O segredo é avaliar sempre

Objetivos claros e empenho do corpo docente na hora de analisar as produções das classes são a chave para o sucesso na região mais pobre do estado de São Paulo

POR:
NOVA ESCOLA

EMEF Professora Leonor Mendes de Barros

R. Professor Paulo Francisco de Assis, 82, 18325-000, Barra do Chapéu, SP, tel. (15) 3554-1110

DESEMPENHO NA PROVA BRASIL 
(4ª SÉRIE)

MATEMÁTICA
249,04
classificação não divulgada
LÍNGUA PORTUGUESA
253,60
5º LUGAR
Média do Brasil 179,98
Média do RJ 183,60
Média do Brasil 172,91
Média do RJ 178,19

INDICADORES (EM%) *
APROVAÇÃO 89,7
MÉDIA DO BRASIL 84,4
MÉDIA DO RJ 90,5
REPROVAÇÃO 10,3
MÉDIA DO BRASIL 11,2
MÉDIA DO RJ 8,7
ABANDONO 0
MÉDIA DO BRASIL 4,4
MÉDIA DO RJ 0,8

FONTE: CENSO ESCOLAR 2004

ESTRUTURA DA ESCOLA

696 Alunos
35 Professores (33 têm nível superior)
9 Funcionários
8 Salas de aula
(N) Biblioteca
(S) Laboratório de informática
(N) Outros laboratórios
(N) Quadra

Todos podem aprender: avaliação detecta deficiências antes que elas fiquem insuperáveis Foto: Ricardo Benichio
Todos podem aprender: avaliação detecta deficiências antes que elas fiquem insuperáveis
Foto: Ricardo Benichio

Com um orçamento anual de 6 milhões de reais, Barra do Chapéu, a 350 quilômetros de São Paulo, é um dos municípios mais pobres do estado. Seus 5,4 mil habitantes vivem do cultivo do tomate - duas safras por ano.Entre as cidades paulistas, tem o segundo pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH,medido com o cruzamento de dados como PIB per capita, longevidade e Educação da população e elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). À primeira vista, portanto, causa surpresa que uma escola - a EMEF Professora Leonor Mendes de Barros - localizada justamente nessa região tenha obtido o quinto melhor desempenho em Língua Portuguesa na Prova Brasil. Essa vitória começou a ser construída em 2001, quando o ensino da pré-escola à 4ª série foi municipalizado. Uma das primeiras medidas da Secretaria da Educação local foi investir na formação do corpo docente. Até então, apenas cinco professores da Leonor, por exemplo, tinham curso superior.Rapidamente, essa realidade mudou.Um consórcio de cinco cidades levou para a vizinha Apiaí o curso de Pedagogia da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Hoje, dos 35 educadores que lecionam na escola, apenas dois não têm diploma.Mas isso não vai durar muito, pois eles já estão na faculdade. No ano passado, a mesma Unesp ofereceu programas de capacitação em Meio Ambiente e Matemática. O estabelecimento de objetivos claros foi outro fator determinante para que a escola se destacasse na avaliação nacional."Em 2005, nossa meta era combater o alto índice de reprovação.Caímos de 20% para 5% e ainda tivemos ótimo desempenho na Prova Brasil", festeja a diretora, Sara Regina dos Santos Oliveira.

Com um orçamento anual de 6 milhões de reais, Barra do Chapéu, a 350 quilômetros de São Paulo, é um dos municípios mais pobres do estado. Seus 5,4 mil habitantes vivem do cultivo do tomate - duas safras por ano.Entre as cidades paulistas, tem o segundo pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH,medido com o cruzamento de dados como PIB per capita, longevidade e Educação da população e elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). À primeira vista, portanto, causa surpresa que uma escola - a EMEF Professora Leonor Mendes de Barros - localizada justamente nessa região tenha obtido o quinto melhor desempenho em Língua Portuguesa na Prova Brasil. Essa vitória começou a ser construída em 2001, quando o ensino da pré-escola à 4ª série foi municipalizado. Uma das primeiras medidas da Secretaria da Educação local foi investir na formação do corpo docente. Até então, apenas cinco professores da Leonor, por exemplo, tinham curso superior.Rapidamente, essa realidade mudou.Um consórcio de cinco cidades levou para a vizinha Apiaí o curso de Pedagogia da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Hoje, dos 35 educadores que lecionam na escola, apenas dois não têm diploma.Mas isso não vai durar muito, pois eles já estão na faculdade. No ano passado, a mesma Unesp ofereceu programas de capacitação em Meio Ambiente e Matemática. O estabelecimento de objetivos claros foi outro fator determinante para que a escola se destacasse na avaliação nacional."Em 2005, nossa meta era combater o alto índice de reprovação. Caímos de 20% para 5% e ainda tivemos ótimo desempenho na Prova Brasil", festeja a diretora, Sara Regina dos Santos Oliveira. 

CORREÇÃO DE RUMOS

Carlos Henrique Araújo

A avaliação de sala de aula deveria funcionar como um retrato que mostrasse a situação de aprendizagem do estudante. Os professores brasileiros, em geral, não dispõem de parâmetros técnicos para isso. Já vi tirarem ponto de aluno "bagunceiro". Não se trata de avaliar o comportamento, mas o que foi aprendido. Como resultado dessa distorção, criou-se uma cultura punitiva que envolve a avaliação e um terço das crianças que cursam a 1a série no Brasil são reprovadas quando, na verdade, deveriam estar sendo ensinadas. O processo de avaliação precisa ser visto como um instrumento pedagógico, não como uma forma de punição. Deve ser usado para fazer um diagnóstico das deficiências de aprendizagem de cada aluno e para detectar o que o professor não conseguiu desenvolver ao longo do ano letivo. Esses dados são úteis na redefinição do rumo das aulas: sabendo exatamente que habilidades e competências não foram alcançadas, as atividades são replanejadas buscando o avanço da turma. Isso significa diversificar materiais e estratégias de ensino - jogos, elaboração de materiais, pesquisas, leitura - e também o modo de avaliar. Para tanto, em primeiro lugar, é necessário que a postura e a mentalidade do professor mudem. Chega de ver a avaliação como um instrumento de retenção. Já passou da hora de enxergá-la como algo formativo. Em segundo lugar, devemos investir em formação para que todos dominem técnicas mais objetivas de avaliação e aprendam a fazer uma boa prova. Existe uma imensidão de atividades pedagógicas que servem para avaliar: leitura, compreensão de texto e trabalho em grupo são apenas alguns exemplos. Mas o mais importante é reconhecer que, ao avaliar um estudante, você, ao mesmo tempo, está avaliando seu trabalho.

CARLOS HENRIQUE ARAÚJO é sociólogo. Foi diretor de Avaliação de Educação Básica do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira

EE Carvalho Brito

Pça. Getúlio Vargas, 21, 37810-000, Guaranésia, MG, tel. (35) 355-1077

DESEMPENHO NA PROVA BRASIL 
(4ª SÉRIE)
MATEMÁTICA
271,86
4º LUGAR
LÍNGUA PORTUGUESA
234,98
Classificação não divulgada
Média do Brasil 179,98
Média do RJ 190,48
Média do Brasil 172,91
Média do RJ 182,13

INDICADORES (EM%) *
APROVAÇÃO 100
MÉDIA DO BRASIL 84,4
MÉDIA DO MG 89,5
REPROVAÇÃO 0
MÉDIA DO BRASIL 11,2
MÉDIA DO RJ 7,5
ABANDONO 0
MÉDIA DO BRASIL 4,4
MÉDIA DO RJ 3,0

FONTE: CENSO ESCOLAR 2004

ESTRUTURA DA ESCOLA

510 Alunos
25 Professores (23 têm nível superior)
3 Funcionários
9 Salas de aula
(S) Biblioteca
(S) Laboratório de informática (sem acesso à internet)
(N) Outros laboratórios
(S) Quadra

Quando soube que as turmas de 4ª série passariam a ser submetidas à Prova Brasil, a professora de 3ª série Maria Aparecida Delorenzo Penocco, da EE Carvalho Brito,em Guaranésia, a 480 quilômetros de Belo Horizonte, não se assustou, tanto que não alterou em nada seu planejamento anual."Acredito que o trabalho feito ao longo das três primeiras séries faz o aluno dominar plenamente os conteúdos na hora de ser testado", comenta a Zuza. Para a coordenadora pedagógica Maria Cristina Braz Henualy - à época professora da turma submetida ao exame, que deu à Carvalho Brito a quarta melhor média nacional em Matemática -, a estratégia é um reflexo da segurança que só um profissional bem qualificado tem.E formação é o que não falta aqui."Das nossas 25 professoras, 23 têm diploma de nível superior", informa Maria Cristina."E as outras duas já estão freqüentando a faculdade." Zuza, por exemplo, formou-se em Letras na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Guaxupé e pós-graduou- se em Pedagogia na cidade vizinha de Passos, em 1997. Há dois, especializou-se em Didática num programa a distância oferecido pela Secretaria Estadual de Educação." Mesmo com 26 anos de experiência, sei a importância de estar sempre estudando." Sua colega Fernanda Carolina da Silva, responsável por uma das 1as séries da escola, faz Pedagogia à noite na Universidade Presidente Antônio Carlos."Muito mais do que ter o diploma, quero estar preparada para ensinar bem", afirma (leia mais sobre a importância da formação inicial e continuada para o sucesso da escola no quadro da página ao lado).

Capacitação em serviço


Toda a bagagem adquirida nas capacitações chega à escola durante as reuniões diárias que as professoras fazem para discutir as dúvidas que surgem dentro da sala de aula (essa reunião tem pelo menos uma hora de duração e conta com a participação obrigatória da professora eventual Maria Helena Mancini Vieira, que se dedica exclusivamente às aulas de reforço)."Quando o exame foi aplicadocado, os estudantes se depararam com conteúdos e questões que eram corriqueiros tanto no livro didático como nas atividades", lembra Maria Cristina. Além da boa formação profissional do quadro, a Carvalho Brito tem outro fator fundamental para o sucesso na Prova Brasil, segundo a diretora, Rosa Maria dos Santos: "Nosso compromisso de vida é com a escola porque aqui passamos grande parte de nossa existência". Ela mesma foi aluna, de 1974 a 1988 (quando a escola ainda oferecia o Magistério), lecionou até 1999 (alfabetizou Fernanda), tornou-se vice-diretora e assumiu o atual cargo em 2004. "Vou me aposentar aqui", garante. A última que fez isso, por sinal, ficou no posto por 26 anos, de 1962 a 1988: Hercília Michell Lopes, também estudou na Carvalho Brito nas primeiras turmas dos anos 1930 e alfabetizou diversas gerações de guaranesianos, entre os quais Rosa e os atuais prefeito e secretário de Educação. "Também me sinto responsável pela nossa colocação na Prova Brasil porque essa mania de incentivar as professoras a estudar vem desde a minha época", comemora Hercília. Quase tudo em Guaranésia - município cuja economia gira em torno das usinas de açúcar e de fábricas de tecidos e macarrão - está de certa forma atrelado ao cotidiano da Carvalho Brito. É comum o auditório de 160 lugares servir de espaço para a comunidade debater os problemas do bairro."Os pais têm o compromisso de estar sempre aqui para se inteirar dos nossos problemas e não se eximem de tentar nos ajudar a resolvê-los", destaca a vice-diretora,Ana Lúcia Porto.

APRENDER SEMPRE 

Regina Scarpa

Formação e conhecimento didático são dois elementos fundamentais na receita de uma boa escola. No caso da formação, ela deve ser permanente e ocorrer nos horários de planejamento coletivo das equipes pedagógicas (esses momentos promovem a atualização constante, a reflexão sobre o processo pedagógico e a requalificação da profissão docente). Um professor atualizado deixa de ser um mero executor de planos de aula elaborados por terceiros. Ele passa a planejar um ensino coerente com as necessidades de seus alunos. E isso só é possível quando há diálogo entre o ensino e a aprendizagem, reflexão, estabelecimento de metas e avaliação de resultados. É um processo permanente de reflexão, ação, reflexão, ação... Quanto maiores o intercâmbio com os colegas e a intervenção firme de um coordenador pedagógico parceiro e experiente, melhor. Cabe ao coordenador liderar a equipe na busca de soluções para os problemas didáticos: como trabalhar com a diversidade em classe, como priorizar conteúdos, como escolher os projetos que mais atendem às necessidades dos estudantes. Também estão entre suas funções ajudar os professores a analisar a produção dos alunos nas reuniões pedagógicas, verificar quanto cada um está avançando, decidir as atividades mais adequadas etc. Se antes ele tinha como papel apagar incêndios na escola, agora deve ser um formador. Para isso, é preciso sempre aprimorar-se, procurando ajuda na equipe técnica das Secretarias de Educação, e atualizar-se em relação ao conhecimento didático disponível. Esse conhecimento é a matéria-prima da formação de todos os educadores, entendendo-a não como metodologia de ensino, mas como conhecimento científico sobre as melhores formas de fazer os estudantes dominarem os conteúdos, em Matemática ou alfabetização, por exemplo. Grupos de estudos, em que o professor é tratado apenas como aluno, não resolvem. O que ele precisa é dominar os conhecimentos didáticos que lhe permitam solucionar as dificuldades enfrentadas na sala de aula.

REGINA SCARPA é coordenadora pedagógica da Fundação Victor Civita

 

Prova Brasil

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