O respeito ao isolamento e o apoio às famílias nas interações a distância

Com ou sem pandemia, as redes sociais e aplicativos de comunicação são importantes ferramentas de diálogo

POR:
Evandro Tortora
Foto: Getty Images

Ao longo de todo ano tentamos manter um contato próximo com as famílias de nossas crianças, afinal sabemos que quanto mais elas estiverem presentes, melhor poderemos conhecer nossas crianças e planejar nossas intervenções pedagógicas.

Estamos constantemente pensando em como acolher os familiares convidando-os para reuniões, conselhos de escola, atividades com a turma, diálogos individuais, tudo para integrá-los a nossa rotina e tornar prática a premissa de que a Educação Infantil age em complementariedade à educação familiar. 

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Entretanto, nesses tempos de pandemia, novos desafios têm sido propostos e novas reflexões têm surgido para que possamos pensar na nossa relação com as famílias mesmo a distância.

Com o avanço das tecnologias, novos canais de contato foram surgindo e as redes sociais passaram a fazer parte desse contexto. Ainda existe a resistência de alguns colegas ao pensarmos em interações pelo Facebook, Instagram ou WhatsApp, mas não há como negar que esses canais de comunicação estão na palma das mãos de muitas famílias e, muitas vezes, são mais viáveis do que o telefone fixo.

Para se ter uma ideia, um levantamento feito pelo IBGE mostra que, em 2018, apenas 31,5% da população brasileira tinha telefone fixo, enquanto 96% dos lares teriam pelo menos um membro da família com aparelho celular. Além disso, 79,9% dos brasileiros teriam acesso à internet. Esses dados revelam que já está mais do que na hora de repensarmos as formas de interagir a distância com as famílias.

Esse é um dado que pode ser percebido no nosso cotidiano. Eu mesmo, várias vezes, ao tentar ligar no telefone fixo da família de uma criança para comunicar que ela está com febre ou sofreu um pequeno acidente, não consegui contato, porém, ao enviar um recado pelo WhatsApp, obtive uma resposta em poucos minutos!

Por sugestão de algumas colegas, tenho trabalhado com um grupo da minha sala no WhatsApp no qual adicionei todos os familiares das crianças, apostando que esse era bom meio de me comunicar com eles. O grupo foi iniciado a partir da primeira reunião trimestral com familiares, na qual as famílias foram apontando o que pode ou não pode fazer parte das discussões do grupo. As famílias proibiram mensagens de bom dia, memes, conversas paralelas entre os adultos etc. Fizemos uma lista do que pode e do que não pode e o grupo deu muito certo!

Tivemos dois pequenos desentendimentos entre as famílias nos quais precisei intervir. Num deles uma mãe iniciou a postagem de algumas fake news e precisei conversar com a mãe presencialmente para orientá-la a conferir essas notícias antes de divulgar no grupo (o que serviu inclusive para conscientizá-la sobre a divulgação de notícias sem verificar as fontes). Outro caso diz respeito às próprias crianças que acabavam acessando o celular das famílias e querendo mandar mensagens para o professor. A princípio não há problema nenhum com isso! Eu adoro falar com meus pequenos, mas o acesso das crianças ao celular não pode ser ilimitado e deve ser observado com cautela.

O grupo passou a ser um espaço em que eu interagia com as famílias em horário oposto ao atendimento das crianças. Lá eu compartilhava registros meus e das crianças na rotina como desenhos, fotos de eventos e atividades, relatos das crianças, bilhetes e recados que seguiam na agenda, discussões levantadas pelas crianças etc. Confesso a vocês, colegas, que toda essa visibilidade das interações das crianças comigo em parte serviu para quebrar o paradigma de que um homem não seria bem-vindo como professor na Educação Infantil...Esse é um preconceito que ainda existe, inclusive será assunto para um próximo texto! ;)

É importante dizer que a participação da minha diretora no grupo tem sido de extrema relevância. Ao ser questionado sobre assuntos que eu não dominava, era comum minha diretora intervir e responder o questionamento, além de estar sempre interagindo junto comigo ao conversar com as famílias. Isso mostra que existe um trabalho em equipe nos bastidores dos nossos planejamentos e valoriza a participação da equipe gestora nas interações com as famílias. Não há como negar que esse trabalho de parceria com a equipe gestora é fundamental!

Acredito que o grupo também tenha sido importante para que as famílias pudessem viver um pouco do nosso Projeto Pedagógico. Afinal, o PP de qualquer instituição educacional não pode ser um documento engavetado na secretaria, mas algo a ser vivenciado no dia a dia. Logo, ao perceber que as crianças discutiam as regras na sala, eram responsáveis pela organização dos brinquedos da sala, brincavam no parque, se alimentavam com comida de qualidade, cantavam, dançavam etc., eles estavam se conscientizando na prática dos princípios de autoria, da brincadeira como meio de aprendizagem, da valorização da infância, entre outros pontos presentes no nosso Projeto Pedagógico e vivenciados no dia a dia das crianças.

Essas práticas poderiam ser pensadas para outras redes sociais, como o Facebook ou o Instagram. Utilizando perfis e grupos fechados, as mesmas interações poderiam acontecer, porém reconheço que as famílias das minhas crianças têm mais acesso ao WhatsApp e por isso optamos por esse canal. Cada instituição deve conhecer bem qual a melhor forma de se comunicar com as famílias e fazer uso desse canal para facilitar a interação com elas.

Logicamente, há preocupações com grupos de WhatsApp ou Facebook disponibilizados às famílias com relação à divulgação dos nossos dados pessoais. Hoje temos, porém, o WhatsApp Business, no qual o número de telefone usado pode ser o fixo da escola. No Facebook, pode-se criar uma página com o nome da escola ou da turma em que possam acontecer a divulgação das informações.

O importante é combinar com as famílias as regras para interação e que sempre tenhamos alguém da escola monitorando essas redes sociais para responder às questões das famílias.

Atualmente nosso grupo tem servido para trocar informações disponibilizadas pela prefeitura e, para além dos informes, tentar aproximar as famílias de práticas que favoreçam à vivencia da infância, conscientizem as famílias ao isolamento social e hábitos de higiene, bem como demonstre que, ainda a distância, estamos preocupados com os pequenos.

Coloque a turma para
movimentar o corpo em casa

Semanalmente, eu faço uma postagem com algumas sugestões de atividades em tempos de isolamento social. Não tenho a intenção de replicar meu trabalho dentro das casas das crianças ou muito menos incumbir familiares das funções de um professor, mas de dar algum suporte e apoio para as famílias perceberem que estamos sim preocupados com as vivências e o desenvolvimento dos pequenos nesse período tão diferente na história recente da humanidade.

Além disso, temos sido sinceros com as famílias: não sabemos quando isso vai terminar, como será o futuro das crianças, como serão nossas interações... não sabemos muita coisa, mas estamos aprendendo e juntos tentando dar todo o suporte que está ao nosso alcance. Tudo isso é bastante discutido com qualquer familiar que nos procure e, num espírito de empatia, temos nos ajudado a passar por esses dias difíceis.

Espero que esse texto tenha dado algumas dicas de como as redes sociais podem nos ajudar a interagir com as famílias respeitando o isolamento social e abrindo possibilidades para acalmar as ansiedades das famílias.

Conversem com colegas de trabalho e avaliem a possibilidade! Eu não me arrependi. Com ou sem pandemia, as redes sociais e aplicativos de comunicação são importantes ferramentas nas minhas práticas de interação com as famílias.

Um abraço carinhoso, fique em casa (se puder) e até breve!

Evandro Tortora é professor de Educação Infantil há 7 anos na Prefeitura Municipal de Campinas, licenciado em Pedagogia e Matemática e doutor em Educação para Ciência pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Bauru. Além da docência na Educação Infantil, tem experiência com pesquisas na área da Educação Infantil e Educação Matemática, bem como desenvolve ações de formação continuada para professoras e professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental.

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