Para relacionar com a BNCC: 3 epidemias que mudaram o Brasil

Saiba como incluir a varíola, a febre amarela e a gripe espanhola em aulas sobre os períodos colonial, imperial e republicano

POR:
Miguel Martins
Litogravura:  Johann Moritz Rugendas

Como uma população de milhões de nativos foi reduzida a cerca de 800 mil, número atual de indígenas que residem no Brasil? Fatores como a escravidão e os conflitos militares ajudam a explicar, mas não são suficientes. Uma violência microscópica foi fundamental para dizimar os povos originais do nosso território: os vírus e as bactérias. A chegada de doenças como a varíola pelas rotas oceânicas teve peso decisivo nos primeiros séculos da colonização.

Em meio à pandemia de coronavírus, abordar o impacto de diferentes epidemias no território brasileiro pode ser uma boa forma de trabalhar – mesmo a distância – diferentes períodos da nossa história. As interações entre diferentes etnias, a distribuição territorial da população brasileira em diferentes épocas e os processos de modernização e seus respectivos impactos são algumas das habilidades possíveis de serem exploradas dentro do tema.

Confira abaixo um panorama de três epidemias que assolaram o Brasil em diferentes períodos e as habilidades da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) de História que podem ser desenvolvidas para o 7º, 8º e 9º anos do Ensino Fundamental.

VARÍOLA

Causada pelo vírus variola major ou variola minor, a doença era chamada na época da colonização de “bexigas”

Sintomas: manifestava-se inicialmente por meio de febres e vômitos. Em uma segunda fase, formavam-se úlceras na boca e erupções na pele, que evoluíam para bolhas ao longo dos dias de infecção.

Período: Brasil Colônia

Impacto: vitimou milhares de indígenas durante a colonização

Para trabalhar: as consequências do contato dos nativos com europeus e africanos

Habilidades da BNCC

(EF07HI02) Identificar conexões e interações entre as sociedades do Novo Mundo, da Europa, da África e da Ásia no contexto das navegações e indicar a complexidade e as interações que ocorrem nos Oceanos Atlântico, Índico e Pacífico.

(EF07HI12) Identificar a distribuição territorial da população brasileira em diferentes épocas, considerando a diversidade étnico-racial e étnico-cultural (indígena, africana, europeia e asiática.

A Rota das Epidemias pelo Mundo

Os indígenas no Brasil tinham pouca diversidade genética. O principal motivo era a distância entre os vários povos residentes no território brasileiro e os contatos limitados com outras populações nativas da América do Sul, como os Incas. Isso pode ter resultado na dificuldade de resistirem à invasão de agentes patogênicos, como explica o historiador Luiz Felipe de Alencastro na obra O Tráfico dos Viventes Formação do Brasil no Atlântico Sul.

O contato biológico dos indígenas com europeus e africanos foi devastador. Segundo a pesquisadora e médica Cristina Gurgel, autora do livro Doenças e Curas — O Brasil nos Primeiros Séculos, as estimativas de queda da população original no continente americano variam de 25% a até impressionantes 96%.

Surtos de gripe influenza, pneumonias e doenças sexualmente transmissíveis como a sífilis tiveram grande impacto negativo, mas nenhuma delas agiu de forma tão devastadora como a varíola.  

Várias epidemias de "bexigas", como era conhecida a varíola, atingiram a população indígena brasileira. A mais relevante delas ocorreu entre 1563 e 1564, quando os nativos morreram aos milhares — 30 mil em apenas três meses. De acordo com a obra de Cristina Gurgel, 30% a 50% dos indígenas sucumbiam à doença logo nos primeiros dias de contágio. Além da contaminação involuntária pela doença, havia quem a usasse como arma biológica. “Cientes de que roupas de varólicos podiam transmitir o mal, os colonizadores propositadamente deixavam-nas próximas às aldeias cuja população queriam destruir”, escreve a pesquisadora em Doenças e Curas

Iniciada em Portugal um ano antes, a epidemia de 1563-1564 chegou primeiramente em Itaparica, na Bahia, espalhando-se mais tarde por Ilhéus. Após esse surto, a doença voltou a se disseminar em 1560, quando africanos foram trazidos por traficantes de escravos à América Portuguesa. Outras epidemias foram registradas no período colonial em 1616, 1621, 1631, 1642, 1662-1663, 1665-1666 e 1680-1684.

Considerada erradicada no mundo atualmente, a varíola atravessou os séculos no Brasil. Passou a ser controlada principalmente a partir da criação da vacina, empregada com certa regularidade no país somente a partir de 1811.

Confira planos de aula sobre
indígenas no Brasil Colônia
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FEBRE AMARELA

Seu vírus, do genêro Flavivirus, é transmitido principalmente por meio da picada do mosquito Aedes aegypt, hoje mais conhecido como vetor da dengue

Sintomas: febre, dores musculares, dor de cabeça, perda de apetite e náuseas e vômitos.

Período: Império

Impacto: principal surto da doença ocorre entre 1849 e 1850, quando um navio negreiro procedente de Nova Orleans fez escalas no Rio de Janeiro e Salvador. Segundo estimativas, a disseminação da doença a partir da tripulação infectada da embarcação atingiu 90.658 dos 266 mil habitantes do Rio de Janeiro e causou até 15 mil mortes

Para trabalhar: aspectos sociais, culturais e políticos do Segundo Reinado

Febre amarela "ceifando" vidas no carnaval de 1876 - Charge:  Angelo Agostini/ Revista Illustrada

Habilidade da BNCC

(EF08HI15) Identificar e analisar o equilíbrio das forças e os sujeitos envolvidos nas disputas políticas durante o Primeiro e o Segundo Reinado.

Surtos de febre amarela acompanharam a história da formação do Brasil, mas no século 19 ela se tornou endêmica e motivo de preocupação para o imperador Dom Pedro II. Em meio aos surtos da doença no Rio de Janeiro e em diversas províncias do império, o monarca chegou a convidar o famoso microbiologista francês Louis Pausteur para vir ao Brasil estudar o preparo de uma vacina, segundo narra a obra História da Febre Amarela no Brasil, do médico Odair Franco, de 1969.

O engajamento do imperador não era para menos. Segundo a Fundação Oswaldo Cruz, a febre amarela foi o maior problema de saúde pública do país desde meados do século 19 até quase a metade do século 20. Em razão da epidemia, foi constituída no império a Junta de Higiene Pública, que em 1886 transformou-se em Inspetoria Geral de Higiene e Inspetoria Geral de Saúde dos Portos.

Os pesquisadores se dividem sobre a origem da febre amarela. Alguns acreditam ser de origem americana, outros surgida na África e trazida pelo continente através do comércio de escravos.

O império viveu outros surtos da doença. Em 1873 e 1876, foram registrados 3,6 mil óbitos e 3,4 mil óbitos no Rio de Janeiro, respectivamente. Embora tenham sido realizadas obras de saneamento para controlar a doença, não se sabia exatamente como era transmitida.

A hipótese de que o vetor da febre amarela era o Aedes Aegypt passou a ganhar força nos Estados Unidos e em Cuba na virada do século 19 para o 20. No Brasil, a campanha de combate ao mosquito foi iniciada em abril de 1903 pelo médico Oswaldo Cruz, à frente do Serviço de Profilaxia Específica da Febre Amarela. O Rio de Janeiro foi dividido em dez distritos sanitários para notificar os enfermos e intimar donos de imóveis considerados insalubres.

Para eliminar os focos de reprodução do mosquito, Oswaldo Cruz criou as brigadas sanitárias, ou equipes de mata-mosquitos, como eram chamadas pela população. Essas brigadas percorriam residências e ruas realizando a desinfecção de locais que poderiam ter larvas do inseto. Em 1907, já não se falava mais da epidemia de febre amarela no Rio de Janeiro. Após a Revolução de 1930, o mosquito foi praticamente eliminado no país e só ressurgiria nos anos 1960. Hoje, é responsável pela transmissão da dengue.

Confira planos de aula 
sobre o Brasil império

GRIPE ESPANHOLA DE 1918

Causada pelo vírus Influenza A, do subtipo H1N1

Sintomas: febre, problemas respiratórios e, algumas vezes, distúrbios gastrintestinais

Período: República

Impacto: calcula-se que o vírus tenha matado de 17 a 50 milhões de pessoas em todo mundo. Há algumas estimativas que falam em 100 milhões de vítimas. No Brasil, 8% a 10% da população pode ter morrido por complicações relacionadas à gripe. 

Para trabalhar: os limites da modernização do país na Primeira República

Foto: Fon Fon/Biblioteca Nacional

Habilidades da BNCC

(EF09HI01) Descrever e contextualizar os principais aspectos sociais, culturais, econômicos e políticos da emergência da República no Brasil. 

(EF09HI05) Identificar os processos de urbanização e modernização da sociedade brasileira e avaliar suas contradições e impactos na região em que vive.

Se em 1918 a febre amarela não era mais endêmica na capital do Brasil, naquele ano uma nova epidemia atingiu em cheio o Rio de Janeiro e o restante país: a gripe espanhola.

Possivelmente, ela surgiu nos Estados Unidos, cuja entrada nos esforços da Primeira Guerra Mundial acelerou sua disseminação pelo continente europeu no fim do conflito militar. O Brasil seria atingido pela gripe a partir de setembro de 1918. O navio inglês Demerara trouxe uma tripulação infectada para portos do Nordeste, como Recife e Salvador, e fez escalas na costa brasileira até chegar ao Rio de Janeiro e ao Porto de Santos. Na sequência, a doença avançou pelo interior do Brasil através das ferrovias que conectavam produtos como o café ao mercado internacional.

Leandro Carvalho, doutor em História pela Universidade Federal do Goiás e chefe do departamento da Área Acadêmica do Instituto Federal de Goiás, é autor de dois estudos sobre os impactos da gripe espanhola no Brasil.

Segundo o pesquisador, é difícil precisar quantas pessoas foram realmente infectadas no Brasil em 1918, assim como ocorre em relação aos dados disponíveis sobre o coronavírus. (leia a entrevista na íntegra em NOVA ESCOLA BOX). "As fontes a que tive acesso na cidade de Goiás, por exemplo, não relatavam mortes por gripe espanhola", explica. "Era uma doença multifatorial. Os atestados de óbito registravam principalmente mortes por doenças respiratórias, como broncopneumonia e pneumonia aguda".

Por esse motivo, Leandro considera baixo o registro oficial de 35 mil mortes por gripe espanhola no Brasil. Ele calcula que 30% a 40% da população foi infectada, e 8% a 10% morreu em decorrência de complicações relacionadas à gripe. Ele lembra que até mesmo Rodrigues Alves, presidente eleito em 1918, não resistiu à doença e morreu em janeiro do ano seguinte.  

É possível traçar paralelos entre a atual pandemia de coronavírus e a da gripe espanhola (veja uma sugestão de atividade aqui). Uma das primeiras medidas tomadas no Brasil em 1918 foi a suspensão das aulas. Em seguida, eventos e locais que promoviam aglomerações como festas, bailes, matinês e teatros foram proibidos.

Embora a atuação de Oswaldo Cruz tenha sido essencial para combater a epidemia de febre amarela, o Brasil ainda estava muito longe de possuir um amplo sistema de saúde público em 1918. Leandro lembra que a própria Fundação Oswaldo Cruz e médicos como Carlos Chagas passaram a buscar políticas de prevenção, e não apenas de combate a focos da doença. Com isso, surgiu em São Paulo na década 1920 o Instituto de Higiene e na década de 1930 o Ministério da Educação e Saúde.

A ausência de uma resposta imediata dos médicos sobre como combater a epidemia levou grande parte da população a buscar refúgio em práticas populares de cura, conta Leandro. "A pinga com limão era muito recomendada na época". Não à toa, o Instituto Brasileiro da Cachaça considera que a invenção da caipirinha remonta a esse período. 

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PARA SABER MAIS

 O Tráfico dos Viventes Formação do Brasil no Atlântico Sul, de Luiz Felipe de Alencastro

Doenças e Curas — O Brasil nos Primeiros Séculos, de Cristina Gurgel

História da Febre Amarela no Brasil, de  Odair Franco 

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