Incentivo à leitura na Educação Infantil: como envolver a família

Confira o que a escola pode fazer para incentivar essa parceria e entenda a proposta do programa Conta Pra Mim, dedicado aos pais e responsáveis

POR:
Miguel Martins
Crédito: Acervo pessoal/Ana Cláudia Soares

A pedagoga Ana Cláudia Soares colhe há oito anos os frutos de uma árvore que plantou na sala de leitura da EM Dom João VI, na zona norte do Rio de Janeiro. O caule é feito de tecido trançado, as folhas de papel craft com sulcos pintados de vermelho. Nos galhos, pendem poemas dos mais variados autores: de alunos, de uma inspetora, de um secretário escolar. Foi nesse “pé de poesia” cultivado por Ana Cláudia que a paixão pela leitura e pela escrita germinou dentro e fora dos muros da escola, próxima do Complexo do Alemão e da Maré. 

Faça o curso gratuito NOVA ESCOLA de Leitura Para Bebês

A sala de leitura comandada pela professora atende a turmas de pré-escola e de Anos Iniciais de Ensino Fundamental. Estimuladas pelo mural interativo idealizado por Ana Claudia, uma das finalistas da edição de 2019 do Prêmio Educador Nota 10, as crianças passaram a declamar poemas nos almoços familiares de domingo. Ao ouvir os filhos improvisando saraus em casa, os pais comentavam: “Nossa, essa escola é forte mesmo”. Não tardou para que alunos e funcionários passassem a frequentar um concurso de poesia organizado pela Prefeitura do Rio.

O “pé de poesia” fincou raízes. Hoje, as crianças têm geladeiras repletas de livros para se servirem no recreio. As menores contam suas histórias em um castelo de papelão para os colegas assistirem. E os responsáveis, além de assistirem a eventuais recitais de poesia em casa, participam das sessões de filmes do Cine Literário, projeto criado por Adailton Medeiros, do cinema Ponto Cine, e desenvolvido por Ana Cláudia.   

As iniciativas da professora mostram o que a escola pode fazer pelas famílias e como essa parceria pode ser produtiva. O incentivo à leitura é uma prática realizada de diferentes formas pelas escolas: há o empréstimo de livros aos finais de semana; a “mala viajante”, em que os pequenos levam para casa uma pasta ou sacola com livros e uma atividade para realizar com a participação dos responsáveis; os encontros de leitura, em que as famílias podem participar e fazer uma leitura para a turma; entre outras tantas ações, das mais tradicionais às mais inovadoras (veja mais dicas e práticas no tópico “Como os professores podem incentivar a leitura na Educação Infantil”).

O "pé de poesia" na EM Dom João VI / Crédito: Acervo Pessoal/Ana Cláudia Soares

O que a BNCC fala sobre leitura na Educação Infantil?

Os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento da BNCC preveem o incentivo à leitura para bebês na creche. Confira um trecho do documento sobre a prática:

“Desde cedo, a criança manifesta curiosidade com relação à cultura escrita: ao ouvir e acompanhar a leitura de textos, ao observar os muitos textos que circulam no contexto familiar, comunitário e escolar, ela vai construindo sua concepção de língua escrita, reconhecendo diferentes usos sociais da escrita, dos gêneros, suportes e portadores. Na Educação Infantil, a imersão na cultura escrita deve partir do que as crianças conhecem e das curiosidades que deixam transparecer. As experiências com a literatura infantil, propostas pelo educador, mediador entre os textos e as crianças, contribuem para o desenvolvimento do gosto pela leitura, do estímulo à imaginação e da ampliação do conhecimento de mundo. Além disso, o contato com histórias, contos, fábulas, poemas, cordéis etc. propicia a familiaridade com livros, com diferentes gêneros literários, a diferenciação entre ilustrações e escrita, a aprendizagem da direção da escrita e as formas corretas de manipulação de livros. Nesse convívio com textos escritos, as crianças vão construindo hipóteses sobre a escrita que se revelam, inicialmente, em rabiscos e garatujas e, à medida que vão conhecendo letras, em escritas espontâneas, não convencionais, mas já indicativas da compreensão da escrita como sistema de representação da língua.”

FONTE: BNNC, p. 42

A parceria entre escola e família no incentivo à leitura também é o pilar do Conta Pra Mim, programa do Ministério da Educação (MEC) lançado em 2019 que integra a Política Nacional de Alfabetização (PNA). Entretanto, o programa atende por uma outra lógica: ao invés de estabelecer ações para as instituições de ensino, ele foca no que a família pode fazer pela escola, sugerindo a adoção de práticas chamadas pelo MEC de “literacia familiar”. Até o momento, não há ações concretas do programa destinadas aos professores de Educação Infantil.    

Nesta reportagem, você vai entender um pouco melhor as ações previstas pelo MEC para incentivar a leitura pela família, a opinião de especialistas sobre o programa Conta Pra Mim e quais iniciativas podem ser feitas pela escola para encontrar apoio entre pais e responsáveis.

Para saber mais

Literacia é um conceito pouco utilizado entre pesquisadores brasileiros e mais comum à pedagogia norte-americana. Segundo a definição do MEC, literacia familiar é “o conjunto de práticas e experiências relacionadas com a linguagem oral, a leitura e a escrita, que as crianças vivenciam com seus pais ou responsáveis”.

O Conta Pra Mim teve início com a realização de eventos de leitura em shopping centers de nove capitais brasileiras, com a publicação de um guia destinado a pais e responsáveis para adotarem práticas de incentivo à leitura nos lares brasileiros e com a divulgação de vídeos promocionais do Urso Tito, mascote do programa.

De acordo com MEC, "a aprendizagem da linguagem oral, da leitura e da escrita começa em casa, na convivência entre pais e filhos". Entre as práticas sugeridas pelo guia do programa (acesse aqui) estão a interação verbal, com o objetivo de aumentar a quantidade e qualidade dos diálogos com as crianças; a leitura dialogada, que consiste em ler em voz alta para os pequenos; a narração de histórias; os contatos com a escrita; e atividades diversas como jogar, brincar, cantar e tocar instrumentos.

Renda e escolaridade

Apesar de os responsáveis pelo programa no MEC garantirem ter como objetivo alcançar famílias fora do padrão de classe média e classe média-alta, uma das preocupações de especialistas é de que se transfira a responsabilidade pela Educação Infantil das escolas para as famílias. Há o receio de que o Conta Pra Mim não dialogue com a realidade brasileira. No Brasil, quase 30% da população é analfabeta ou analfabeta funcional, segundo o Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf), e um quarto da população vive abaixo da linha de pobreza, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Denise Guilherme, idealizadora da empresa A Taba, especializada na curadoria de livros infantis e juvenis, e ex-formadora do programa Ler e Escrever, da Secretaria de Estado de Educação de São Paulo, ressalta o papel das mulheres como chefes de família na maior parte da população economicamente desfavorecida.

“Elas saem de casa antes de o sol nascer, deixam o filho com alguém, que o leva para a escola. Elas só voltam à noite, e ainda fazem o jantar e tem de arrumar casa. Não se pode colocar para essa mulher a responsabilidade de contar uma história ou ler para seu filho”, argumenta Denise.

Eduardo Sallenave, diretor de Alfabetização Baseada em Evidências do MEC e um dos responsáveis pelo Conta Pra Mim, diz que o programa ainda adotará ações para famílias não alfabetizadas e sem acesso à internet. “Para beneficiários do Bolsa Família que estejam na primeira infância, público prioritário deste programa, buscaremos um contato mais presencial”. Segundo Sallenave, há a possibilidade de uma parceria do MEC com o Ministério da Cidadania para que práticas de incentivo à leitura também integrem o programa Criança Feliz, destinado a famílias em situação de vulnerabilidade social.

"Literacia familiar"

Ao introduzir o conceito de literacia familiar, que o próprio MEC considera inédito no Brasil, abre-se o caminho para uma abordagem educacional mais próxima da norte-americana. Não à toa, o conceito deriva do inglês “literacy at home”. “Nos países de língua inglesa, valoriza-se muito a velocidade de leitura e o aprendizado das palavras que mais se repetem”, explica Denise. “Não se valoriza tanto a noção piagetiana de interação com os textos que circulam. Muitos no Brasil querem produzir um material que lembra a cartilha”. Ela lembra que o guia do programa não contemplou pesquisadores brasileiros e o esforço da pedagogia nacional de valorizar o letramento, isto é, uma Educação escolar capaz de inserir a criança na cultura escrita e suas funções sociais. 

Uma das referências teóricas usadas para embasar o programa é Catherine Snow, professora da Escola de Graduação em Educação de Harvard, nos Estados Unidos. Em entrevista a NOVA ESCOLA (confira aqui), Catherine reconhece que o contexto econômico influencia na forma como as famílias podem contribuir para a Educação de seus filhos. Apesar disso, ela concorda com a premissa do Conta Pra Mim de não considerar a baixa renda e a escolaridade dos responsáveis pelas crianças como impeditivos para o incentivo à leitura em casa. “Mesmo famílias muito pobres podem fazer muito para promover a curiosidade de suas crianças, suas habilidades linguísticas e atitudes positivas relacionadas ao aprendizado”, diz a pesquisadora americana. “Assim como famílias muito mais ricas podem não estar engajadas nessas interações importantes como poderiam.”

A pesquisadora entende, porém, que os pais não devem se transformar necessariamente em “professores de leitura”. “Práticas de literacia nos lares não exigem que os pais sentem com suas crianças para exercitar o conhecimento das letras do alfabeto. A mais poderosa prática é estimular conversas com as crianças, da infância em diante." 

Para Isabel Frade, pesquisadora do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e integrante da Associação Brasileira de Alfabetização, alguns trechos do guia que buscam familiarizar as crianças com o abecedário são complexos demais para quem não tem uma formação pedagógica. “O discurso do MEC é baseado em uma visão de neurociência de que quanto mais cedo as crianças desenvolverem habilidades de leitura, mais elas terão sucesso escolar”, diz Isabel. "Mas, da forma como está, é como se o pai virasse professor." Ela critica ainda o material por ser excessivamente baseado na norma culta. “É uma visão que desconsidera os estudos sobre as diferenças linguísticas, geracionais, sociais e regionais.”

Sallenave afirma que o foco principal do programa não está na familiarização precoce das crianças com letras e fonemas. "A ênfase é na conversa, no diálogo com a criança”, diz o responsável pelo Conta Pra Mim, que concorda com Catherine neste aspecto. “O mais importante nessa fase [primeira infância] é o desenvolvimento da linguagem oral. O foco não deve se dar na questão das letras, mas elas também não podem ser esquecidas”.

Ele afirma também que o manual disponibilizado pelo MEC atende a pais e professores com nível mais alto de escolaridade. Segundo Sallenave, a pasta ainda lançará vídeos com linguagem mais acessível e com histórias de famílias reais, além de materiais adaptados de fábulas de Monteiro Lobato para atingir um público mais amplo.

Enquanto a política pública está sendo discutida e construída, o trabalho de incentivo à leitura segue como um ponto importante de atenção nas escolas de Educação Infantil. Na Dom João VI, Ana Claudia continua a desenvolver projetos literários para se aproximar das famílias e da comunidade. Em novembro do ano passado, o Festival Lê Comigo, que homenageou a poeta Celeste Estrela, teve como sede a sala de leitura comandada pela professora. “O Rio está muito perigoso, e como não tínhamos como levar as crianças para os espaços culturais, decidi levar todo mundo para dentro da escola”, conta Ana Cláudia. 

Crédito: Acervo pessoal/Ana Cláudia Soares

Como os professores podem incentivar a leitura na Educação Infantil
Confira dicas da professora Ana Claudia para estimular os pequenos a tomarem gosto pelas narrativas
  1. Conte muitas histórias. Nessa fase, o mais importante é desenvolver a paixão literária nas crianças. Para se aprofundar, faça nosso curso sobre leitura para bebês (é gratuito!) e confira um material exclusivo para assinantes de NOVA ESCOLA BOX sobre a importância de se ler para os pequenos
  2. Trabalhe com parlendas, poesia e músicas. Uma recomedação da professora são as canções de Bia Bredan e do grupo Palavra Cantada.
  3. Use vídeos e recursos visuais para estimular o contato com narrativas. 
  4. Estimule as crianças a contarem histórias. Ana Cláudia usa um castelo de papelão como palco para que os pequenos dividam com os colegas suas experiências com os livros, o que gostaram, o que não gostaram, por exemplo.
  5. Valorize o cancioneiro popular do Brasil. Além de ser divertido, é uma boa forma de estimular as crianças a conhecerem nossa rica cultura. Se quiser se aprofundar, que tal fazer nosso curso sobre brincadeiras cantadas
Se você gostou da reportagem,
também recomendamos:
  1. Plano de atividade: Decidindo a leitura do dia

    Atividade para crianças bem pequenas (1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses) - creche

  2. Plano de atividade: O livro começa pela capa

    Atividade para crianças pequenas (4 anos a 6 anos e 2 meses) - pré-escola

  3. Plano de atividade: Leitura na cabana para os bebês

    Atividade para bebês (0 a 1 ano e 6 meses) - creche

Tags

Guias