Enem: perguntas e respostas sobre os erros no exame

Entenda o impasse que recai sobre a prova

POR:
Ana Paula Bimbati
Crédito:  Antonio Cruz/Agência Brasil

“Foi o melhor Enem de todos os tempos”, garantiu o ministro da Educação, Abraham Weintraub, na coletiva de 17 de janeiro que divulgou o desempenho dos 3,9 milhões participantes do Exame Nacional do Ensino Médio.

Dias depois, a edição atual tem sua credibilidade posta em xeque por erros na correção das provas dos candidatos, o que motivou a Justiça Federal de São Paulo a determinar, na sexta-feira (24), a proibição da divulgação dos resultados do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), responsável por distribuir vagas em instituições de ensino superior para os estudantes com melhor classificação no Enem.

A liminar exige ainda do Ministério da Educação (MEC) provas da correção de todas as falhas na apuração das notas, que teria atingido, de acordo com a pasta, pelo menos 6 mil candidatos. Há, porém, estimativas de que milhares de alunos podem ter sido afetados.

A Advocacia-Geral da União recorreu da decisão e, após o Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3), o Superior Tribunal de Justiça atendeu ao pedido do governo. 

Qual foi o erro apontado pelos candidatos? Os estudantes afetados já tiveram suas notas corrigidas? Como isso pode prejudicá-los?

Entenda o que se sabe até o momento sobre o caso: 

Como ocorreu a falha? 

Na sexta-feira (17), o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) divulgou as notas dos quase 4 milhões de candidatos que fizeram o Enem. Na mesma data, alguns participantes começaram a reclamar da correção nas redes sociais.  

No dia seguinte, Weintraub ao lado do presidente do Inep, Alexandre Lopes, informou, via redes sociais, sobre uma “inconsistência” nas notas do segundo dia do exame, quando foram aplicadas as questões de Matemática e de Ciências da Natureza. 

Lopes afirmou que a falha ocorreu na gráfica que passou a ser responsável pela impressão do Enem em 2019. Segundo o presidente do Inep, os erros se deram pela associação equivocada entre as provas e os cartões de respostas preenchidos pelos estudantes.

Cada prova é associada a uma cor, que estabelece uma ordem distinta das questões com o objetivo de evitar fraudes na hora da realização do exame. Os estudantes teriam sido prejudicados ao terem suas provas corrigidas como se fossem de outra cor e, portanto, com o gabarito equivocado.

“A gráfica imprime a prova e um cartão resposta. Tem um código de barras do aluno. Uma outra máquina pega essa prova e faz a associação com o gabarito e grampeia. Neste momento, temos o código de barras da prova e o código de barras do cartão resposta. Há um casamento: a associação entre a prova e o participante. Neste processamento da gráfica foi onde ocorreram estas inconsistências”, afirmou Lopes.

Em 19 de janeiro, o Inep informou que também analisa se houve erros na correção das provas do primeiro dia, quando foram realizadas a redação e as provas de Ciências Humanas e Linguagens.

O que aconteceu com a gráfica? 

A polêmica em torno da gráfica responsável pela prova do Enem começou em abril de 2019, quando foi anunciada a falência da RR Donnelley, que diagramava e imprimia o exame desde 2009.

Mesmo sem uma gráfica, o Inep não alterou as datas de aplicação do Enem, o que gerou preocupação em muitos candidatos. No final de maio, o instituto anunciou que a Valid Soluções S/A seria a responsável pelo trabalho. O Inep aproveitou a licitação já feita para escolher a nova gráfica. 

Quais são as consequências dessa falha? 

Especialistas afirmam que as falhas no Enem provocam uma falta de confiabilidade na prova e no seu processo de produção. Além disso, há o risco de universidades começarem a recusar a entrada de novos estudantes com a nota do exame, o que provocaria mais uma barreira ao acesso para as universidades públicas e privadas (neste caso, com bolsas).  

Como uma avaliação externa pode se conectar com a prática da escola?
Janaina Barros, autora do curso "Avaliação na Educação Básica - Como e porque fazer?" dá quatro dicas de como aproveitar os resultados de avaliações externas no cotidiano da escola:
  1. Analisar as questões abordadas nas provas das avaliações externas e entender como elas podem aumentar o repertório de situações-problema com as quais os professores podem trabalhar em sala de aula;
  2. Olhar o contexto dos alunos e tentar aproximá-lo dos conteúdos e habilidades trabalhados nas avaliações externas, a fim de facilitar o entendimento;
  3. Ter um olhar atento a dados como nível socioeconômico, acesso a recursos e escolarização da família. Essas informações podem revelar pistas a respeito do que a escola pode oferecer para aumentar a equidade entre os diversos estudantes;
  4. Criar discussões na escola para que gestão e corpo docente possam, juntos, encontrar maneiras de solucionar os desafios encontrados nos resultados das avaliações externas.

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Quem são os candidatos afetados? 

Segundo o MEC, a falha atingiu 5.974 participantes, o que representa 0,15% de todos os candidatos. Os casos ocorreram nas cidades de Viçosa, Ituiutaba e Iturama, em Minas Gerais; e Alagoinhas, na Bahia. No entanto, mais de 170 mil pessoas enviaram e-mail para o Inep com reclamações sobre suas notas. 

O problema foi solucionado? 

Segundo o MEC e o Inep, todas as notas já foram corrigidas e atualizadas na plataforma.

Um caso polêmico gerou ainda mais dúvidas entre os estudantes. Weintraub respondeu a um seguidor no Twitter que checaria a situação das notas de sua filha e encaminhou o caso ao presidente do Inep. O Inep afirma que as revisões das notas estão sendo feitas “de ofício”, ou seja, sem que os estudantes precisem solicitar a correção.

Por que há tanta preocupação entre os estudantes? 

O Enem é uma das portas de entrada para diversas universidades públicas e particulares. Além disso, ele dá acesso aos programas do governo federal de bolsas ou financiamento. 

A suspensão da divulgação das notas determinada pela Justiça pode prejudicar o calendário das universidades federais, que terão de alterar o período de matrícula dos estudantes aprovados e, consequentemente, o início do ano letivo. O atraso também pode afetar o Fies e o ProUni.