A Matemática do coronavírus

Veja algumas sugestões para se trabalhar probabilidade e estatística usando o Covid-19 como tema central

POR:
Selene Coletti
Foto: Getty Image

As primeiras notícias sobre o novo coronavírus, conhecido cientificamente como Covid-19, e o contato com ele pareciam estar muito distantes de todos nós. Porém rapidamente instalou-se no nosso país e vem produzindo tantas discussões e mudanças em nossas vidas.

A fluidez das notícias e da própria situação nos faz refletir sobre as nossas atitudes e as dos outros frente ao problema, o que implica pensar nos cidadãos que estamos formando. Vemos muitos na contramão e isso significa que em algum ponto eles se perderam, entretanto não podemos desistir. Precisamos pensar em outras maneiras de trabalhar e mudar a situação.

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Reflexões a parte, o assunto envole também um grande tema: a matemática. 

Retomando as ideias de interdisciplinaridade do nosso “encontro anterior”, podemos, por meio da Matemática, contribuir para as discussões da atual situação e da formação de um cidadão conectado com o outro e suas necessidades. Assim, atendendo às competências específicas da Matemática para o Ensino Fundamental e as competências gerais contidas na Base Nacional Comum Curricular. Você pode utilizar esse conteúdo também na volta às aulas, se sua escola está paralisada.

Para isso, proponho a utilização da unidade temática “Probabilidade e Estatística” com foco nas habilidades de:

(EF04MA27) Analisar dados apresentados em tabelas simples ou de dupla entrada e em gráficos de colunas ou pictóricos, com base em informações das diferentes áreas do conhecimento, e produzir texto com a síntese de sua análise.

(EF04MA28) Realizar pesquisa envolvendo variáveis categóricas e numéricas e organizar dados coletados por meio de tabelas e gráficos de colunas simples ou agrupadas, com e sem uso de tecnologias digitais

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(EF05MA24)  Interpretar dados estatísticos apresentados em textos, tabelas e gráficos (colunas ou linhas), referentes a outras áreas do conhecimento ou a outros contextos, como saúde e trânsito, e produzir textos com o objetivo de sintetizar conclusões.

(EF05MA25) Realizar pesquisa envolvendo variáveis categóricas e numéricas, organizar dados coletados por meio de tabelas, gráficos de colunas, pictóricos e de linhas, com e sem uso de tecnologias digitais, e apresentar texto escrito sobre a finalidade da pesquisa e a síntese dos resultados.

Essas habilidades se referem ao 4º e 5º ano, porém podem ser adaptadas conforme a faixa etária a que se destina.

Como começar

A roda de conversa é a estratégia sugerida para (re)introduzir o tema, começando com a discussão sobre a manchete e o trecho da notícia seguinte:

“Ministério da Saúde alerta hospitais sobre pico do Coronavírus” – 11/03/2020 – Folha de São Paulo “Os primeiros casos contaminaram de duas a 3 pessoas. Agora a progressão é geométrica, não tem jeito. É um para dois, dois para quatro, quatro para oito, oito para 16. ”

É importante questionar o que a turma compreende sobre “pico do coronavírus” bem como a questão da progressão geométrica a partir do trecho “é um para dois, dois para quatro, quatro para oito, oito para 16” explicitando o que isso significa na prática.

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O termo “progressão geométrica” pode ser explicado a partir das boas perguntas feitas pelo professor explorando o que significa progredir, o que é progredir de um para dois, dois para a quatro...

Após essa conversa, trazer o seguinte gráfico que irá completar a discussão inicial e poderá ser analisado pelos alunos. Como o gráfico é algo que é trabalhado ao longo do percurso escolar, certamente não encontrarão dificuldades.

Fonte: Folha de São Paulo

É importante explorar algumas questões:

> Sobre o que se trata o gráfico?
> O que significa os números que aparecem na linha horizontal? E na vertical?
> Quando ocorre o primeiro caso?
> Quantos casos há em 4/3, 11/3 e17/3? O que aconteceu em relação ao início?
> Por que você acha que os casos estão aumentando?
> De acordo com uma pesquisa recente para cada caso conhecido pode haver 5 ou mais infectados desconhecidos. Levando isso em consideração, qual seria o total de infectados no dia 4? E no dia 11? E no dia 17?
> A que conclusão é possível chegar?

Conforme a turma, pode ser apresentado o gráfico seguinte comparando o Brasil e a Itália, mostrando a evolução do ao longo dos dias nesses dois países, sendo possível chegar a conclusões importantes:

> No início da epidemia, quantos casos a Itália apresentou? E o Brasil, no mesmo período? O que é possível concluir a partir disso?

Fonte: Folha de São Paulo

No momento dessas discussões, ouvir a turma com atenção, dando voz e vez a todos é fundamental.

Depois disso, propor que os alunos em duplas ou grupos, produzam um texto que represente a análise do gráfico. Eles podem se pautar pelas perguntas iniciais. É importante incentivar os alunos a utilizarem os conhecimentos que já possuem sobre o novo coronavírus.

Na sequência, os grupos irão compartilhar suas conclusões na classe e depois poderão apresentar para as outras turmas. Ou ainda organizar propagandas por meio de folhetos, infográficos ou cartazes para serem distribuídos na comunidade.

Outra possibilidade é propor uma pesquisa referente aos cuidados com o covid-19. É importante escolher as perguntas com os alunos, organizar o questionário, realizar as entrevistas (cada aluno poderá entrevistar de duas a três pessoas). Depois fazer o levantamento dos dados coletados e produzir os gráficos que poderão ser feitos, pelas crianças, utilizando o Word ou Excel. Depois de prontos, a turma organiza uma análise dos dados coletados. Gráficos e análise serão expostos no pátio para socializar o conhecimento com todos.

Trabalhei seguindo essa estratégia com uma classe de 1º ano. Os pequenos deram um show, seja fazendo a pesquisa, seja compartilhando os conhecimentos!

Essas são algumas propostas que permitem aos alunos desenvolver o espírito de investigação e participação aproximando-se de uma Matemática mais real, abordando uma grande questão de urgência social.

Mudando estratégias e olhares conseguiremos avançar na aplicação de competências e habilidades valorizando princípios éticos e solidários,

E você, professora e professor, o que pensa sobre isso tudo? Sua sala de aula acompanha essa fluidez? Está conectada com essas questões?

Um abraço e até a próxima,

Selene

Selene Coletti é professora há 39 anos na rede pública. Atua na Educação Infantil e foi alfabetizadora por 10 anos tendo trabalhado do 1º ao 5º ano. Recebeu, em 2016, da Fundação Victor Civita, o Prêmio Educador Nota 10 com o projeto “Mapas do Tesouro que são um tesouro”, na área de Matemática. Foi diretora de escola e recebeu, em 2004, o Prêmio “Gestão para o Sucesso Escolar”, do Instituto Protagonistes/Fundação Lemann. Atuou como coordenadora do Núcleo de Formação Continuada do município. Atualmente é formadora da Educação Infantil, na Prefeitura de Itatiba.

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