O que esperar dos novos livros didáticos alinhados à BNCC

Formações e adequação às características da proposta de ensino da escola são importantes para aproveitamento dos novos materiais

POR:
Daniel Santos
Crédito: Shutterstock

O Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) está em execução com novas regras, implementadas pelo Ministério da Educação (MEC) em 2017. Desde então, secretarias municipais e estaduais podem escolher as obras adotadas na rede de ensino, uma garantia antes exclusiva aos gestores e professores das escolas. Além disso, agora é possível a indicação de livros para a Educação Infantil e Educação Física, que não estavam contemplados. Uma das mudanças permite que os alunos do Fundamental 1 fiquem com os livros ao final do ano letivo.

A etapa de escolha dos livros para os anos finais do Ensino Fundamental, referente a 2020, foi realizada em setembro passado. Agora, no começo do ano, está aberto um edital para editoras apresentarem as obras pedagógicas destinadas ao Ensino Médio, que devem ser utilizadas em 2021.

Trabalhando com novos livros

Qualquer mudança relacionada ao conteúdo trabalhado em sala de aula exige a formação dos professores. Novos livros didáticos, muitas vezes, apresentam premissas de ensino e aprendizagem diferentes em relação às obras trabalhadas anteriormente. Por esse motivo, a preparação do corpo docente é fundamental. “Professores atualizados, em sintonia com as mudanças mais recentes no campo da Educação são capazes de desenvolver suas competências com maior qualidade”, diz Lina Passos, mestre em educação e professora do ensino básico há 25 anos.

Para Lina, em momentos de mudanças como esse, a formação direcionada aos livros pode ajudar os docentes a ampliar suas capacidades de análise, reflexão e crítica acerca do seu trabalho. “Aprimorar as habilidades para o trabalho com as propostas apresentadas nos livros didáticos, tendo os novos parâmetros como referência, é fundamental para que os docentes consigam utilizar os recursos pedagógicos de modo coerente, sem perder de vista as proposições apresentadas no PNLD e explorando as possibilidades de construção de conhecimentos sugeridos em cada fonte de estudo”, explica.

Além da aplicação daquilo que foi apresentado durante uma formação continuada, o professor pode expandir a forma como utiliza os novos livros didáticos. Conforme argumenta Fabiane Lopes de Oliveira, professora do curso de Pedagogia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), o livro não pode ser tratado como a aula em si, mas sim como um importante recurso. “Ele tem que ser utilizado como um parâmetro e não como a única fonte de conhecimento. Os professores precisam quebrar alguns paradigmas e agregar novas formas de ensinar, tendo os livros como guia. Talvez o uso da tecnologia, sem grande sofisticação, por exemplo, pode ser um grande auxiliar na produção de conhecimentos”, comenta.

Além da formação continuada, importante ferramenta para auxiliar no entendimento das propostas pedagógicas dos novos livros, os gestores e docentes podem estimular uma maior aproximação entre alunos e as obras didáticas que vão acompanhá-los durante o ano. A escola, segundo Lina, deve favorecer o intercâmbio de ideias entre os alunos “estimulando as discussões em torno das temáticas presentes nos livros e que sejam de interesse dos jovens estudantes”. Ações como essa convidam o aluno a ser protagonista da sua própria jornada dentro da escola, segundo a professora.

Dicas para aproveitar o livro didático

- É interessante que os gestores desenvolvam um planejamento consciente, consistente e flexível de acordo com o Projeto Político Pedagógico (PPP) e com as propostas dos novos livros

- A produção de um cronograma com as atividades práticas e teóricas, sugeridas nos livros, é uma boa estratégia. Assim, a escola tem uma garantia maior de que as propostas de ensino estão sendo aplicadas com qualidade em todos os ciclos

- Acompanhar a frequência de uso dos livros pelos alunos e a qualidade das intervenções pedagógicas dos docentes. A ação pode ter papel fundamental para validar as propostas de ensino das obras utilizadas ao longo do ano

 Caprichando na escolha

O Ministério da Educação já conta com edital aberto para as editoras que quiserem indicar os livros da etapa do PNLD focada no Ensino Médio. As obras serão utilizadas no próximo ano letivo, em 2021. A data para seleção dos livros didáticos será divulgada ao longo do ano e o processo deve ser feita de maneira criteriosa e crítica.

Na hora da escolha, gestores e docentes devem favorecer o diálogo entre o PPP da escola e as propostas apresentadas pelos livros. O Brasil é um país com diversos contextos escolares e em diversas instituições os livros didáticos são os principais instrumentos pedagógicos. Em muitos casos, são as primeiras fontes de estudos de alunos e docentes.

Entre os aspectos a serem considerados na seleção das obras estão as habilidades e competências que os alunos devem desenvolver de acordo com as propostas de ensino da escola. “Nesse sentido, é essencial que as escolas dialoguem com a BNCC [Base Nacional Comum Curricular], seus diferentes campos de atuação e temáticas, e tenham clareza, não somente em relação ao que deve ser ensinado, mas, principalmente, ao que deve servir de objeto de aprendizagem pelos alunos ao longo da sua trajetória escolar”, enfatiza Lina Passos.

Fabiane Lopes pontua a importância de uma equipe escolar em sintonia e comprometida em compartilhar o processo de escolha dos livros didáticos. Para ela, os gestores não podem confiar apenas nos seus conhecimentos. “O corpo docente precisa estar envolvido diretamente na escolha dos materiais didáticos. São eles que vão utilizar os conteúdos ao longo do ano letivo” diz.

A equipe de gestão e os professores devem definir em conjunto, durante os encontros pedagógicos, momentos de estudo e discussões os critérios de escolha dos livros didáticos. É importante pensar na diversidade das propostas de ensinos, além de considerar as possibilidades de ensino que vão compor o cotidiano escolar e potencializar as múltiplas inteligências dos alunos.

As atividades sugeridas nos livros devem preservar a integridade emocional e física dos estudantes, estimular a formação de uma postura crítica e reflexiva. “A construção do processo de escolha das obras deve ter como objetivo final ampliar capacidades, habilidades e competências dos alunos como seres da linguagem e em constante processo de transformação e metamorfose”, finaliza Lina.

Critérios para se observar na hora de escolher os livros didáticos

  • - Histórico das editoras e experiência nos contextos de publicação de materiais pedagógicos
  • - Diversidade de linguagem da obra, incluindo, sobretudo, a multimodal
  • - Adequação didática dos exercícios teóricos e práticos a situações de avalição, interesses e necessidades dos alunos de diferentes faixas etárias
  • - Princípios éticos explícitos e implícitos nos textos e nas propostas apresentadas
  • - Respeito aos direitos humanos e à diversidade
  • - Valorização cultural das regiões brasileiras
  • - Possiblidade de diálogo entre as distintas áreas do conhecimento
  • - Organização lógica e coerente da coleção, tendo em vista a necessidade de se considerar a progressão das aprendizagens dos ciclos
  • - Inserção de atividades pedagógicas inovadoras e atualizadas
  • - Diálogo com a diversidade de gêneros impressos e digitais, capazes de atender ao movimento de mudanças pelas quais devem passar os planos de ensino e de aprendizagem
  • - Diálogo com recursos tecnológicos
  • - Qualidade e atualização das referências bibliográficas escolhidas para fundamentação das propostas apresentadas

 

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