Da sala de aula para a internet: como a pandemia do coronavírus está impactando as escolas públicas

Conheça três realidades brasileiras e as soluções encontradas até o momento para não deixar a garotada perder o ritmo de estudo

POR:
Maria Laura Albuquerque
Crédito: Getty Images

Nas escolas, desde o dia 16 de março, não se fala sobre outro assunto: a pandemia mundial do novo coronavírus. O assunto chegou trazendo muitas incertezas para educadores, alunos e familiares: as aulas vão ser suspensas, serão decretadas férias ou a Educação a distância vai entrar em cena? Até agora, muitas redes seguem com as aulas suspensas e, em breve, algumas vão entrar em período de férias. Nesse meio tempo, muita gente já se organizou para não deixar a peteca cair e está em contato com familiares e alunos usando ferramentas eletrônicas, como redes sociais e aplicativos de mensagens, e enviando atividades pela internet.

A mudança de rotina apresenta uma série de novos desafios para os educadores. Um deles é virar a chave do mundo da sala de aula presencial para o universo digital. Além de muitos alunos não terem acesso à tecnologia em casa e um ambiente minimamente adequado para estudar, existe a falta de intimidade com essa nova realidade de uma parcela significativa de professores. A busca por capacitações sobre o tema tem aumentado. No treinamento online sobre uso de recursos digitais em práticas da sala de aulada Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o número de professores inscritos passou de 120 (média mensal) para 800 no mês de março, de acordo com o Ministério da Educação (MEC).

Secretaria de Educação e gestão escolar devem fazer toda a articulação necessária para que professores aprendam, pouco a pouco, a pensar em atividades para serem feitas pelos alunos a distância e a utilizar os recursos necessários para que a dinâmica aconteça.  Ao coordenador pedagógicocabe provocar positivamente os professores para que trabalhem juntos, planejando, trocando ideias e pensando em soluções coletivamente. Conheça a seguir três histórias de educadores que estão conectados com alunos e familiares e inspire-se! No final da reportagem, NOVA ESCOLA apresenta algumas dicas para o trabalho entre professores e a comunicação com a família. 

Internet limitada

Greiton Toledo é professor de Matemática do Ensino Médio do Instituto Federal (IF) Goiano, em Ipameri (GO). O calendário escolar está suspenso entre 16 de março e 17 de abril por conta da pandemia e as aulas terão de ser repostas quando o problema passar. Mas no dia 27 de março, os professores do IF Goiano foram orientados a fazer um levantamento com as turmas sobre o acessoà internet que eles possuem. A perspectiva é que, mais adiante, a escola possa pensar em formas para alcançar todos a distância.“Ainda assim, a reitoria decidiu que tudo o que for trabalhado na quarentena não pode ser considerado como aula dada ou conteúdo ministrado, nem ser contabilizado como carga horária e dia letivo efetivado”, conta o professor.

A pretensão por enquanto não tem como foco principal somente os conteúdos curriculares. “Vou propor revisões, é claro, mas também estou trabalhando para levar para os estudantes conhecimentos sobre a pandemia, manter vínculo e mediar o contato entre eles e as informações da mídia”, relata Greiton. Ele játem usado o stories do Instagram de seu perfil pessoal e o grupo de WhatsApp com as turmas para levantar debates e reflexões sobre o novo coronavírus.

Colegas de Greiton também estão em contato com os estudantes, graças a grupos de WhatsApp que mantinham com os estudantes antes da suspensão das aulas por causa do coronavírus. E todos estão recorrendo a materiais midiáticos: listas de atividades são enviadas por e-mail, conteúdos disponibilizados na plataforma Moodle, além de vídeos no YouTube.
“Boa parte dos estudantes é de família carente, que tem dificuldades financeiras. Nem todos possuem computador em casa e os que têm celular, têm pacote de dados limitados para acessar a internet”, conta o professor. Ele explica que tem material organizado em outros tempos que servem para Educação a distância. “Mas o que fazer com aqueles que não puderem ter acesso? Vamos ter de pensar com muito cuidado sobre isso”, insiste Greiton. 

Periferia conectada com Google Classroom

Em Volta Redonda (RJ), as escolas públicas municipais esteve em recesso até dia 27 de março (e a Secretaria de Educação local não havia comunicado até o fechamento desta reportagem o que vai acontecer daqui em diante). Assim que o anúncio do período sem aulas foi comunicado pelas escolas para alunos e familiares, o diretor Luiz Felipe Nóbrega, da EM Walmir de Freitas Monteiro, se organizou com os educadores e gestores da unidade e se conectou com os alunos. Para isso, acessou o grupo de WhatsApp que a escola já mantinha com os responsáveis e pediu autorização para criar um grupo com os alunos. Agora, de acordo com Felipe, a escola, que tem pouco menos que 600 alunos do 6º ao 9º ano, está em contato com cerca de 84% dos estudantes. “Estamos cadastrando todos eles no Google Classroom, vamos ensinar a usá-lo e, mais adiante, trabalhar no esquema a distância, se essa for determinação da Secretaria de Educação. Os alunos estão engajados, ficam conectados até altas horas, eu tenho de pedir para irem dormir”, diz ele.

Os 44 professores da escola também estão empenhados para que a iniciativa dê certo. O diretor conta que nenhuma decisão sobre o uso da ferramenta online foi tomada sem antes consultá-los. Inclusive, aqueles que não têm familiaridade com a tecnologia, não precisam se preocupar. O diretor explica que além de ter tempo para que aprendam, esses docentes poderão contribuir. Isso porque além do digital,a escola prevê conteúdos impressos, que serão encaminhado para estudantes que não tiverem condições de acessá-lo online. “Tudo vai ser planejado com calma, pensado e repensado”, pondera Felipe.“Não adianta apresentarmos vídeos em que o professor fala, fala, fala e os alunos só assistem. Ninguém vai se interessar por isso. Vamos também aproveitar o que já existe na internet, aulas em vídeo e atividades que tenham qualidade, para indicar como conteúdo”.

Ele aposta que famílias e estudantes da EM Walmir de Freitas Monteiro vão colaborar para o esquema a distância dar certo. Felipe conta que alguns pais estão pedindo no grupo de WhatsApp para a escola indicar atividades o quanto antes para não deixar as crianças ociosas. Outros já disseram que embora tenham só um celular em casa, a prioridade é que o filho use o aparelho para estudar. A escola tem permissão da Secretaria de Educação local para trabalhar com o Google Classroom de maneira experimental nesse momento. “É uma oportunidade, embora esteja acontecendo em uma época tensa. Há tempos queremos trabalhar com essa ferramenta e isso sempre era postergado por algum motivo. Agora é a hora e, depois que o isolamento provocado pelo coronavírus passar, certamente vamos continuar investindo em tecnologia para melhorar a aprendizagem”, conta.

Rotina de estudos com mensagens no Facebook

Dia 16 de março, logo depois que a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo informou às escolas que as aulas seriam suspensas a partir do dia 23 em decorrência da pandemia por 15 dias, as escolas receberam a orientação de ficar em contato com a família dos alunos para que eles mantivessem uma rotina diária de estudo nos próximos 15 dias (entre 6 e 20 de abril, a rede entrará em período de férias). Então, a coordenadora pedagógica Maria Teresa Cruz de Moraes, da EE Professora Conceição Ribeiro, em Campinas (SP), articulou com o grupo de 26 professores que o Facebook e o WhatsApp seriam os meios de comunicação para que pais e crianças do 1º o 5º ano ficassem sabendo das tarefas disponibilizadas na plataforma Padlet.

“Na semana em que as aulas foram parando gradativamente, colocamos um mural no portão da escola, com todas as informações sobre o que aconteceria no período de recesso”, conta Maria Teresa. Com isso, a coordenadora conseguiu mapear antecipadamente alguns obstáculos e garantir que todos tivessem acesso às atividades propostas. “Para aqueles que disseram não ter condições de acessar os materiais pela internet, providenciamos cópias impressas das primeiras rotinas”. 

Conforme orientação da secretaria, não estão sendo apresentados conteúdos novos para as crianças. Maria Teresa explica que as atividades disponibilizadas pela internet fazem uma retomada do que estava sendo visto e são elaboradas sempre pensando que as crianças têm de ter o máximo de autonomia possível para realizá-las e que os pais e responsáveis possam orientá-las quando necessário. “Todas as produções serão analisadas quando voltarmos às aulas, para que os professores saibam como está cada aluno e o que é preciso fazer para prosseguir, sem deixar nenhum para trás”, conta a coordenadora pedagógica.

A criançada parece estar realmente empolgada. Muitos pais têm postado no Facebook da escola fotos dos alunos fazendo as tarefas e usam esse canal também para conversar com a escola sobre as tarefas e a rotina dos estudantes.

PARA SE COMUNICAR EM PERÍODOS DE QUARENTENA

Roberta Panico, pedagoga e diretora de Desenvolvimento Educacional da Comunidade Educativa CEDAC (CE CEDAC), reforça que os educadores podem se apoiar nesse processo.“Não faz sentido um professor trabalhar sozinho e contemplar somente a turma de alunos dele. Mas isso pode acontecer quando um é mais ligado à internet do que os demais colegas”, diz. Para criar essa rede de apoio entre os docentes, vale criar grupos de WhatsApp e propor reuniões virtuais, por meio de ferramentas gratuitas, como Zoom e Google Hangouts, para que o trabalho aconteça verdadeiramente.

É importante também a escola saber se comunicar com as famílias. Além de pesquisar os canais mais adequados e mais acessados pelos pais (geralmente, o WhatsApp), é preciso ter sempre em mente que eles não são educadores (muitos, inclusive, têm baixa escolaridade) e não devem receber a carga de ensinar conteúdos escolares para os filhos. “Se a gestão escolar já tinha um bom vínculo com a família dos alunos, tudo tende a ser mais fácil agora porque todos já têm algum tipo de conexão entre si e são envolvidos com a escola”, diz Roberta. Ela indica que gestores e professores conversem a distância com os familiares, informando-os sobre as decisões da secretaria de Educação a respeito das mudanças no calendário escolar, além de orientá-los sobre como eles podem ajudar a organizar e cobrar a rotina de estudo dos filhos. “É importante tambémexplicar como a casa pode ser transformada em um espaço de aprendizagem, com atividades simples, feitas em família - como jogar dominó, preparar uma receita de bolo, lendo os ingredientes da receita e separando as quantidades”.

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