Como falar de coronavírus com as crianças

Os pequenos estão vivendo um momento da vida humana em que interpretam o mundo e produzem suas próprias ideias e concepções

POR:
Evandro Tortora
Foto: Getty Images

Acredito que todos nós concordamos que nossas crianças são muito atentas a tudo o que acontece ao seu redor e logicamente elas têm suas próprias ideias e interpretações da situação atual. Contudo, a cada dia que passamos, novas informações vêm sendo vinculadas pela mídia e ficamos nos questionamos sobre as melhores formas de conversar com as crianças sobre a pandemia de covid-19.

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Eu lembro que nos últimos dias em que estive com minhas crianças eu levei para turma uma notícia sobre o surgimento de um novo tipo de vírus surgindo na China (há alguns meses era novidade). Quando eu perguntei para turma o que eles já sabiam sobre o assunto, várias ideias começaram a “pipocar”:

            - É um vírus que surgiu na China!

            - Ele veio do morcego! Eu acho que alguém comeu um morcego doente...

            - Ele tá do outro lado do mundo, mas pode chegar aqui.

            - Sei que é perigoso, tem gente que morre e tem que usar máscara pra não pegar!

Além destas, outras ideias surgiram e confesso ter ficado surpreso com a quantidade de informação que veio daquela conversa e sobre a importância de conversar com a turma para desmentir possíveis inverdades que tenham ouvido. Ao perguntar para os pequenos onde eles descobriram tanto, as crianças diziam que ouviram os adultos falando ou que viram na tevê.

Então surge a questão: como conversar com os pequenos sobre um assunto que parece ser tão difícil de ser compreendido até mesmo por adultos?

Temos um grupo de docentes de Educação Infantil no WhatsApp no qual compartilhamos nossas experiências e fiquei curioso com as falas de algumas colegas que tentavam inventar alguma forma de conversar com as crianças sobre a pandemia de covid-19. Algumas professoras sugeriram inventar histórias em que o coronavírus era um vilão atacando as pessoas, outra colega sugeriu compartilhar desenhos para as crianças colorirem com desenhos de algo que seria o coronavirus. Foi quando uma professora sugeriu conversarmos com as crianças para entender o que estavam sentindo, saber das suas dúvidas e entendimentos e a partir disso desenvolver alguma ação. Acredito que esta última professora teve uma ideia muito mais plausível!

Há tempos temos discussões que buscam afirmar a importância de respeitar as crianças e passa por esse respeito não as tratar como seres alheios à realidade. Desde sempre venho defendendo uma postura que valorize a inteligência, a capacidade criativa e o protagonismo das crianças. Apesar de se tratar da discussão que envolve um objeto não manipulável (um vírus ou a doença), não podemos menosprezar a capacidade de entendimento dos pequenos. Eles podem e devem ser educados pelos adultos que os cercam com informações condizentes com as descobertas científicas, logo o adulto (aqui o adulto pode ser da família ou a professora) deve falar com a criança de maneira natural.

Não estou querendo dizer que devemos ignorar os sentimentos e necessidades dos pequenos. É necessária uma reflexão sobre o ser humano que a criança é (assim como o adulto é) e pensar em uma maneira humana e sensível aos desejos e necessidades das crianças na hora de conversar sobre esse assunto. Inclusive, deste contexto surgem outras oportunidades de aprendizagem!

Por exemplo, há alguns dias eu assisti a uma reportagem sobre o que é o coronavírus, no qual um médico disse que “são pequenos agentes infecciosos que atacam nosso sistema respiratório”. Eu fiquei me perguntando o que uma criança de quatro ou cinco anos pode pensar ao ouvir essa frase. Afinal, o que é um “agente infeccioso”? Então tem mais de um? O que é um “sistema respiratório”? Como assim ele “ataca”?

Logicamente que surge a preocupação com os termos técnicos que por vezes limitam a informação vinculada a um grupo de profissionais. Mas temos visto que as informações divulgadas pela imprensa parecem ser bastante acessíveis e não vem sobrecarregadas de termos de difícil compreensão. 

Aqui eu sugiro uma conversa com as crianças que provoque múltiplas aprendizagens a partir das dúvidas que surgirem. Essas conversas deixam mais claras a importância dos hábitos de higiene, do uso de máscaras, da importância do isolamento social, etc. 

Além disso, pensando que não somos os detentores de todos os conhecimentos e que é tudo bastante novo, inclusive para os cientistas,  podemos desenvolver diálogos numa perspectiva de aprendizagem mútua, afinal muitos de nós estão aprendendo muito sobre tudo isso agora!

Esse tipo de pensamento vem de encontro com a minha concepção de educação infantil: as aprendizagens das crianças surgem de situações que afetam pessoas e estão entranhadas a uma complexidade de saberes que ganham significado e se constituem como cultura.

É desta forma que as crianças aprendem a engatinhar, correr, falar, brincar, contar, desenhar... e, inclusive, sobre o que é o coronavírus. Voltando a reflexão do parágrafo anterior reflita sobre o vírus: existe uma situação afetando a vida das pessoas radicalmente, existe uma complexidade de saberes envolvidos (ciências, matemática, sociologia, etc.) e os acontecimentos recentes tendem a modificar aspectos da nossa cultura.  

Sendo assim, as ideias de que “eles são muito pequenos pra conversar sobre isso” ou “quando as crianças forem mais velhas vão entender” não cabem aqui! O que cabe é pensar que a criança está vivendo um momento da vida humana (sua infância) na qual interpreta o mundo e produz suas próprias ideias e concepções sobre ele a partir das suas vivências.    

Eu sei que, nesse momento, muitos de nós não estão com as nossas turmas e pode ser que demore um tempinho para retornarmos às atividades, mas muitos de nós mantemos contato com as famílias que ainda mantêm um diálogo com as instituições de educação infantil. Nesse diálogo é importante salientar a importância de conversar com as crianças sobre o que está acontecendo com o mundo, entender suas dúvidas e não perder de vista que as crianças estão aprendendo muito!

Esse é um bom texto para ser compartilhado com as famílias salientando a importância de conversar com os pequenos sobre os fatos que estamos vivenciando. É uma questão de respeito e carinho com nossas crianças.

Um abraço carinhoso e até a próxima! :)

Evandro Tortora é professor de Educação Infantil há 7 anos na Prefeitura Municipal de Campinas, licenciado em Pedagogia e Matemática e doutor em Educação para Ciência pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Bauru. Além da docência na Educação Infantil, tem experiência com pesquisas na área da Educação Infantil e Educação Matemática, bem como desenvolve ações de formação continuada para professoras e professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental.