A experiência de duas creches que colocam a criança no centro do trabalho

Conheça instituições que valorizam o protagonismo dos pequenos e a importância das brincadeiras, dois pilares fundamentais da BNCC

POR:
Miguel Martins
Foto: Samanta Veiga

“Se não tivermos os olhos voltados para as crianças, faremos algo que é interessante apenas para nós adultos”, reflete o professor Petterson William de Sousa, do CMEI Fúlvia Rosemberg, em Maceió (AL). Embora o uso da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) seja uma novidade em sua rotina com os pequenos, Petterson traduz de forma simples o que documento prevê: o papel ativo da criança no seu próprio desenvolvimento, apoiado por momentos estruturados de interações e brincadeiras.

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O interesse e a curiosidade dos pequenos é um bom ponto de partida para creches desenvolverem atividades que sejam capazes de contemplar as competências gerais da Base, os seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento da Educação Infantil, os cinco campos de experiência e seus respectivos objetivos de aprendizagem e desenvolvimento (entenda mais sobre a Base clicando aqui). Acima de tudo, é quando se encara o pequeno como protagonista que se consegue abordar esse conjunto de diretrizes de forma integrada e orgânica.

Nessa reportagem, conversamos com gestores e professores da CMEI Fúlvia Rosemberg e do CEI Manoel Bispo Dos Santos, em São Paulo, que se esforçam, cada uma a sua maneira, em garantir o papel ativo dos pequenos. São sugestões de atividades, organização e rotina capazes de acomodar diversos pontos indicados pela Base, que passa a vigorar de forma obrigatória nas escolas públicas e particulares brasileiras em 2020.

CMEI Fúlvia Rosemberg: a natureza como inspiração para as atividades

A curiosidade de uma criança sempre floresce no contato com a natureza. A cantoria de uma cigarra, os tons e a consistência da terra em que se brinca, os alimentos cultivados em uma horta antes de irem à mesa. Nesse universo de sons, cores, transformações e interações que o contato com o meio ambiente proporciona, a BNCC ganha vida.

Ao aproveitar sua ampla área externa como estímulo à curiosidade das crianças, o CMEI Fúlvia Rosemberg valoriza a voz e as experiências dos pequenos, além de suas vivências com os professores, para o planejamento das atividades. A equipe da creche costuma organizar assembleias com a meninada, que manifesta suas curiosidades para depois realizar “investigações” sobre diversos temas.   

O potente som das cigarras que povoam as árvores do terreno da creche inspirou uma dessas investigações. Durante um passeio na área externa, crianças de 1 e 2 anos descobriram que as cigarras deixavam para trás um “casulo” agarrado aos troncos. Essa casca vazia é na verdade o exoesqueleto do inseto, que ele abandona antes de inflar as asas e chegar à idade adulta. Uma descoberta não apenas para os pequenos, mas também para seus professores.

A curiosidade surgida a partir das brincadeiras ao ar livre logo motivou diversas atividades relacionadas. A narração da fábula A Cigarra e a Formiga, importante para desenvolver uma reflexão sobre a hora da diversão e das obrigações, foi a primeira delas. Depois, as crianças se informaram sobre a alimentação do inseto e o motivo da cantoria, além de gravarem o som das cigarras e de tentar imitá-las. A creche montou ainda um insetário para catalogar os diferentes tamanhos, formas, idades e cores do bicho.

Os campos de experiência na investigação sobre as cigarras

Foto: Equipe CMEI Fúlvia Rosemberg

Vários campos de experiência foram contemplados durante a investigação sobre as cigarras. Dois bons exemplos citados por Rozana Bandeira de Melo, gestora pedagógica da Fúlvia Rosemberg, são:

Corpo, gestos e movimentos: ao imitarem as cigarras em meio a uma dramatização, as crianças de 1 e 2 anos puderam trabalhar objetivos de aprendizagem como “Imitar gestos e movimentos de outras crianças, adultos e animais (EI01CG03)”. Ao fazerem um catálogo dos tipos de cigarra, além de desenhar e pintar exemplares do inseto, as crianças conseguiram trabalhar o objetivo “Desenvolver progressivamente as habilidades manuais, adquirindo controle para desenhar, pintar, rasgar, folhear, entre outros (EI02CG05)”.

Traços, sons, cores e formas: Ao tentarem reproduzir a cantoria das cigarras durante a dramatização, os pequenos também puderam “Explorar diferentes fontes sonoras e materiais para acompanhar brincadeiras cantadas, canções, músicas e melodias (EI01TS03)” ou “Utilizar diferentes fontes sonoras disponíveis no ambiente em brincadeiras cantadas, canções, músicas e melodias (EI02TS03)”.

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A adaptação à BNCC tem sido um processo natural para a creche, conta a gestora pedagógica Rozana Bandeira de Melo. “Como já vínhamos nesse movimento de valorizar a brincadeira e ter uma sensibilidade em relação ao interesse da criança, nós já trabalhávamos com diversas orientações do documento antes mesmo de ele ser construído”, explica a gestora.

A Fúlvia Rosemberg se beneficia de um histórico de boas práticas municipais. A Rede Municipal de Maceió é vinculada ao programa de formação de profissionais de Educação Infantil Paralapracá, realizado pela Avante – Educação e Mobilização Social, o que estimulou a adoção de uma proposta de valorização das brincadeiras e de maior protagonismo das crianças na capital alagoana. Além disso, Rozana levou da creche Te-Arte, de São Paulo, a inspiração para desenvolver a pedagogia brincante da Fúlvia Rosemberg. Ela é autora do livro É brincando que se aprende – a experiência da Te-Arte na Educação Infantil, que descreve as abordagens e atividades desenvolvidas na instituição onde a gestora fez um estágio.

A investigação sobre as cigarras é só uma das várias atividades desenvolvidas pelos professores da creche que combinam relação com meio ambiente, interesse das crianças e aplicação da BNCC na prática.

O professor Petterson, por exemplo, percebeu que um grupo de crianças acima de 2 anos tinha grande interesse em entender por que o terreno da Fúlvia Rosemberg apresenta diferentes tipos de terra nos vários espaços da creche. A parte da frente é arborizada e o solo, mais fresco e adequado para o cultivo de plantas. Nos fundos, conhecido pela comunidade escolar como “sertão”, encontra-se uma terra mais dura e seca, onde não há árvores.

Ao longo do ano passado, as crianças se arriscaram em diferentes tipos de plantio.  Experimentaram o cultivo de plantas mais apropriadas para o solo arenoso do fundo da creche. Cultivaram também alimentos em uma horta, criada por estudantes da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). O milho plantado pelos pequenos foi colhido a tempo de ser usado na Festa Junina do ano passado. E as famílias também estão presentes: recentemente, um avô de uma das crianças colocou sua carroça à disposição para ajudar na conservação do jardim da creche.

Petterson explica que essa e outras atividades procuram trabalhar os campos de experiência de uma forma integrada. “Não temos como trabalhar o campo O eu, o outro e o nós sem pensar na sua relação com Corpo, gestos e movimentos e Traços, sons, cores e formas”, diz o professor. “Ao lermos a Base, temos a impressão de que cada campo deve ser trabalhado isoladamente.”

A impressão de Petterson pode ser a de muitos professores de Educação Infantil. A psicóloga e doutora em Educação Beatriz Ferraz, assessora dos planos de atividade da NOVA ESCOLA, aconselha os profissionais de Educação Infantil a estudarem muito bem os objetivos de aprendizagem de cada campo, justamente para constatar que há uma grande relação entre eles. 

“A Base traz um marco que é a perspectiva da Educação Integral, ou seja, de entender o processo de ensino e aprendizagem como algo holístico”, explica Beatriz. “Muitas vezes, as creches têm dificuldade de entender como aplicar a Base por se espelhar em outras etapas, que dividem o conhecimento por disciplinas. Mas a abordagem da BNCC de Educação Infantil é apoiar o professor a pensar de forma integrada”.

CEI Manoel Bispo dos Santos: Organização que garante o protagonismo da criança

Assim como a Fúlvia Rosemberg, o CEI Manoel Bispo dos Santos, em São Paulo, também já adotava práticas que hoje a Base prevê. Desde 2006, o CEI, mantido pela ONG Grão da Vida, organiza o espaço da creche de forma a estimular as brincadeiras e a liberdade das crianças. Ao concentrar suas atividades no parque localizado em sua área externa, a creche coloca o brincar no centro de sua proposta pedagógica.

A rotina flexível é um dos grandes diferenciais. As crianças começam o dia com brincadeiras na sala de referência, tomam café da manhã e depois misturam-se a pequenos de outras faixas etárias no parque, onde podem escolher brincar com aquilo que lhes interessam ou participar de um dos quatro cantinhos temáticos, chamados de “núcleos coletivos para o parque”. São eles: o núcleo de corpo, de brincadeiras, de histórias, parlendas, trava-línguas e de artes, intervenções e materiais.  

“Essa forma de organização da rotina permite uma série de relações com a BNCC”, diz Vera Christina Figueiredo, responsável pelo projeto pedagógico da Grão de Vida. “Com os núcleos e a liberdade de escolha, conseguimos garantir para as crianças seus seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se.”

A creche também conta com outra forma de organização das atividades, que consegue acompanhar com maior foco os objetivos de aprendizagem previstos pela BNCC. São as chamadas “rodas de núcleos”. São atividades mais formais de aprendizagem, cujo objetivo é construir um repertório de cada tema trabalhado pelos núcleos, seja ele de brincadeira, história, arte ou corpo. Não são dinâmicas longas. Costumam durar de 15 a 20 minutos.

“É um contraponto às atividades desenvolvidas pelos núcleos”, explica Vera. “É importante por ser uma experiência de trabalho mais controlada, em que podemos acompanhar melhor as aprendizagens das crianças”.

Vera explica que os campos de experiência da BNCC são trabalhados tanto nos núcleos coletivos como nas rodas. Os primeiros acabam por contemplar os campos a partir das brincadeiras das crianças. Mas caso o professor queira garantir o desenvolvimento de alguns objetivos de aprendizagem presentes na BNCC, as rodas ajudam a sistematizar aquilo que as crianças desenvolveram.

“A Base contempla o que já vínhamos fazendo”, diz Vera. “Ela instalou um novo paradigma na Educação Infantil ao colocar o brincar no centro e valorizar a especificidade da criança pequena. A forma como trabalhamos na Manoel Bispo dos Santos pode inclusive ajudar outros professores e instituições a entenderem como aplicar o documento. ”

Beatriz considera que as instituições de Educação Infantil têm um grande desafio pela frente. “Historicamente, trabalhava-se com crianças pequenas a partir de uma abordagem pedagógica do Ensino Fundamental, com uma prática mais escolarizante”, reflete a especialista. “A Base convida a pensar a Educação Infantil a partir da aprendizagem da criança.”

Por outro lado, ela diz que é importante resguardar o importante papel do professor. “É um duplo protagonismo, uma busca por uma prática mais equilibrada. As crianças têm que estar no centro, mas em equilíbrio com um professor que será cada vez mais um orientador das atividades. ”

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