Walter Benjamin: repensar a história, rever a criança

Filósofo conferiu peso à memória individual e criticou concepções racionalistas da infância

POR:
Márcio Ferrari
Foto: Latin Stock
WALTER BENJAMIN

O filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940) é um dos teóricos mais estudados hoje, e sua obra, consideravelmente aberta a interpretações, interessa a pesquisadores e profissionais de várias áreas. "As questões levantadas por ele no início do século passado ainda são muito atuais", diz Celina Fernandes, mestre em Sociologia da Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e assessora educacional. "Benjamin trata de certo entorpecimento dos homens diante da vida, do enfraquecimento dos laços entre gerações, do estranhamento de um mundo que muda num ritmo que não conseguimos acompanhar e diante do qual não sabemos nos orientar."

Seus ensaios sobre temas como literatura, história e cinema foram escritos numa linguagem pessoal, densa e muitas vezes poética. Grande parte dos textos mais instigantes são artigos de poucas páginas. As análises de Benjamin enfatizam a recuperação de tradições e formas de pensar deixadas de lado pelo registro histórico hegemônico para fornecer instrumentos possíveis de crítica social do presente. "Nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história", escreveu num texto célebre, Sobre o Conceito da História, de 1940.

Benjamin viveu a efervescência cultural da Berlim dos anos 1920, mas também o horror do nazismo, que o perseguiu por ser judeu e também pelo trabalho intelectual contestador e de esquerda (leia biografia abaixo).

Numa perspectiva que marca o trabalho da chamada Escola de Frankfurt, à qual esteve ligado (confira quadro no último box), Benjamin questiona por que o racionalismo iluminista (herdeiro das ideias que fundamentaram as revoluções democráticas do século 18), assim como a racionalidade científica, não foi capaz de impedir a barbárie representada pelos totalitarismos do século 20.

Benjamin não foi um pensador da Educação na mesma amplitude e assiduidade com que foi um pensador da cultura, por exemplo. "Sua obra não traz uma proposta educacional", diz Celina Fernandes. Talvez tenha sido exatamente à ideia de uma proposta educacional que Benjamin reagiu, supõe ela. Sua crítica se dirige ao que chama de programa de remodelação da humanidade, nascido com o Iluminismo. "No seu entender, ao pretender fazer da criança ?um ser supremamente piedoso, bom e sociável?, a Educação burguesa fechava as portas para uma formação aberta, que permitiria a pais e filhos e a educadores e alunos se recriarem no processo de ensino", diz Celina.

Benjamin buscava a possibilidade de uma experiência total e concreta do conhecimento e, por isso, criticava a Educação direcionada para a especialização ou para a prática profissional. Desconfiado da institucionalização do saber, o filósofo alemão encontrava nos artistas e nas crianças formas inspiradoras de entender o mundo.

O pensador criticava os abusos de quem tentava "entender" a infância e com isso tentar enquadrar a criança em parâmetros psicológicos, como se fossem "seres tão diferentes de nós, com uma existência tão incompatível com a nossa, que precisamos ser muito inventivos para conseguir distraí-las". Benjamin opõe a isso a figura da criança como uma pessoa inserida na história e numa cultura, da qual é também criadora.

Brinquedo, brincadeira, símbolo e significado 

"O mundo perceptivo da criança está marcado pelos traços da geração anterior e se confronta com eles; o mesmo ocorre com suas brincadeiras", escreve Benjamin no ensaio Brinquedo e Brincadeira. E prossegue: "Sabemos que a repetição é para a criança a essência da brincadeira, que nada lhe dá tanto prazer como brincar outra vez." Benjamin observa o interesse espontâneo que os pequenos têm pelos resíduos dos trabalhos manuais dos adultos, como a costura e a marcenaria.

Para ele, isso demonstra que elas têm menos interesse em imitar os mais velhos do que em criar um mundo próprio - preferem construir seus brinquedos, mas os adultos parecem sempre tentar ignorar essa evidência. O filósofo também ressalta que não é o brinquedo que determina a brincadeira, mas exatamente o contrário. "A criança quer brincar e ressignifica o mundo e as coisas do mundo para atender a seus propósitos", diz Celina Fernandes. Benjamin critica o tratamento dado aos menores por grande parte da literatura infantil. "As crianças exigem dos adultos explicações claras e inteligíveis, mas não explicações infantis e muito menos o que o adulto concebe como tal", escreveu.

Segundo Celina Fernandes, o retorno à obra de Benjamin no campo educacional tem sido marcado frequentemente por sua teoria da narração. Para o autor, num mundo em que ainda era possível partilhar experiências e valores, também havia interesses comuns do narrador e do ouvinte em preservar o que se narrava. Isso teria se perdido na modernidade. Só seria possível retomar os sentidos da narrativa por meio dos fragmentos da memória, do compartilhamento de histórias pessoais e de uma relação revigorada com a linguagem. E a escola é um lugar propício para isso.

Biografia

Uma vida interrompida pela força nazista

Filho de uma rica família judia, Walter Benjamin nasceu em 1892, em Berlim, onde voltou a morar, em 1920, depois de estudar Filosofia em várias cidades alemãs e na Suíça. Passou a trabalhar como crítico literário e tradutor. Em 1928, a Universidade de Frankfurt rejeitou sua tese A Origem do Drama Barroco Alemão por sua linguagem e pelos métodos não-convencionais, o que encerrou sua carreira acadêmica. Publicado em livro, o estudo é considerado hoje um de seus grandes trabalhos. Benjamin fixou-se em Paris após deixar a Alemanha, em 1933, por causa da ascensão do nazismo. Com a ocupação da França pelos alemães, em 1940, foi para o sul do país com a intenção de viajar aos Estados Unidos. Foi detido e soube que seria entregue à Gestapo (a polícia secreta nazista). Acuado, Benjamin se suicidou aos 48 anos com uma dose de morfina. Boa parte de seus escritos foi publicada postumamente, alcançando repercussão na segunda metade do século 20.

Os caminhos de Benjamin

Arte, misticismo e política, em uma obra única

Foto: Bettmann/Corbis
CINEMA ALEMÃO Filmes como O Gabinete do 
Dr. Caligari
marcaram a Berlim de Benjamin.

A vida de Walter Benjamin foi marcada por relações com outros pensadores e artistas alemães, do dramaturgo Bertolt Brecht (1898-1956) ao estudioso do misticismo judaico Gerhard Scholem (1897-1982). Benjamin é vinculado à chamada Escola de Frankfurt - conjunto de intelectuais que criou a Teoria Crítica. Tratava-se de uma linha de pesquisa que, apesar de fundamentada na obra de Karl Marx (1818-1883), se perguntava por que a emancipação do proletariado prevista pelo filósofo alemão parecia estar se desviando e se perdendo. Sua relação com os colegas, porém, não era livre de tensões: sempre sustentava sua posição de forma firme e não dogmática. Embora considerado pessimista, ele via com bons olhos os novos meios de comunicação, como o cinema de seu país, que em sua época produzia obras como O Gabinete do Dr. Caligari, tido como ícone do expressionismo alemão.

Quer saber mais?

BIBLIOGRAFIA
Arte, Política e Educação em Walter Benjamin, Martha D'Angelo, 120 págs., Ed. Loyola, tel. (11) 2914-1922, 14,30 reais
Obras Escolhidas, Vol. 1 - Magia e Técnica, Arte e Política, Walter Benjamin, 256 págs., Ed. Brasiliense, tel. (11) 3087-0000, 42,20 reais
Reflexões sobre o Brinquedo, a Criança e a Educação, Walter Benjamin, 176 págs., Ed. 34, tel. (11) 3816-6777, 34 reais

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