Planejamento na Educação Infantil: como aliar a BNCC às vivências com as crianças

A experiência com os pequenos em diálogo com as concepções presentes no documento são elementos importantes para projetar as práticas educativas na etapa

POR:
Evandro Tortora
Crédito: Getty Images

Iniciamos mais um ano letivo! Como em todo início de ano, fico ansioso para conhecer os pequenos que irão me acompanhar. Cada criança vai entrando na sala e se mostrando, com seu jeitinho sincero de viver a experiência de um novo ano que se inicia. Os mais tímidos ficam retraídos e pouco falam, os mais extrovertidos logo querem saber das brincadeiras que vamos fazer ao longo do dia e, nesse movimento gostoso de viver a Educação Infantil, vamos nos familiarizando com a meninada.

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O mais interessante nesse processo é o quanto a criança, antes mesmo de chegar na instituição de Educação Infantil, influencia na forma como planejamos nossas práticas. Algumas questões sempre me preocupam. Qual a melhor forma de organizar os espaços da sala para receber a turma? Quando as crianças chegarem, como recebê-las? Como vamos acolher as famílias?

Mas nem sempre fui assim. Lembro que, no meu primeiro ano de trabalho após me formar, me incomodava muito quando levava uma atividade para a turma e as crianças pouco se interessavam. Me sentia frustrado como professor por não saber como “conseguir a atenção” das crianças. Até que, com o tempo, aprendi que planejar para as crianças é uma via de mão dupla: ao mesmo tempo que planejo, tenho de estar aberto às formas como as crianças são afetadas pelos nossos fazeres. Nesse movimento de idas e vindas, as crianças me ensinam a ser professor!

Com minha turma de crianças, já passadas algumas semanas, começo a conhecer cada um dos pequenos e percebo como são singulares. Nesse momento é preciso ser responsivo às necessidades das crianças durante os meus planejamentos e execução das atividades. Por exemplo, na hora da roda inicial, há aqueles que sempre querem falar, aqueles que preferem não conversar e aqueles que, mesmo em silêncio, dizem muito sobre seus sentimentos. Conforme o tempo vai passando, vamos aprendendo a nos aproximar dos pequenos respeitando o jeitinho de cada um.

Hoje já tenho alguns parâmetros que me ajudam no planejamento das vivências da turma. Uma boa referência são alguns dos princípios que orientam a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) da Educação Infantil. Nesse documento, a criança é vista como protagonista das suas aprendizagens e que se desenvolve integralmente dentro de experiências por meio de múltiplas linguagens.

Quer um exemplo prático? A própria noção de campos de experiência pode ajudar a entender como as crianças aprendem em suas experiências. Antes eu pensava que deveria “trabalhar as cores” com as crianças, hoje penso que tenho de planejar vivências com as cores. Proponho à turma a produção pinturas para presentear pessoas queridas, montar um portfólio ou produzir uma obra de arte para nossa sala. Nessas vivências vão surgindo experiências que vão além do “conhecer o amarelo” ou “conhecer o azul”.

Lembro-me do dia em que um menino da minha turma ficou superanimado ao relatar que “inventou o verde”, pois misturou tinta azul e tinta amarela na sua pintura e uma nova cor surgiu. Meu coração se encheu de alegria quando ele relatou sua descoberta para turma e novas cores foram sendo descobertas ao longo de novas misturas. Aquela frustação do início da carreira de não conseguir atividades atrativas para as crianças com certeza tinha ficado pra trás!

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É interessante perceber nessa atividade como os campos de experiência interagem entre si. O campo “Traços, sons, cores e formas” da BNCC tem objetivos de aprendizagem e de desenvolvimento que se enquadram perfeitamente nesse contexto. Porém, outros podem ser explorados a partir da mesma vivência. Por exemplo, quando um dos pequenos sentiu a necessidade de compartilhar sua descoberta com seus amigos, surgiu a oportunidade de abordarmos o campo “Eu, o outro e o nós”, que tem como objetivo de aprendizagem “comunicar suas ideias e sentimentos a pessoas e grupos diversos”. Nesse sentido, sugeri que ele compartilhasse suas descobertas com o grupo de amigos ao seu redor, que faziam outras pinturas. A nova experiência logo foi reproduzida pelos colegas da turma.  

Essa possibilidade de expressão da criança também pode ser percebida no campo “Escuta, fala, pensamento e imaginação”. Nele, temos um objetivo de aprendizagem no qual a criança deve ter a oportunidade de “expressar ideias, desejos e sentimentos sobre suas vivências, por meio da linguagem oral e escrita (escrita espontânea), de fotos, desenhos e outras formas de expressão”. Esse objetivo foi contemplado na minha prática quando, por meio da linguagem oral e da pintura produzida, o pequeno pôde expressar suas ideias, sentimentos e descobertas para toda turma no momento da roda final, feita ao término do dia de atividades e antes da saída para casa. Até hoje as crianças “inventam” cores novas para suas pinturas misturando as tintas! :)

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Você consegue perceber, colega, que existe um movimento vivo nas aprendizagens das crianças que pulsa por meio das práticas planejadas por nós? O professor, tendo como documento orientador a BNCC e outros materiais que embasam seu planejamento, pode enriquecer as vivências e aprendizagens das crianças quando propõe determinadas intervenções que valorizem as descobertas e ideias das crianças.

Sobre a BNCC, percebemos que esse documento nos coloca o desafio de enxergar a criança como sujeitos que têm direito a conviver, participar, brincar, explorar, expressar-se e conhecer-se. São direitos que acompanham as trajetórias de aprendizagem das nossas crianças. Porém, para que esses direitos se concretizem, nós, professoras e professores, precisamos dar oportunidades para que as crianças vivam esses direitos intencionalmente por meio do planejamento.

Podemos perceber os direitos de aprendizagem em momentos planejados ao longo da rotina: na roda, a criança pode se expressar e participar do planejamento das atividades do dia; ao longo da rotina, ela brinca em diferentes espaços (como no parque ou com os brinquedos da sala), além de explorar diferentes materiais e elementos nesses ambientes; ao longo desse processo as crianças convivem com adultos e crianças explorando suas descobertas durante a rotina e em conjunto.

Nesse rico movimento de aprendizagens, o currículo da Educação Infantil torna-se vivo. Dentro dessa reflexão, podemos perceber que a BNCC é um documento que nos ajuda a construir os currículos da etapa. Segundo as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil, currículo é um conjunto de práticas que busca articular as experiências e os saberes das crianças com os conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural, artístico, ambiental, científico e tecnológico, de modo a promover o desenvolvimento integral de crianças de 0 a 5 anos de idade”.

Depois dessa definição de currículo, gostaria de voltar ao início do texto e perguntar-lhe: qual é o “conjunto de práticas” que você, colega professor e professora da Educação Infantil, está planejando para esse ano? Projetar essas práticas considerando os campos de experiência da BNCC é um bom ponto de partida para pensar nas experiências das crianças como formas de aprender.

Estou ansioso pelas aprendizagens que surgirão das experiências com minha nova turma.

Que tenhamos um ótimo ano letivo! Sigamos planejando, junto de nossas crianças. Afinal, se navegar é preciso, planejar também o é!

Um abraço carinhoso e até mais!

Evandro Tortora é professor de Educação Infantil há 7 anos na Prefeitura Municipal de Campinas, licenciado em Pedagogia e Matemática e doutor em Educação para Ciência pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Bauru. Além da docência na Educação Infantil, tem experiência com pesquisas na área da Educação Infantil e Educação Matemática, bem como desenvolve ações de formação continuada para professoras e professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental.

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