasil temos esse modelo do Youtube Educação que passou por uma curadoria. Ele também existe fora do Brasil, mas um projeto que conta com curadores dessa forma só no Brasil”, lembra Trento. Olha só que oportunidade para fazer sua pesquisa por lá.

Crie seus próprios vídeos

Nem só de vídeos prontos vive a internet. Mais do que uma ferramenta de pesquisa por conteúdos, as principais plataformas de vídeo gratuitas disponíveis oferecem recursos para que você crie seu próprio vídeo educativo. Além de ser original, você contribui para tornar a web ainda mais rica em conteúdo voltado para a Educação. “Incentivo os professores a fazerem vídeos sobre aquilo que eles sabem e dominam”, explica Peter Trento.

O professor de Geografia dá algumas dicas valiosas sobre como criar seus próprios vídeos. Por exemplo, antes de sair gravando, faça um roteiro do que vai apresentar no vídeo. Seja uma aula ao vivo, no formato que ficou conhecido na internet como live, ou um material gravado e editado.

Cada formato tem sua peculiaridade e os professores devem se aprofundar no formato. Enquanto na modalidade ao vivo o educador liga a câmera e sai falando baseado no seu planejamento, com todas as surpresas que rolam em uma transmissão desse tipo, como erros e engasgos, os vídeos pré-gravados permitem uma edição e maior controle sobre o conteúdo final. “A aula ao vivo é algo que você precisa ter certo cuidado, pois se trata de proposta completamente diferente, há interação com as pessoas, mas é um tipo de aula que você precisa ter um planejamento muito detalhado porque não há edição. Tudo o que fazemos precisa ter um roteiro, mas no ao vivo é ainda mais importante”, adverte Peter.

A criadora do canal Professora Coruja, Lorena Carvalho, pede que os educadores não criem empecilhos para começar a fazer os próprios vídeos. “Não crie obstáculos, utilize o que você tem e faça da melhor maneira possível”, aconselha. A câmera pode ser essa mesma do seu celular, o espaço, o cantinho que você gosta na sua casa. “Não precisa de muito para produzir um bom vídeo, não há necessidade de ferramentas mirabolantes, basta um celular e um fone de ouvido, tudo é possível”, incentiva Lorena.

Use a criatividade

Seja criando seu próprio conteúdo online, seja utilizando os vídeos que já estão na web para enriquecer suas aulas digitais, não há limites criativos. Partindo do seu planejamento de aula, busque no repertório pessoal formatos e recursos que podem ser adicionados na sua aula. “Não existe uma receita de bolo. Sempre falo que o seu primeiro vídeo tem que ser sobre o que você se sente mais à vontade”, sugere Lorena Carvalho.

Ela recomenda que o professor anote os recursos que gosta de utilizar, como uma contação de história, uma indicação de filme ou livro, mas sobretudo que pense fora da caixa. “Você pode criar o próprio vídeo, sugerir um vídeo que complemente sua aula, mas também pode pedir que os seus alunos façam os próprios vídeos”, exemplifica a criadora do Professora Coruja. Nessa mesma proposta, Peter Trento lembra que, quando você dá um celular para o aluno criar seu próprio vídeo, você passa a entender melhor como ele pensa e enxerga o mundo.

Adapte seu planejamento para a educação à distância

A pandemia de covid-19 pegou todo mundo de surpresa, é verdade. O lado bom dessa história é que os docentes já tinham em mãos seus planejamentos para a semana, o mês, o bimestre, semestre e até o ano todo. A Base Nacional Comum Curricular também é um direcionador importante. Agora o momento é de adaptar. Se não é possível ter os alunos todos juntos em um mesmo espaço, por que não sugerir que eles utilizem o espaço doméstico como sala de aula? “Nesses tempos de isolamento social as atividades devem ser orientadas e adaptadas para que os pais possam participar junto com seus filhos”, recomenda Ceila Luiza Pastório, diretora pedagógica da creche Baronesa em Limeira, no interior de São Paulo.

O planejamento para sala se torna o planejamento para a aula online. A lousa vira um vídeo. Os brinquedos, um jogo educativo online. A lição de casa uma atividade com a família. “Os professores, inovando e arriscando-se em estratégias de atividades, incentivam o aluno e sua família a participar, trazendo-os para perto deles”, explica a diretora.

Envolva os pais no processo da educação digital

O envolvimento da família é fundamental na Educação a Distância. “Nesses tempos de isolamento social, as atividades devem ser orientadas e adaptadas para que os pais possam participar junto com seus filhos”, destaca Ceila.

Ela sugere para os bebês, como um exemplo, que os docentes indiquem atividades como “a cesta dos tesouros”. Nela, os educadores sugerem uma montagem de uma cesta com diversos materiais do cotidiano do bebê e das famílias, de modo que elas possam manusear, explorar, sentir aqueles materiais. Ela cita também exploração de diferentes tipos de texturas com materiais que existam na casa, como a gelatina, sagu, macarrão cozido que os bebês podem brincar, manusear, comer, pintar. Coisas que já eram realizadas no espaço escolar e que são completamente adaptáveis ao ambiente doméstico.

Uma atividade muito tradicional nas escolas, a leitura, pode ser adaptada também para a casa dos alunos e serve a diferentes faixas etárias, dos bebês às crianças pequenas. “As famílias dão seu feedback das crianças recebendo essas propostas como muita alegria”, conta Ceila. A professora Amanda Crispino, que dá aulas para crianças de 2 a 5 anos no Ateliê para Crianças da creche Baronesa, propõe uma atividade interessante que une pais, mães e filhos na construção de uma biruta - instrumento usado para identificar a direção do vento - com materiais simples como papelão, fita, papel colorido tinta e cola. 

Online nas plataformas ou offline no ambiente escolar, a participação dos pais continua essencial para uma educação efetiva. “Compreendo que a parceria da família é fundamental no desenvolvimento da criança, uma criança só desenvolve a aprendizagem significativa e que vai fazer sentido na vida dela ao longo do seu desenvolvimento se ela tiver uma família presente, atuante e participativa”, avalia a diretora.

Ela acredita que, passada a pandemia, um aprendizado significativo vai ficar para gestores escolares, professores e familiares. “Entendemos que todas as ferramentas tecnológicas podem contribuir muito nesse momento em especial, mas também antes mesmo e depois desse processo, elas favorecem demais, não só nesse processo de ensino aprendizagem, mas também nas parcerias, nas relações e nos vínculos”, finaliza.

Compartilhe os seus conteúdos com o mundo

Criou algo legal? Por que não compartilhar sua criação? “Eles [os professores] devem compartilhar seus materiais para que seja possível transmitir esse conhecimento para outras pessoas, outras escolas e professores”, sugere Peter. Ele lembra que, assim como você se aproveita das ideias dos colegas, você pode contribuir com os seus próprios projetos. “A ideia é ter um projeto e não ficar só na sua escola, mas compartilhar com todo mundo”, explica o educador.

A experiência de Peter com as ferramentas educacionais do Youtube Educação demonstra o quão importante é esse compartilhamento. Ele é criador da Caixa de Areia 3D, um projeto que utiliza realidade aumentada, usado pelos alunos para estudar o relevo dos solos. “Uma coisa é estudar relevo nos livros, outra bem diferente é tocar na caixa de areia e ver no concreto”. 

E você, já produziu alguma aula na quarentena com apoio dos vídeos? Já produziu uma videoaula? Compartilhe seu link com seus colegas!