Transição: como amenizar a adaptação dos alunos entre etapas

Entenda os medos e ansiedades que os estudantes enfrentam neste momento e como garantir uma passagem mais tranquila

POR:
Miguel Martins
Crédito: Getty Images

“Nada é permanente, exceto a mudança”, sustentava o filósofo grego Heráclito. Mas aceitar que na vida tudo muda não significa fazer tábula rasa do passado. Quando encaramos o início de uma nova etapa, o desconhecido pode ser menos assustador quando algo de familiar se preserva.

Para um aluno, a passagem entre etapas de ensino não virá sem dificuldades. Mudam o espaço, os horários, os colegas e os professores. No início da vida escolar, impõe-se uma dura separação da criança com sua família. Nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, as brincadeiras em sala de aula começam a dar lugar a atividades mais intensas e cobranças. Nos Anos Finais, surgem os professores especialistas, as provas cada vez mais exigentes e o desabrochar da adolescência uma transição por si só difícil.

Garantir a adaptação dos alunos é uma tarefa complexa, mas que se torna mais fácil quando se procura entender o contexto de onde eles vieram, seja de casa ou de uma outra etapa de ensino.  A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que passa a vigorar obrigatoriamente nas escolas brasileiras em 2020, traz sugestões para uma transição mais amena da Educação Infantil para o Ensino Fundamental, mas não há orientações sobre a passagem dos Anos Iniciais para os Anos Finais, nem para o Ensino Médio.

Tendo em vista esse tipo de gargalo, é importante conhecer a experiência de outros professores para acolher a turma nessa fase de mudanças. Saiba o que você pode fazer nos primeiros dias de aula para garantir a adaptação de seus alunos nessa transição de etapas.

Da casa para o berçário e a creche

A primeira vez na escola – seja na creche ou na pré-escola não é fácil. Quando atuava como professora de Educação Infantil, Selene Coletti, formadora na Secretaria de Educação de Itatiba (SP) e colunista de NOVA ESCOLA, sempre lidava com o incômodo de crianças que deixavam o conforto da família. Um dos pequenos, recorda, chorava sem parar nos primeiros dias. Reclamava de uma dor de barriga que não passava e pedia para ir embora.

Selene combinou com a mãe uma estratégia simples: criou um "remédio" para a suposta cólica que consistia num copo de água e uma gotinha de chá. Prometeu à criança que se a fórmula mágica não fizesse efeito, ela poderia voltar para casa com a mãe. No dia seguinte, o pequeno continuava a chorar, mas porque queria tomar novamente o tal remédio. A "enfermidade" era algo muito comum: a insegurança.

"Sempre tinha um ou dois que choravam, mas principalmente por causa da insegurança. Isso vai melhorando conforme a criança vai desmistificando seu medo", garante Selene.

Nessa etapa da Educação, o mais importante é construir uma boa relação com os responsáveis pelos pequenos. Antes do início das aulas, é interessante que a escola faça uma entrevista para consolidar uma ficha com informações detalhadas sobre cada criança. Questionar sobre brincadeiras preferidas, medos, rotina e cuidados de saúde e alimentação é essencial.

A dificuldade de transição da casa para a creche não é restrita às crianças. Os pais também sofrem com essa mudança. A despedida é fundamental para a adaptação, e estratégias como esperar a distração dos filhos para ir embora podem levar a um sentimento de abandono ainda mais acentuado. Normal que o responsável tente evitar esse momento doloroso, mas encará-lo é importante para a transição de todos.

No berçário, os familiares estão presentes ao longo de todo o processo de adaptação. Num segundo momento, é importante que a criança tenha objetos de apego ao alcance para diminuir o desconforto de estar longe dos responsáveis.  E é bom lembrar: falta de choro não é certeza de adaptação bem-sucedida. Pode significar apenas que a criança está retraída. 

Da Educação Infantil para o Ensino Fundamental

Além de ter trabalhado com Educação Infantil, Selene também tem ampla experiência como professora dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental. Sua atuação nas duas etapas favorece a compreensão de cada realidade e o que é necessário para garantir uma boa transição.

No primeiro dia de aula, ela sugere deixar de lado as carteiras enfileiradas. Para uma boa transição, é importante repetir na sala de 1º ano a disposição do espaço que os alunos encontravam na pré-escola. Mesinhas com cadeiras, espaço para fazer uma roda e prateleiras com brinquedos ao alcance das crianças são boas formas de favorecer a continuidade entre as etapas. 

A carga horária também pode merecer a atenção dos docentes. Na Educação Infantil, as crianças que frequentavam a pré-escola em tempo parcial cumpriam uma jornada de quatro horas. Em algumas redes de ensino do Ensino Fundamental, o período mínimo de permanência na escola sobe para cinco horas. Nos primeiros dias, uma possibilidade é combinar com os pais a liberação das crianças mais cedo, para que não sintam tanto o aumento da carga horária. 

Acima de tudo, a presença da família, assim como na Educação Infantil, é fundamental para fazer essa transição da melhor forma possível. "Uma coisa que eu sempre fiz e sempre deu certo é fazer uma reunião com os responsáveis e alunos no primeiro dia de aula", sugere Selene. "Trago todo mundo para a classe, faço uma roda grande, converso com os pais e crianças. Me apresento, apresento a sala, descrevo de forma resumida como serão as rotinas e faço alguma dinâmica em conjunto". Ao ambientá-los, a tendência é que se sintam mais confiantes e seguros para este novo desafio na trajetória escolar e de desenvolvimento das crianças.

Considerando a vivência que tiveram na Educação Infantil, é importante não deixar as brincadeiras de lado. Elas contribuem para que o estranhamento das crianças seja o menor possível. "O lúdico deve permanecer. O professor precisa ter essa intenção, como a própria Base propõem, de preservar o brincar por mais tempo. Ele não pode ser deixado para trás", explica Selene. Passear pela escola também é uma boa dica, enquanto se aproveita a caminhada para apresentar funcionários e outros professores para os alunos.

A BNCC também pode apoiar a transição: o documento oferece um norte para realizar a passagem entre a pré-escola e o 1º ano. Além de orientar para que professores aproveitem relatórios e portfólios produzidos na Educação Infantil, sugere-se a possibilidade de conversas e troca de materiais entre os educadores das duas etapas – algo nem sempre fácil de se colocar em prática, dada as dificuldades da rotina e a interação limitada entre os profissionais.

Outro ponto importante é analisar a síntese de cada campo de experiência que foi trabalhado na pré-escola. Mesmo que a escola anterior da criança ainda não trabalhasse o novo currículo alinhado à BNCC, é possível identificar as habilidades relacionadas aos campos nas atividades do portfólio ou nas conversas com a professora anterior. “Se pensarmos que a Base deve ser colocada realmente em prática, e não ficar apenas na teoria, ela vai ajudar muito com o processo de adaptação para a criança continuar seu desenvolvimento ao longo desse novo percurso”, garante Selene.

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Dos Anos Iniciais para os Finais

A mudança do 5º para o 6º ano é certamente a mais complexa do Ensino Fundamental. Os alunos são colocados diante de uma realidade completamente nova. O contato com diversos professores, cada um formado em sua própria disciplina, não só exige um novo comportamento dos estudantes, como eles também perdem os laços de afetividade e proximidade com um educador polivalente, que é referência da turma no dia a dia.

Tanto em sua experiência profissional como na sua produção acadêmica, a diretora e pesquisadora Renata Borges buscou compreender a difícil transição para o 6º ano. Ela concluiu seu mestrado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e atualmente concentra-se em um doutorado sobre o tema na mesma universidade.

Segundo ela, a maior complexidade de se fazer uma adaptação satisfatória de alunos que iniciam o Ensino Fundamental 2 pode ser medida pela duração da transição. Renata estima que a transição de um aluno do 6º ano leve cerca de 6 meses, enquanto uma criança que começa a cursar os Anos Iniciais precise de apenas um mês para se sentir à vontade no ambiente escolar.

“As crianças da Educação Infantil para os Anos Iniciais têm uma expectativa muito grande. Eles falam que é a escola dos grandes, eles já têm culturalmente esse discurso. Mas as crianças dos Anos Iniciais vão para os Anos Finais com muito medo”, analisa Renata. Ela, assim como Selene, possui experiência escolar em duas etapas: após trabalhar com alunos do Ensino Fundamental 2, atualmente, Renata é diretora da EE Izac Silvério, na zona norte de São Paulo, que atende exclusivamente alunos dos Anos Iniciais.

Segundo a diretora e pesquisadora, os medos dos estudantes ocorrem tanto pela falta de autonomia no Ensino Fundamental 1 – dada a tendência de superproteção nessa etapa –, como também pela dificuldade do professor especialista de compreender a realidade de seus novos alunos.

“Para amenizar essa transição, o professor de Anos Finais tem que ter dedicação para trabalhar com 6º e 7º anos”, diz Renata. É muito comum, diz a pesquisadora, ver professores assumindo essas turmas na época de atribuição porque “foi o que sobrou”. Além disso, muitos trazem uma didática própria do Ensino Médio. “O professor que dá aula para o 3º ano do Ensino Médio e para o 6º ano do Ensino Fundamental não pode ter a mesma visão para esses dois grupos”. A linguagem e a dinâmica da sala de aula, por exemplo, são diferenciais na hora de interagir com os alunos e desenvolver a aprendizagem.

Os dados de acesso, permanência e qualidade nos Anos Finais revelam a dificuldade de se fazer uma transição satisfatória, como mostra a pesquisa "Panorama de Projetos Relativos aos Anos Finais do Ensino Fundamental", de Gisela Lobo Tartuce e Patrícia Albieri de Almeida. O levantamento indica que, dos Anos Iniciais para os Finais, a taxa de reprovação sobe de 5,2% para 10,1%. Já o índice de abandono mais que triplica: vai de 0,8% para 2,7%.

A falta de um capítulo específico da BNCC sobre o tema, como ocorre entre a Educação Infantil e o Ensino Fundamental, reflete esse gargalo. “Percebemos que é um dificultador para todo mundo. Quando sou chamada por alguma escola para falar para um grupo de professores [sobre transição], todo mundo se espanta”, diz Renata.

Diante de tantas dificuldades, o que fazer para realizar uma boa transição nessa etapa? “A primeira coisa que diria para esses professores é para eles terem clareza de estarem trabalhando com crianças, embora elas estejam chegando no 6º ano”, diz Renata, que alerta também para a intensa mudança física, comportamental e emocional neste momento da vida. Por isso mesmo, a figura do professor, mesmo especialista, é fundamental, e a paciência é determinante para o sucesso da adaptação em uma nova etapa de ensino.

Dúvidas sobre se o aluno deve usar lápis ou caneta em atividades ou mesmo sobre como se comportar com o sinal da escola (que marcam o início e término das atividades) devem ser compreendidas como naturais para quem sempre foi dependente de um professor polivalente. O principal conselho de Renata aos professores dessa etapa é não focar apenas em como ensinar, mas em como preparar o aluno para aprender. “Essa transição é pequena, porque as crianças são adaptáveis. A lacuna na adaptação surge muitas vezes porque os professores não dão conta da situação. Mas se o acolhimento for feito num período de um semestre, já se consegue dar continuidade no trabalho com sucesso. ”

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