O letramento como parte das vivências das crianças

Há várias práticas que familiarizam os pequenos com os usos da linguagem escrita e incorporam esse tipo de representação em seu cotidiano

POR:
Evandro Tortora
Este é o Murilo escrevendo o nome do Cristofer / Foto: Acervo pessoal/Evandro Tortora

Ao longo do meu percurso como professor tenho notado que falar sobre a aprendizagem de leitura e escrita ne Educação Infantil é assunto polêmico entre docentes, famílias e equipes gestoras. Há décadas temos conversado sobre o assunto e ainda assim, todo ano paira no ar a questão: “A Educação Infantil tem a obrigação de alfabetizar as crianças?”. Sem mais demora, digo que não.

Confira planos de aula para uso a distância
alinhados à BNCC de Educação Infantil

Acredito que a partir dessa resposta surgem outras inquietações. Se não trabalhamos tendo por objetivo alfabetizar na Educação Infantil, qual seria então o nosso papel frente às aprendizagens das crianças em leitura e escrita? São várias as nossas contribuições e que seriam melhor explicadas quando pensamos num contexto de letramento em vez de alfabetização para Educação Infantil. Sobre isso, gostaria de contar um caso que vivi no ano passado com uma das minhas crianças.

Eu sempre costumo pedir para que os pequenos identifiquem suas produções quando vamos colocá-las em exposição. A Ana, uma menina muito sabida de 3 anos e meio, começou esse processo fazendo várias bolinhas para escrever seu nome em seus desenhos tentando imitar a forma como eu e as crianças mais velhas fazíamos essa identificação.

Certo dia ela ficou, porém, incomodada porque no seu crachá da chamada (ficha com o nome das crianças que elas colocam num painel ao entrar na sala) seu nome não estava escrito da mesma forma como nos seus desenhos. Segundo ela, eu (professor) não tinha escrito o nome dela da forma correta no crachá, logo respondi que o jeito como ela estava escrevendo não poderia ser entendido pelas outras pessoas e que a forma de eu escrever na ficha é uma maneira de fazer com que todos possam entender. Após a minha intervenção, Ana começou a treinar a escrita de seu nome da mesma forma que eu escrevi e aprendeu bem rápido. Mas a história não para por aí!

Alguns dias depois, fomos ao parque e, ao voltar para a sala, as crianças perceberam que numa cadeira, na mesa, em uma prateleira, no armário e outros lugares estava escrito “Ana”. Logo, a Ana foi questionada pela turma e por mim porque ela tinha escrito o nome dela em todos os lugares e ela respondeu mais ou menos assim:

- Ué? O professor falou que essas coisas são nossas, então eu escrevi meu nome do mesmo jeito que eu faço nos meus desenhos.

Faz de conta: um universo de
possibilidades sem sair de casa

Eu sempre ressalto a importância de as crianças cuidarem da sala e dos brinquedos, afinal vivemos num espaço coletivo que é nosso. Disso, Ana entendeu que poderia escrever seu nome em todos os lugares que costumava brincar pela sala assim como fazíamos com os desenhos. Logicamente que dialogamos que não há necessidade de escrever os nomes das pessoas em pertences coletivos e outras conversas surgiram da situação.

Dessa vivencia podemos apontar diversas reflexões sobre o papel da Educação Infantil na aprendizagem da leitura e escrita, bem como sobre letramento. Ao usarmos o termo “letramento”, seguindo as ideias de autoras como Magda Soares (autora referência no Brasil quando falamos em estudos sobre alfabetização), estamos falando sobre dar sentido aos usos da leitura e da escrita.

Logo no início da situação, percebemos que as crianças não faziam a escrita de seus nomes em seus desenhos por uma ordem minha, mas por uma necessidade de identificá-los. Existem diversos usos para a o uso da leitura e escrita e estão presentes nos fazeres da Educação Infantil e que tornam sua necessidade evidente, como:

 - Sempre mandamos recados às famílias, logo a escrita dos bilhetes é um bom exemplo de comunicação escrita e que pode ser lido às crianças.

 - A leitura de histórias que é feita cotidianamente às crianças.

 - É comum termos uma lista de aniversariantes da sala para lembrarmos de comemorar e dar parabéns às crianças, logo a escrita de uma lista separada por datas é necessária.

 - Costumamos fazer escritas coletivas para a sala registrar algo mais significativo de um passeio ou de uma vivência da turma.

 - Escrevemos na lousa um registro da rotina diária.

  - Temos na sala um painel com regras da turma com ilustrações e escritas das regras.

  - Escrevemos histórias coletivas a partir da imaginação das crianças e presenteamos outras turmas com essas histórias.

Veja planos de atividade
para usar a distância:
  1. Plano de atividade: narrativas de histórias para bebês

    Atividade para bebês (O ano a 1 ano e 6 anos) - creche

  2. Plano de atividade: Meu nome, minha identidade

    Atividade para crianças bem pequenas (1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses) - creche

  3. Plano de atividade: despertar o prazer pelas histórias lidas

    Atividade para bebês (0 a 1 ano e 6 meses) - creche

Essas e outras tantas práticas familiarizam as crianças com os usos da linguagem escrita e incorporam esse tipo de representação em seu cotidiano como uma forma de comunicação alternativa com um propósito diferente da linguagem verbal. Por isso é importante que a Educação Infantil faça o uso de situações que tornem a leitura e a escrita um exercício de atividade cotidiana das crianças.

A leitura e a escrita são atividades tipicamente humanas, logo, pensando numa educação humanizadora em que aprendemos através e pelas linguagens, essas atividades devem ser realizadas junto dos pequenos dando-lhes oportunidades de leitura e escrita em diferentes contextos. O objetivo é fazer com que os pequenos percebam as nuances da escrita relacionadas à orientação espacial (escrita feita da esquerda para direita), utilização de letras e palavras, diferenciação entre números e letras e percepção de fonemas representados pelas letras na própria utilização da leitura e da escrita.

A partir dessa reflexão, eu sugiro que ampliemos as vivências com os registros escritos escrevendo junto com as crianças reduzindo o uso de materiais impressos que costumeiramente são apresentados a elas, como cartazes, listas ou outros textos já prontos ou impressos. Nesse sentido, as fichas com os nomes das crianças, a escrita da rotina diária, as escritas de regras, os registros da lista com nomes dos aniversariantes devem ser feitos com as crianças. A ideia não é abolir o uso de materiais impressos, mas de ampliar as práticas da escrita junto das crianças.

Com o tempo, você pode propor às crianças que elas façam seus próprios registros escritos de acordo com seus interesses, como escrever um bilhete ou um cartão para alguém que gosta muito ou fazer uma lista para uma brincadeira. Tudo de uma forma mais espontânea, sem uma exigência muito rigorosa, mas buscando relacionar esse registro escrito à vivência em que essa escrita se faz presente. Maria Eduarda (3 anos), uma das melhores amigas de Ana, fez uma colagem na qual, segundo ela, estava escrito o nome de todas as crianças da nossa turma e um espaço onde tinha alguns símbolos que se assemelham a letra “E” onde ela disse estar escrito o meu nome.

Foto: Acervo Pessoal/Evandro Tortota

Esse tipo de atividade pode ser servir para avaliar o desenvolvimento da linguagem escrita pelos pequenos e sugerir novas atividade com a turma. No caso da Maria, apesar de ter apenas 3 anos, percebo que já entendia algumas convenções da linguem escrita, mas conversamos sobre fazer uso de letras para escrever o nome de seus amigos. Para ajudá-la nas próximas produções, fiz uma lista com os nomes de todas as crianças que poderia ser “levada” pelas crianças a qualquer ambiente de brincadeira para que pudesse escrever os nomes dos amigos.

Aliás, as crianças adoraram escrever os nomes dos amigos! Percebendo isso, coloquei duas listas com os nomes das crianças próxima à lousa e quase sempre os pequenos estavam por ali escrevendo o nome dos seus amigos.

Voltando ao caso da Ana, discutimos que o registro escrito não podia ser feito de qualquer forma! Ele precisa ser feito de uma maneira que todos pudessem entender. Ana sentiu essa necessidade ao perceber que a forma como ela escrevia seu nome (com bolinhas) poderia não ser entendida, logo ela pode aprender que para o nome ser lido, ela deveria seguir uma certa combinação de signos já padronizados, os quais são chamados de letras. Logo, Ana abandonou as bolinhas e aprendeu a escrever seu nome de maneira convencional, a qual servia como uma assinatura nos seus desenhos.

Pensando na situação até engraçada de ver Ana escrevendo seu nome em vários objetos da sala, gostaria de falar um pouquinho sobre o conceito de leitura de mundo de Paulo Freire. Já dizia Paulo Freire em seu livro A Importância do Ato de Ler, “a leitura de mundo precede a leitura da palavra”, portanto a o ato de ler vai muito além do reconhecimento das letras e das palavras.

Ana tinha em mente claramente que os objetos que ela fazia uso na sala não pertenciam ao professor, à escola ou à prefeitura, mas eram também dela assim como seus queridos desenhos. Essa leitura de mundo é algo constante no universo dos seres humanos, logo não é diferente com as crianças. As vivências dos pequenos propiciam diversas leituras que acompanham a seu processo de aprendizagem da compreensão das palavras escritas.

Enfim, nesse texto não seria possível expor todas as contribuições que a Educação Infantil pode dar ao processo de aprendizagem da leitura e da escrita pelas crianças. Seria muita pretensão minha querer esgotar esse assunto tão importante por aqui, pois há muito o que falar sobre as contribuições das outras tantas linguagens a serem exploradas com as crianças como a linguagem verbal, a expressão corporal, o raciocínio lógico-matemático, o desenho, a pintura etc., as quais tem a mesma importância que as linguagens oral e escrita.

Com esse texto gostaria de deixar claro que há muito a ser feito na Educação Infantil antes de um trabalho sistematizado que objetive a alfabetização das crianças. Por isso, colega professor(a), preocupe-se em planejar  vivências significativas com a leitura e a escrita na Educação Infantil! Esse é o nosso papel e somos muito bem amparados pelos documentos oficiais (BNCC e Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil). Quando essas vivências são proveitosas, tenho certeza que o processo de alfabetização das crianças se dará de uma maneira muito mais fácil para nossas crianças!

Um abraço carinhoso e até a próxima!

Evandro Tortora é professor de Educação Infantil há 7 anos na Prefeitura Municipal de Campinas, licenciado em Pedagogia e Matemática e doutor em Educação para Ciência pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Bauru. Além da docência na Educação Infantil, tem experiência com pesquisas na área da Educação Infantil e Educação Matemática, bem como desenvolve ações de formação continuada para professoras e professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental.

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