“A prioridade são as aulas presenciais, mas não sabemos até quando durará a suspensão”

Rossieli Soares, secretário de Educação do estado de São Paulo, explica como funcionará a plataforma estadual de ensino a distância em meio à pandemia de Covid-19

POR:
Miguel Martins
Foto: Reprodução/Facebook

Desde 23 de março, a rede estadual de São Paulo está em recesso por causa da pandemia de Covid-19. Com a antecipação das férias de julho, as aulas das escolas mantidas pelo estado só voltarão em 22 de abril. Até essa data, a Secretaria de Educação trabalha para garantir o funcionamento de sua plataforma de aulas a distância: o Centro de Mídias da Educação de São Paulo. A experiência é inspirada no modelo do Amazonas – projeto que Rossieli Soares, secretário estadual de Educação paulista, conhece bem. Entre 2012 e 2016, o gaúcho também ocupou a cadeira na pasta do Amazonas.

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É do Norte do país que o modelo, existente desde 2007 e que abarca videoaulas, materiais complementares e um aplicativo para garantir a interatividade dos alunos, chega até São Paulo. Leia mais sobre a proposta aqui.

Por enquanto, o Centro de Mídias paulista está disponível para professores e alunos se familiarizarem com a plataforma. Além de firmar parcerias para a produção e transmissão de conteúdos com a iniciativa privada e outros estados, como o Amazonas, São Paulo tem oferecido formação em educação a distância para professores que desejem contribuir com a grade de programação de aulas remotas, que estarão disponíveis na TV Educação (ligada à TV Cultura) e no aplicativo criado pela secretaria.

Na entrevista a seguir, Rossieli, que também já ocupou os cargos de Ministro da Educação e de Secretário de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC), explica como o estado está desenvolvendo sua plataforma de ensino a distância e como vai garantir a oferta de conteúdos aos professores e alunos. Ele afirma que o calendário escolar para esse período estará disponível a partir de 20 de abril, quando ficarão mais claras as diretrizes para se medir a frequência dos alunos e avaliá-los enquanto durar a quarentena.

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Como está sendo o processo de implantação do Centro de Mídias da Educação de São Paulo?

ROSSIELI SOARES Criamos a plataforma, o aplicativo com dados patrocinados e estamos pagando a internet para os jovens e professores acessarem. Criamos também a TV Cultura Educação (canal 2.3 na capital), ligada à TV Cultura e disponível em todo o sistema de televisão aberta e digital, para transmitir conteúdo. E os alunos farão a interatividade pelo aplicativo. Estamos produzindo conteúdos e fechando parcerias com a iniciativa privada e iniciativa pública, como, por exemplo, o estado do Amazonas, que tem muita produção de conteúdo interessante há muito tempo em seu Centro de Mídias.

Estamos em férias no momento. Até 21 de abril, esse período não contará como dias letivos. A partir de 22 de abril, nosso plano é começar a contar as aulas a partir da plataforma. Vamos divulgar um calendário interno com formas de trabalho e avaliação, que devem ser publicadas em 20 de abril.

A partir de 22 de abril, já será possível determinar uma carga horária para os alunos da rede estadual?

Vamos fazer uma carga horária de atividades, que poderão utilizar a tecnologia ou outras metodologias, mas sempre buscando nos adaptar à situação do aluno. Vamos garantir que a tecnologia chegue a todos de uma forma ou de outra, buscando trazer o máximo possível de equidade para todos. Teremos vários tipos de atuação, inclusive com formas de a própria escola fazer a avaliação.  

Cada escola fará a avaliação do acesso de seus alunos ao conteúdo?

Nossa ideia é termos alguns parâmetros de nível estadual, mas sempre deixar margem de avaliação para o próprio grupo de professores das escolas. Os conselhos de classe, por exemplo, vão sempre avaliar situações distintas. Logicamente, qualquer coisa que façamos não pode trazer prejuízos aos alunos. Vai valer como dias letivos? Provavelmente vai. E para aqueles que não puderem acessar a plataforma? Eles terão outras oportunidades de recuperar quando houver o retorno da modalidade presencial, como por exemplo, em aulas em contraturno e aos sábados. No retorno das aulas, haverá um programa de recuperação para esse jovem não perder o ano e ter as oportunidades de aprendizagem garantidas.

O governo federal determinou em Medida Provisória que, em caráter excepcional, os 200 dias letivos do calendário escolar de 2020 não precisarão ser cumpridos. A medida prevê, entretanto, que as 800 horas que compõem o ano letivo estão mantidas e que as escolas poderão cumprir parte delas por ensino mediado pela tecnologia. Como garantir que a carga horária realizada a distância está sendo cumprida?

O estado de São Paulo já publicou em 19 de março a Resolução 177, aprovada pelo Conselho Estadual de Educação e homologada por mim, determinando exatamente isso: vamos cobrar as 800 horas, mas não necessariamente em 200 dias letivos. Logo, nos adiantamos à MP do governo federal. A resolução serve tanto para as escolas estaduais como para as particulares, além das escolas municipais que não possuem conselho próprio. Para os municípios que têm conselhos próprios, é necessário cada um aprovar suas próprias resoluções.

Uma parte das 800 horas poderá ser contabilizada como Educação a distância (EaD). Lógico que nossa prioridade é fazer o máximo possível de aulas presenciais, mas não sabemos até quando vai a suspensão. Essa matemática final de como contabilizar só será possível após definirmos esse prazo. Do jeito que organizamos, com a antecipação de férias, não precisamos ter aula alguma até 21 de abril. Se a suspensão acabar, por exemplo, em 22 de abril, não teremos qualquer prejuízo de dias letivos. Teremos, é claro, prejuízo da interrupção abrupta, de perder um pouco do trabalho que vinha sendo feito desde o início do ano letivo.

A secretaria fez uma parceria com o Amazonas para retransmitir aulas gravadas por eles. Como será a adaptação desses conteúdos para a realidade dos alunos de São Paulo?

Não vamos trazer tudo do Amazonas, vamos aproveitar aquilo que for possível, assim como teremos parcerias com a iniciativa privada. Também estamos construindo conteúdo. Já temos videoaulas produzidas por professores da rede de São Paulo e por edu-youtubers. Já selecionamos um grupo de professores que farão uma produção para nossa realidade. Mas é importante contarmos com a experiência de quem já trabalha com ensino a distância. Além disso, tudo o que produzirmos estará disponível a todas as redes que precisarem. Entendemos que esses instrumentos que são criados com recursos públicos precisam ser ampliados e enviados para todos.

A Secretaria vai oferecer cursos de formação em EaD para professores da rede?

Nesse momento, estamos fazendo a formação para os professores que desejam participar do projeto do Centro de Mídias. A própria estrutura já está fornecendo formações e lives interessantes. Eu mesmo fiz um bate-papo com o filósofo Leandro Karnal sobre o impacto do isolamento e o projeto de vida dos estudantes, uma discussão muito interessante. Vamos oferecer formações em parcerias com outras instituições. É bom lembrar que os professores de São Paulo estão de férias. Então tudo isso é opcional por enquanto.

Como serão avaliados os trabalhos dos alunos nesse período? Haverá provas a distância?

Ainda estamos construindo uma matriz de trabalho para isso. Prova é mais difícil, mas haverá certamente como opção trabalhos com resolução de problemas. A vantagem de termos antecipado o recesso é que não precisamos tomar todas as decisões tão rapidamente. Vamos construir algumas soluções ao longo do tempo. O próprio Centro de Mídias está passando por um período de engajamento e aperfeiçoamento. Estamos começando a colocar os conteúdos no ar e também aprendendo a melhorar essa ferramenta.

O governo estadual anunciou a criação do programa Merenda em Casa, que atenderá 700 mil alunos, cerca de 20% da rede. Como foi definida essa porcentagem de beneficiados?

Estamos focando naquilo que é possível. Não há recursos suficientes para todos, até por conta de a arrecadação estar despencando como está. Como não há circulação de mercadorias, não há recursos públicos suficientes. Então precisamos fazer escolhas e olhar para quem mais precisa. Estamos olhando para quem está na faixa da extrema-pobreza. Seria hipocrisia dizer que os meninos de classe média-alta que estão na nossa rede precisam receber uma ajuda para alimentação neste momento. Priorizamos alunos que estão no Bolsa Família e que não estão no programa mas se encontram na faixa de extrema-pobreza do Cadastro Único. E são recursos estaduais. Os recursos federais estão guardados para quando as aulas presenciais forem retomadas, pois vamos precisar comprar merenda para todo mundo.

A suspensão das aulas pode prejudicar o processo de consolidação da BNCC, especialmente a do Ensino Médio?

Acho que não, ao menos no estado de São Paulo. Estamos seguindo o cronograma e programamos fazer toda a discussão com nossa base do currículo paulista do Ensino Médio. E estamos fazendo videconferências semanais sobre o currículo, recebendo muita contribuição. Milhares de pessoas estão fazendo sugestões e participando, até mais gente do que teríamos em encontros presenciais.

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