“Literacia familiar não significa ensinar crianças a ler em casa”

A professora de Havard Catherine Snow, referência para as políticas de alfabetização do MEC, revela como práticas simples, de conversas a brincadeiras, podem ser poderosas para ajudar a construir conhecimentos na creche e pré-escola

POR:
Miguel Martins
Crédito:   Verônica Mancini

O Conta Pra Mim, programa do Ministério da Educação (MEC) que integra a Política Nacional de Alfabetização (PNA), propõe maior engajamento dos pais e responsáveis no incentivo à leitura de bebês e crianças. Uma das principais referências teóricas do MEC para defender a chamada "literacia familiar" é Catherine Snow, professora da Escola de Graduação em Educação de Harvard, nos Estados Unidos.

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Catherine entende que a própria expressão “literacia familiar” em inglês (“literacy at home”) é ambígua, já que a prática não necessariamente envolve o uso de livros ou de outras referências da língua escrita. Sob essa perspectiva, mesmo pais e responsáveis com baixa escolaridade ou mesmo analfabetos conseguem contribuir para a formação das crianças. Da mesma forma, a ideia, diz a pesquisadora, não é que a família assuma a responsabilidade pela alfabetização.

Diante desse cenário, Catherine sugere diversas atividades que não levem os responsáveis a se tornarem “professores de leitura”: conversar e responder às perguntas dos filhos, estimulá-los a planejar uma rota de ônibus ou ajudar a família a preparar uma receita são algumas possibilidades.

Na entrevista a seguir, a professora de Harvard defende que todas as famílias podem contribuir para o desenvolvimento literário de seus filhos. “Famílias muito pobres podem fazer muito para promover a curiosidade de suas crianças, suas habilidades linguísticas e atitudes positivas relacionadas ao aprendizado”, diz Catherine. “Assim como famílias muito mais ricas podem não estar engajadas nessas interações importantes." Confira a conversa na íntegra:

Segundo o MEC, “estudos mostram que as ações no seio familiar são mais importantes para o sucesso escolar do que a renda ou a escolaridade da família”. No Brasil, 30% da população é analfabeta ou analfabeta funcional, e mais de 13,5 milhões de brasileiros vivem em extrema pobreza. Nesse contexto, ainda podemos afirmar que o sucesso escolar independe de fatores socioeconômicos?

CATHERINE SNOW É claro que famílias variam no grau em que podem se comprometer financeiramente para a Educação de seus filhos – seja comprando livros, levando eles a museus ou em viagens ou tendo brinquedos educativos em casa. Tudo custa dinheiro. Mas todos os pais têm, sim, recursos que eles podem utilizar em benefício de seus filhos, mesmo famílias com habilidades limitadas de alfabetização. Elas podem contar e recontar histórias sobre seus próprios pais, sua infância, seus amigos e experiências diárias.

Podem também responder as perguntas de seus filhos. Podem recrutar as crianças para ajudá-los a cozinhar – o que envolve trabalhar com medidas e contas. Eles podem criar jogos simples para brincar com seus filhos, como por exemplo, pensar em coisas que têm rodas, que são vermelhas, que fazem sons ou em animais que vivem na fazenda.

O ponto da afirmação de que práticas familiares são mais importantes para o sucesso escolar do que renda ou nível de Educação da família é para enfatizar que mesmo famílias muito pobres podem fazer muito para promover a curiosidade de suas crianças, suas habilidades linguísticas e atitudes positivas relacionadas ao aprendizado. Assim como famílias muito mais ricas podem não estar engajadas nessas interações importantes. 

Boas práticas de incentivo à leitura em casa
Confira dicas simples de Catherine Snow que a escola pode compartilhar com os pais e responsáveis para ajudar a incentivar o apreço pela leitura desde a creche
      • Conversar sobre assuntos variados. Incentive os responsáveis a conversarem com suas crianças e a responderem suas dúvidas. Por meio dessas conversas, os pequenos vão adquirindo vocabulário e construindo novos conhecimentos;
      • Jogos de palavra ou matemáticos. Sugira às famílias brincadeiras fáceis de realizar. Que tal um jogo para pensar em coisas que têm rodas, que são vermelhas, que fazem sons ou que vivem na fazenda? Outra boa opção são os jogos de contagem. 

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      • Cozinhe. Criar oportunidades para que as crianças auxiliem no preparo de uma receita permite que elas possam ter contato e desenvolver noções de medidas e de contagem.

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    • Passear observando a rota. Sugira que os pais interajam com os filhos nas locomoções diárias. Que tal aproveitar as saídas para planejar a rota de ônibus ou de metrô com a criança? A brincadeira pode começar no trajeto casa-escola.

O que uma política pública educacional voltada ao incentivo à leitura nos lares deve considerar para ter sucesso? 

Acho que escolas podem fazer um ótimo trabalho de ensinar crianças a lerem, se elas usarem o currículo e as abordagens pedagógicas corretas. Pais não precisam virar professores de leitura. Mas “literacia” é um termo amplo. Envolve todas as práticas para as quais usamos a leitura e a escrita – fazer listas, manter um calendário, mandar mensagens, assim como ler jornais e livros. Literacia familiar pode significar modelar essas práticas e engajar crianças nelas, como, por exemplo, fazer uma lista de compras ou planejar uma rota de ônibus para a cidade.

Mas outra indicação chave do sucesso para a literacia são as habilidades linguísticas. Pais que conversam muito com suas crianças, sobre uma série de assuntos diferentes, constroem o vocabulário e o conhecimento que crianças usarão quando eles começarem a ler livros na escola. Ou seja, literacia familiar não significa ensinar crianças a ler em casa, mas ajudá-las a construir conhecimentos que possam ser usados quando começarem a ler. Não é obrigatório que os pais sentem com suas crianças para exercitar o conhecimento das letras do alfabeto. A mais poderosa prática de literacia familiar é estimular conversas com as crianças, da infância em diante.

Elas precisam de seus próprios livros ou ter acesso a bibliotecas para isso? Não necessariamente, mas ajuda muito. Livros infantis atraentes e que engajam proporcionam temas para pais e crianças conversarem. Muitas vezes, trazem ideias de conversa e domínios do conhecimento que dificilmente viriam à tona no dia a dia.

Pode citar um exemplo?

O livro Uma Lagarta Muito Comilona, de Eric Carle, pode ser lido em voz alta, ou pode ser discutido apenas olhando para as figuras. Apresenta ideias como “comida saudável versus porcarias [junk food]”, de como contar de um a sete, de como lagartas viram borboletas. São temas muito bons para conversas com crianças pequenas e muito mais possíveis de emergirem como temas com o livro do que sem ele. Mas o ponto dos livros para crianças pequenas não é ensiná-las a ler, mas principalmente oferecer a elas e a seus pais temas interessantes para se conversar.

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