Relato de mãe: sobre a adaptação e o acolhimento dos filhos na Educação Infantil

A insegurança e as dúvidas não são uma exclusividade dos pequenos na transição da casa para o berçário, creche ou pré-escola

POR:
Miguel Martins
Carol e Catarina, que encara um colo novo fora de casa. Crédito: Acervo pessoal/Carol Miranda

Os bebês e as crianças passam por diferentes emoções quando têm de abandonar o conforto de casa ou de um ambiente familiar para se adaptar ao berçário, à creche ou à pré-escola. Muitas vezes não consideramos, porém, como a mãe, o pai e os responsáveis lidam com essa difícil transição. A insegurança, a carência e as dúvidas não são uma exclusividade dos pequenos. Tampouco as expectativas e a empolgação de ser apresentado a um novo local de aprendizado.

Carol Miranda, coordenadora pedagógica de NOVA ESCOLA, e Alice Vasconcellos, gerente de design de NOVA ESCOLA, estão vivendo processos de adaptação distintos, mas que também guardam semelhanças. Carol encara a primeira vez na escola de sua filha Catarina, próxima de completar um ano de idade. Já Alice teve experiências anteriores com seu filho Francisco, mas ele inicia neste ano um novo passo na sua trajetória: a pré-escola.

Em ambos os casos, a acolhida saltou aos olhos das mães. Percebe-se o esforço dos gestores e dos profissionais das instituições, as duas pertencentes à rede pública, de garantir o acolhimento não apenas das crianças, mas também dos pais e responsáveis.

Carol narra como foi o processo de matricular sua filha, a recepção calorosa quando visitou a creche, a ansiedade de aguardar pela abertura da vaga e o tão esperado primeiro dia na instituição, quando encarou uma parede com colunas ainda em branco esperando para serem preenchidas com as experiências e atividades de Catarina e seus colegas ao longo deste ano. Enquanto Alice relata sua primeira reunião na nova EMEI, onde percebeu que Francisco terá uma professora bastante comprometida com a evolução de suas habilidades, além de um ambiente de diversidade social e compromisso com a autonomia das crianças. Leia os relatos a seguir.  

"Catarina sentiu que estávamos muito à vontade com o processo e as pessoas"

Depoimento de Carol Miranda

O primeiro contato com o Centro de Educação Infantil (CEI) em que matriculei minha filha, Catarina, foi no dia da inscrição no cadastro de solicitação de vagas do município. A creche fica na esquina da minha casa e sempre me chamou a atenção por ter um bom espaço externo. Neste dia, fui recepcionada pela coordenadora pedagógica, que me mostrou algumas salas, o refeitório, me apresentou algumas pessoas da equipe e ainda contou sobre as atividades que realizam. Saí de lá animada, torcendo para que a Catarina conseguisse a vaga.

Depois de quatro meses recebi o telefonema de que havia saído a vaga da Catarina, mas para outro CEI, não tão perto de casa e que eu ainda não conhecia. Fui conhecer, esperando a mesma recepção. Mas, ao chegar lá, fui atendida na parte externa do prédio e meu pedido para conhecer a creche foi recusado. Eu só poderia visitar no dia da matrícula, em janeiro deste ano. Não houve abertura para muitas perguntas e, no fim, saí de lá sem nem saber se o trabalho do CEI era bom ou não. Uma dúvida que me incomodava: qual seria a relação da creche com as famílias? Como se daria a nossa participação no processo de adaptação e acolhimento da Catarina? 

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 A tão esperada vaga

Eu e o pai dela resolvemos, então, desistir da vaga e voltar para a fila do primeiro CEI, a que havia nos encantado. Menos de um mês depois recebemos o telefonema de que a vaga tinha saído. Já no dia da matrícula, vimos a equipe trabalhando para deixar o espaço pronto para a chegada dos bebês e das crianças, arrumando, limpando, organizando. As pessoas perguntavam nossos nomes e se mostravam felizes pela chegada de uma nova bebê.

O contato seguinte foi na reunião com as famílias dos bebês que estavam chegando, quando a coordenadora pedagógica apresentou as regras e funcionamento do CEI, fez combinados e deu orientações. Pudemos saber mais sobre o trabalho: valorizam a diversidade de famílias, as crianças e bebês não são colocados de castigo ou para “pensar” e há muitos momentos de se sujar com tinta, lama, “melecas” e afins. Para completar, eles avisaram que a adaptação levaria o tempo que cada bebê precisasse. Essa fala me passou foi um olhar cuidadoso e acolhedor, que me tranquilizou em relação a essa nova fase, que já é cheia de inseguranças, expectativas e novidades - para nós e para os bebês.

O primeiro dia

O primeiro dia da Catarina na creche foi em 10 de fevereiro deste ano. Chuva intensa em São Paulo, caos na cidade, o CEI com equipe reduzida. Muitos bebês não puderam ir, mas eu e o pai dela conseguimos estar lá, participando deste momento tão importante da vida da nossa filha. Fomos acolhidos com muita empatia pela equipe, especialmente pelas três professoras responsáveis pela turma dela, que nos deixaram acompanhar cada momento da rotina dos bebês ao longo da manhã: música, história, brincadeiras livres, fruta, almoço. A primeira troca de fralda foi feita por mim, para a Catarina se sentir confortável em um ambiente novo.

Na parede, colunas com itens em branco, a serem preenchidos junto com os bebês ao longo do ano, mostravam algumas das possibilidades de descobertas e aprendizagens que virão por aí. Fiquei imaginando como essa parede estará linda no final de 2020.

Crédito: Acervo Pessoal/Carol Miranda

Tenho certeza que a Catarina sentiu que estávamos muito à vontade e confiantes com o processo e as pessoas: passeou pelo espaço livremente, brincou, bateu palmas, deu risada, pediu para comer mais um pedaço de melão e experimentou o almoço. Tudo isso olhando, de vez em quando, para o pai e a mãe, tendo a certeza de que continuávamos ali, pertinho. Mas, ao mesmo, tempo, confiando em um novo colo, em novas mãos que poderão ajudá-la em seus primeiros passos. 

O acolhimento era do Francisco, mas virou o acolhimento da família

Depoimento de Alice Vasconcellos

Na primeira reunião na Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) onde matriculei meu filho Francisco, gostei de ver que nem todas as famílias presentes eram iguais nem estavam representadas apenas pelas mães. Havia uma presença masculina maior do que eu esperava. Tinha criança com o tio e o avô, outras só com a mãe ou só com o pai. A realidade das famílias era muito diversa, mas todos estavam muito interessadas.

Me agradou muito a recepção da escola. Eles prepararam um lanchinho para receber as famílias. Havia melão, pão de forma e uma pastinha, café e suco. Nada complicado, mas muito atencioso. Os funcionários distribuíram um folheto com toda a informação sobre a EMEI. Era um papel A4 dobrado no meio, bem informativo e pontuava todos os detalhes da escola. Achei muito bom poder ler isso antes de a reunião começar.

Crédito: Acervo Pessoal/Alice Vasconcellos

Espaço de diversidade e autonomia

Quando a reunião começou, a diretora falou sobre como nossas crianças estavam em uma escola pública e como aquela era a melhor que poderíamos escolher. Ela explicou que, até por ser uma instituição do estado, é um local em que se reafirma sempre o direito de uma criança à Educação, além de ser um espaço de diversidade, em que ela será respeitada e que valoriza a autonomia das crianças seria valorizada. Mais à frente, falou sobre a escola, explicou qual era o seu papel e o da assistente de direção e nos apresentou a todos os integrantes da equipe. Conhecemos a secretária, as merendeiras, o pessoal de apoio, os porteiros, todo mundo que ajuda de alguma forma na rotina escolar.

Outro aspecto interessante foi a diretora ter explicado tudo sobre o conselho de pais e ter chamado uma das mães que compõe o conselho para explicar as atividades. Além de abrir o convite para os interessados em participar do conselho, fomos informados também de que a festa junina respeita a abordagem laica da escola, logo eles não chamam por esse nome, preferem “festa tradicional brasileira”. Não há menções a santos como Santo Antônio e São Pedro ou a símbolos religiosos. É uma festa que todo mundo de todas as religiões pode participar.  A festa valoriza práticas como a reciclagem, não usa qualquer tipo de lixo plástico, as crianças fazem os próprios brinquedos com os pais.

Educação sem rótulos

Após a apresentação dos integrantes da escola, fomos conhecer as salas de aula. São duas professoras por turma. Cada uma cuida dos pequenos por um período de seis horas. Uma delas recebe a criança no início do dia e, após o almoço, outra assume até a hora da volta para casa.

Na sala do Francisco, a Rose, sua professora, fez uma roda em que cada pai, mãe e responsável se apresentou. Falamos um pouco sobre a família e nossos filhos. Há alunos com deficiência e outros cujos pais disseram ser muito bagunceiros ou agitados. Quase todos adiantaram que suas crianças não são obedientes. Mas a professora fez questão de fazer um apontamento: “É muito importante não dizer para suas crianças que elas são bagunceiras ou agitadas, pois esses rótulos acabam se impondo. Se dissermos que uma criança é agitada, ela vai achar que é mesmo agitada”. Como o cérebro é uma esponja, disse a professora, é melhor focar nas coisas positivas e não em como nós queremos que nossos filhos sejam. Achei esse recado para todos os pais e mães essencial. É o tipo de coisa que, por mais leitura que se tenha sobre o assunto, é importante ouvir de uma voz de autoridade. 

Rotina e self-service

A professora explicou ainda o passo a passo da rotina escolar, como o horário das refeições e quais são as atividades. O almoço, por exemplo, é self-service, o que chocou alguns pais. As crianças usam prato de vidro e talheres normais. A professora explicou que a prática foi construída junto com as crianças e com o conselho ao longo dos anos, pois elas gostam de servir seu próprio prato. Dá muito certo. Há um período de adaptação, mas sempre se busca essa autonomia. Afinal de contas, são mais de 30 pequenos para cada professora e é necessário que eles aprendam a se virar.

Na atividade sugerida pela professora, ela nos questionou sobre o que desejávamos para nossos filhos neste ano. Ela pregou uma fita dupla face no quadro com várias tiras de cetim nas quais escrevemos um desejo ou um sonho. Alguns ressaltaram brincadeiras e diversão, outros aprendizados e autonomia. Foram palavras muito legais e inspiradoras. Senti que era tudo próximo do universo infantil. Ver aquele monte de fita com tantas mensagens escritas foi muito bonito.

Crédito: Acervo Pessoal/Alice Vasconcellos

Alfabetização

Outro ponto que me chamou atenção foi a explicação da professora sobre as formas como as crianças vão ser alfabetizadas. Segundo ela, a escola não terá como objetivo alfabetizar de fato nossos filhos, no sentido de ensiná-los a ler e escrever de forma definitiva. Essa era a expectativa de muitas pessoas.

Ela explicou que as crianças trabalharão todas as habilidades necessárias para conseguirem ler e escrever. Há um foco na questão social e emocional, no espaço, na autonomia, nas brincadeiras e no objetivo de que os pequenos se reconheçam como autores. Senti muita firmeza nela.

O espaço escolar

Por ser uma reunião longa, não foram todas as famílias que puderam ficar até o fim. Mas a maioria conseguiu. Me impressionou muito que todos tenham tirado suas tardes para estar lá. Terminado o encontro, fomos conhecer o espaço da escola, que é sensacional. A professora nos mostrou o banheiro, explicou que a privada é alta e tem degrau, nos indicou onde ficarão as canequinhas da criançada para tomar água. Nos apresentou ao local onde a comida é servida e outro onde há um telão no qual se passam filmes, como se fosse um cineminha para os pequenos. Passamos pela cozinha, separada do resto da escola por uma porta com tela, de onde pode se ver a organização interna. Fomos para o pátio, onde conhecemos a composteira - e o Francisco fez a festa com as minhocas.

Crédito: Acervo Pessoal/Alice Vasconcellos

Nos mostraram também onde ficam os triciclos, além de uma casinha, uma quadrinha e um parque. Há muitas árvores na escola, inclusive uma horta que eles cuidam para servir de complemento para a refeição dos pequenos. No pátio, imaginei todas as brincadeiras de que o Francisco vai participar nos próximos anos.

Saí da escola muito confiante de que ela vai possibilitar ao meu filho todos os tipos de interação e de amizade, além do convívio com pessoas muito diferentes. Fiquei bem feliz com o engajamento das famílias e com o ambiente acolhedor. Era o acolhimento do Francisco e das outras crianças, mas virou o acolhimento da família.