Como é uma escola pública americana?

Grade horária personalizada, equipe pedagógica focada no desenvolvimento individual e busca ativa para ampliar a comunidade escolar são alguns diferenciais entre as escolas públicas dos Estados Unidos e do Brasil

POR:
Laís Semis

A repórter viajou a convite de Cambridge Assessment International Education para conhecer três escolas públicas em Palm Beach, na Flórida (EUA), que utilizam a Jornada Cambridge (Cambridge Pathway), um conjunto de currículos e exames criados pela instituição. Cambridge Assessment International Education é o maior provedor de programas de Educação internacional e qualificações para estudantes de cinco a 19 anos no mundo.

Atualizada em 10/01/2020 às 19h

Pátio da escola de Ensino Médio John I. Leonard, em Palm Beach, na Flórida (EUA). Crédito: Laís Semis/Nova Escola

O sistema de Educação Básico americano é primordialmente público. Apenas cerca de 10% dos estudantes estão em escolas privadas (no Brasil, o índice é 18%). Há três modelos de escolas nos Estados Unidos: as particulares, as públicas e as charter (financiadas com dinheiro público, mas geridas de forma autônoma e sem fins lucrativos).

As escolas públicas são geridas pelos distritos escolares que exercem um papel próximo de uma rede de ensino liderada por uma secretaria de Educação (órgão inexistente nos Estados Unidos). A diferença é que ao invés de contemplar todas as escolas municipais da cidade, os distritos consideram uma região e as escolas de diferentes etapas de ensino que estão localizadas naquela área. 

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“Muito do controle administrativo das escolas é local. Os distritos escolares possuem um conselho escolar (school board) eleito pela comunidade para administrar aquele grupo de escolas”, explica Donald Meyers, gerente sênior de Cambridge Assessment International Education na Flórida. 

Donald conhece bem as escolas públicaçs americanas: ele lecionou História Europeia e Psicologia para os alunos do Ensino Médio por mais de 20 anos. Hoje, continua próximo das instituições de ensino básico, mas trabalhando no acompanhamento da Jornada Cambridge, utilizada por todas as instituições públicas de Ensino Médio do estado.

Sala de aula de Matemática. Crédito: Laís Semis/Nova Escola

A autonomia dos distritos se reflete nos outros níveis de gestão escolar. O conselho escolar tem autonomia para contratar um superintendente (geralmente um educador bem gabaritado), que será a liderança responsável por direcionar todo o trabalho daquele distrito. Juntos, conselho e superintendente contratam os diretores e diretores-assistentes. Dentro das escolas, os diretores são responsáveis por contratação de professores e outros profissionais não-docentes.

Grande parte do financiamento das escolas públicas é local, proveniente dos impostos de propriedade (o IPTU brasileiro), o resto vem dos estados e uma pequena parte (10%) do governo federal. 

Mas, diferente da legislação brasileira, que prevê a obrigatoriedade de matrícula dos quatro aos 17 anos, garantindo o acesso à Educação Infantil, a Educação pública nos Estados Unidos não cobre esta primeira etapa de ensino. Mesmo quando este serviço é público, os pais e responsáveis precisam pagar semanalmente para que seus filhos frequentem uma pré-escola.

As escolas particulares

De acordo com o Centro Nacional de Estatísticas Educacionais (National Center for Education Statistics), do Departamento de Educação dos Estados Unidos, as escolas particulares no país custam uma média de 10.700 dólares por ano (cerca de R$ 42.800 por ano ou R$ 3.500 por mês). Algumas delas podem chegar a um investimento de mais de 25 mil dólares por ano (ou R$ 100 mil). 

“Em sua maioria, as escolas públicas são boas. Mas, em algumas partes da cidade, elas não são percebidas assim”, avalia Donald. “Algumas vezes, os pais mandam os filhos para as escolas particulares porque não consideram as públicas boas e também há motivos religiosos envolvidos nessa escolha”.

A Educação pública americana é agnóstica – o que significa, na prática, que a religião fica de fora da escola, com exceção dos estudos históricos ou culturais das religiões. Por exemplo, em História Mundial, todas as grandes religiões – cristianismo, judaísmo, islamismo, hinduísmo e budismo – são ensinadas e discutidas, mas de forma que uma não seja privilegiada em relação às outras.  Diferente do que se pode encontrar em escolas brasileiras e em outros órgãos públicos, não há crucifixos ou símbolos religiosos nem mesmo na sala do diretor ou dos professores. Esta é uma das principais razões que levam algumas famílias a buscarem uma escola privada. Outro fator é que as particulares podem escolher quais alunos se matriculam ou não na instituição, tendo uma clientela que pode ser vista por alguns pais como mais selecionada.

O tamanho das turmas um fator que costuma ser reclamação entre os professores de escolas públicas no Brasil não é tão gritante nos Estados Unidos. Segundo dados do Centro Nacional de Estatísticas Educacionais, as escolas americanas públicas tem uma média de 25 alunos, enquanto as particulares, 19. E a formação continuada dos professores nas públicas sai na frente em relação às particulares: 48% deles têm um mestrado (contra 36% dos docentes em escolas privadas). 

Laboratório de Ciências da Escola de Ensino Médio Boca Raton, em Palm Beach, na Flórida. Crédito: Laís Semis

Salário dos professores

A luta pela valorização salarial dos professores norte-americanos, por outro lado, traça alguns paralelos com o Brasil. Desde 2018, a categoria entrou em greve em 11 estados e em grandes cidades como Los Angeles e Chicago - o terceiro maior distrito educacional do país. O achatamento salarial motivado pela inflação e agravado pelo aumento dos custos com a saúde, bem como os cortes no financiamento educacional após a crise financeira de 2008 ajudam a explicar o descontentamento dos professores. 

A estrutura da gestão escolar

Melissa Patterson é diretora de uma escola pública de Ensino Médio no condado de Palm Beach, na Flórida. A escola John I. Leonard possui quase 3.600 estudantes e funciona das 7:30 da manhã às 14:45. O período de sete horas é o padrão de permanência nas escolas americanas. 

Lá, nenhum aluno perambula pelos corredores enquanto as aulas acontecem. E, ao avistar um deles de longe fora da sala no horário da aula, Melissa apenas toca o apito pendurado em seu pescoço. É o suficiente para que ele  volte para a sala. Para gerir não apenas a disciplina de uma escola desse porte, mas também as partes administrativas e pedagógicas, a diretora conta com o apoio de uma equipe. 

A infraestrutura da escola contempla pista de corrida e arquibancadas. Crédito: Laís Semis/Nova Escola

Donald explica que, geralmente, uma escola de Ensino Médio conta com cinco ou seis diretores-assistentes. “Eles lidam com a disciplina e gerenciamento da escola. Cada diretor assistente é responsável por um grupo de alunos”.  Assim, se um aluno tem algum problema de comportamento, ele possui um diretor-assistente de referência que lidará com o caso. 

“Alguns desses diretores-assistentes também possuem outros papéis que facilitam a administração predial, como conferir se o ar condicionado está funcionando, se o prédio está limpo ou se precisa de pintura”, conta. Outros são intitulados diretores-assistentes para currículo, sendo responsáveis por planejar quais serão as disciplinas ofertadas pela instituição de ensino. 

Há também os orientadores pedagógicos. O trabalho deles é auxiliar os estudantes nas escolas das disciplinas que vão compor a grade horária. “Eles sentam com cada aluno e planejam em conjunto desde o Ensino Fundamental 2”, explica Donald. “É um trabalho customizado que tenta equilibrar as necessidades e os interesses de cada criança”. Quando os alunos chegam ao Ensino Médio, os orientadores auxiliam com informações sobre cursos, faculdades e também os requisitos necessários para se aplicar para os processos seletivos delas. Assim, os estudantes possuem um parceiro que pode auxiliá-lo a fazer boas escolhas ao longo dos quatro anos do Médio para estar preparado para as universidades.

A sala dos professores na sua escola costuma ser o local dedicado ao planejamento? Na escola de Ensino Fundamental H.L. Johnson, em Palm Beach, na Flórida há um complexo de salas dedicadas ao planejamento. Além da sala com sofás, há a sala dos papéis e máquinas copiadoras, a sala de materiais e uma sala com livros literários para uso dos professores em sala. Crédito: Laís Semis/Nova Escola

Há também os coordenadores de programas curriculares específicos, como é o caso da Jornada Cambridge (chamados na Flórida de coordenadores AICE). Durante o Ensino Médio, é possível obter qualificações (Cambridge International AS e A levels) em cada disciplina que comprovam que o estudante teve aulas avançadas. Um conjunto dessas qualificações é intitulado Cambridge Advanced International Certificate of Education (AICE) Diploma. O diploma AICE pode ser usado como parte do processo seletivo para as universidades, mas é necessário um equilíbrio entre disciplinas de diferentes áreas do conhecimento e, por isso, a orientação é fundamental (leia mais no tópico “Passaporte para as universidades”).

Uma grade flexível ao que os alunos precisam e ao que gostam

Assim como o Brasil, os Estados Unidos conta com uma base nacional comum curricular — chamada de Common Core. Mas, diferente do sistema brasileiro, os estados possuem autonomia para seguir ou não as diretrizes do Common Core. A Flórida foi um dos estados que o adotou, mas ainda assim há liberdade para adequações no currículo. 

Nesse modelo, as escolas podem optar por utilizar currículos feitos por outras instituições, como é o caso dos currículos de Cambridge International (450 escolas americanas são adeptas do programa), o Advanced Placement (AP) ou o International Baccalaureate Diploma Programme (IBDP). Estes são programas educacionais com qualificações reconhecidas internacionalmente e consideradas aulas avançadas do currículo. A opção é das escolas – que também podem mesclar a oferta entre Cambridge e International Baccalaureate, por exemplo, ou usar o currículo destas instituições para lecionar apenas determinados componentes curriculares.

Os corredores da John I. Leonard são repletos de pinturas. Todos os murais foram pintados pelos próprios estudantes. Crédito: Laís Semis/Nova Escola

A grade curricular americana é flexível, o que significa que os estudantes têm liberdade para escolher que disciplinas cursar. No entanto, há uma grande preocupação de que os alunos façam escolhas que garantam um equilíbrio entre as áreas do conhecimento. Para tal, há um coordenador responsável por aconselhar e acompanhar o desempenho acadêmico dos estudantes nos quatro anos do Ensino Médio. Uma das principais razões para isso é que a trajetória de quatro anos no Ensino Médio pode definir a entrada nas universidades. Por isso, tanto escolas públicas quanto privadas focam em ofertas como a de disciplinas avançadas e programas de qualificação internacional. É o caso da John I. Leonard, que oferece os cursos avançados da Jornada Cambridge há sete anos e também cursos do AP.

A oferta de disciplinas eletivas contempla um cardápio de diferentes interesses dentro de três áreas: Matemática e Ciências; Linguagens; e Artes e Humanidades, além de optativas interdisciplinares. De tempos em tempos, elas são revistas de acordo com o interesse da comunidade estudantil e da experiência que o corpo docente da escola pode oferecer. 

Mas Beth Knight, coordenadora AICE, reconhece que nem sempre as disciplinas ofertadas funcionam. “É tentativa e erro. Achamos que a disciplina de Negócios fosse ser um ótimo curso”, relembra Beth. A oferta, entretanto, não foi um grande sucesso. “Quando os alunos não estão interessados no curso, ele sai da lista de oferta e é substituído por outro dentro da mesma área do conhecimento”.

As disciplinas ofertadas na escola John I. Leonard pela Jornada Cambridge
Para obter um AICE diploma, é necessário garantir créditos em Matemática e Ciências; Linguagens; Artes e Humanidades; e em Perspectivas Globais e Pesquisa

Matemática e Ciências:

- Gestão ambiental;
- Ciências marinhas;
- Psicologia;
- Matemática;
- Ciências computacionais

Linguagens:

- Língua Inglesa;
- Língua Espanhola;
- Língua Francesa

 Artes e Humanidades:

- Arte e design;
- História européia;
- História americana;
- Viagem e turismo

Interdisciplinares e disciplinas baseadas em habilidades:

- General paper (uma espécie de disciplina de ensaios dissertativos sobre temas variados)
- Perspectivas globais e pesquisa;
- Habilidades de pensamento crítico


Pela flexibilidade curricular e pelo tempo de permanência na escola – sete horas diárias contra as cinco horas diárias brasileiras –, o catálogo de disciplinas ofertado nos Estados Unidos pode ser muito mais variado do que o de uma escola brasileira. Ao todo,
55 disciplinas são ofertadas na Jornada Cambridge para o Ensino Médio. 

Também vai ser assim no Novo Ensino Médio brasileiro?

Não exatamente. A estrutura de flexibilização do modelo do Novo Ensino Médio, que deve entrar em vigor em 2020 no Brasil, é diferente da flexibilidade do sistema americano. 

As 13 disciplinas que hoje são parte da grade curricular do Ensino Médio serão divididas em quatro áreas do conhecimento: Linguagens e suas Tecnologias; Matemática e suas Tecnologias; Ciências da Natureza e suas Tecnologias e Ciências Humanas e Sociais Aplicadas. Essa será uma base comum do currículo, obrigatória a todos os estudantes e que contempla todas as áreas do conhecimento. 

Além de cursarem a base comum, os estudantes deverão optar por um itinerário formativo, que combina diferentes componentes curriculares. Os itinerários são a parte flexível do currículo, o que significa que os estudantes poderão escolher, entre os itinerários ofertados pela escola, qual desejam estudar. São contempladas como itinerários as quatro áreas do conhecimento da base comum de forma aprofundada (Linguagens e suas Tecnologias; Matemática e suas Tecnologias; Ciências da Natureza e suas Tecnologias e Ciências Humanas e Sociais Aplicadas) e um itinerário de formação técnica e profissional.

As redes de ensino serão obrigadas a ofertar ao menos dois itinerários formativos. Assim, se um município possui duas escolas de Ensino Médio, cada uma delas poderá apresentar um ou mais itinerário.

Pátio da escola de Ensino Médio Boca Raton. Crédito: Laís Semis/Nova Escola

Passaporte para as universidades

As admissões para as universidades americanas são em parte compostas por testes padronizados (SAT ou ACT, que seriam como uma espécie de Exame Nacional do Ensino Médio - Enem) e pelo histórico escolar do Ensino Médio. “Muitos dos responsáveis pelos processos de admissões das universidades dizem que o histórico do Ensino Médio tem um peso maior”, aponta Donald. “Dessa forma, quanto mais disciplinas avançadas você cursar, mais forte é o seu currículo e, consequentemente, mais chances você possui de entrar em uma universidade”. 

Alexis Garcia é um desses exemplos. Ela estuda na 13ª série (penúltimo ano do Ensino Médio americano) e já concluiu as oito disciplinas avançadas (Cambridge International AS levels) que lhe garantiriam mais que o necessário para se aplicar para uma universidade. Alexis, no entanto, vai ter cursado 13 disciplinas até o final da 14ª série. E por que ela prossegue com essas aulas? “Eu realmente as acho enriquecedoras. No final você aprende tanto com cada uma das aulas, que você se interessa muito. É uma oportunidade de abrir sua cabeça e expressar suas ideias sobre um campo de conhecimento totalmente novo”, responde Alexis. Entre as suas aulas preferidas, ela cita Psicologia e Perspectivas Globais.

Todas as escolas de Ensino Médio de Palm Beach oferecem o programa de Cambridge, o que dá oportunidade para que todos os estudantes possam ter qualificações avançadas de diferentes disciplinas e ter uma candidatura mais atraente para as universidades. “Na Flórida, quando você completa o diploma AICE e é aceito em qualquer universidade do estado, você tem suas despesas de mensalidade pagas nestas instituições pelo estado”, conta Donald. Como não há universidades públicas gratuitas nos Estados Unidos, o AICE diploma tem permitido que os alunos de classes socioeconômicas menos favorecidas possam ingressar nas universidades que desejam sem se preocupar em não conseguir arcar com os custos do curso ou garantir uma bolsa de estudos. Este também é um incentivo da Flórida para reter os alunos talentosos dentro das universidades do estado.  

É em inglês, mas não precisa

Dos 160 países em que a Jornada Cambridge é utilizada, cerca de 34% tem o inglês como primeira língua oficial. O mais interessante é que embora o currículo de Cambridge seja em inglês, não há prescrição para que as aulas sejam dadas na Língua Inglesa. “O foco não é na língua, mas em educar crianças e desenvolver habilidades, como pensamento crítico ou raciocínio lógico”, explica Fabrizio Rossi, gerente nacional de Cambridge International para o Brasil. “Para fazer isso, você pode usar diversos códigos. Seja em inglês, português ou espanhol, a aprendizagem vai surtir efeito. São aprendizados que extrapolam a questão linguística”.

A escola de Melissa, por exemplo, está localizada em uma região com muitos alunos imigrantes. Segundo dados do Censo Americano (U.S. Census Bureau 2012-2016 American Community Survey), cerca de 19,9% da população da Flórida é imigrante, em sua maioria vindos da América Latina. Muitos falam espanhol, português ou francês como primeira língua. Na John I. Leonard, 62% dos estudantes são hispânicos (falantes da língua espanhola), sendo os próprios alunos imigrantes ou filhos de imigrantes, assim como Melissa, que é nascida em Porto Rico. “Quando eu estava na escola, tudo que eu queria era ter uma única aula na minha língua nativa. Mas não existia essa possibilidade”, relembra a diretora. 

Painel artístico pintado pelos estudantes da John I. Leonard em homenagem aos estudantes vindos da América Latina. "Nossa voz vai mudar o mundo - latinos em ação", diz o mural. Crédito: Laís Semis/Nova Escola

Foi considerando a sua comunidade escolar que Melissa ajudou a viabilizar que parte das disciplinas tivessem a opção também de ser em espanhol. “Há uma realidade por trás disso. Nos próximos anos, nosso distrito de Palm Beach vai atingir uma população de 44% de falantes de Língua Espanhola. Eles não podem ser excluídos da Educação e precisam estar aptos para o mercado de trabalho”, diz Melissa. “Sempre fui diretora de escolas que trabalham currículos em inglês e espanhol. E se eu for pra uma escola que não seja assim, eu provavelmente vou convertê-la”, diz a diretora rindo.

A oportunidade de contato com a língua nativa ajuda especialmente aqueles que ainda não dominam o inglês totalmente, sem prejuízos ao conteúdo. “Os estudantes não param de aprender porque eles ainda estão se desenvolvendo no inglês”, conta Karen Brill, professora responsável por liderar o programa de Língua Espanhola na escola. “Ao mesmo tempo, é muito desafiador porque as aulas são em espanhol, mas as provas são em inglês”.

Ao invés dos professores trocarem de sala, nos Estados Unidos são os alunos quem trocam. Por conta disso, os professores produzem salas temáticas de sua disciplina. Nesta sala de História da John I. Leonard, as aulas são em espanhol. Crédito: Laís Semis/Nova Escola

Um mergulho no futuro

Além das aulas optativas, algumas escolas oferecem as chamadas “academias” (academies), espaços em que os alunos podem ter maior contato com uma área de conhecimento profissional ao longo dos quatro anos de Ensino Médio. A escola John I. Leonard, por exemplo, conta com quatro: a academia de tecnologia informática; academia financeira; academia internacional de espanhol; e a academia médica.

Nesta última, por exemplo, se inscrevem para participar dessas aulas, os alunos interessados em seguir uma carreira na área da saúde, como medicina, enfermaria, farmácia e ciências biomédicas.  É o caso da aluna Alexis Garcia. Ela considera o curso de veterinária, mas ainda está aberta à outras opções dentro da área. “O objetivo da academia é justamente te dar um senso do que você quer fazer”, explica Alexis. “Você tem uma oportunidade de entrar em contato com o campo antes de você realmente decidir o que você quer fazer profissionalmente”. 



As aulas abordam, por exemplo, fundamentos da medicina, aulas de laboratório, ciência farmacêutica e estrutura do corpo humano e suas funções. Parte do currículo vem das aulas avançadas da Jornada Cambridge. “Nós o usamos para deixar a grade das academias mais robustas. É uma estratégia também usada por outras escolas de Ensino Médio”, diz a diretora Melissa.

Melissa ressalta que nem todos os alunos estão qualificados para participar das academias. “Há um critério acadêmico de participação”, diz. Os critérios variam de acordo com a academia, mas seguem a lógica de inscrição (application) das universidades e as bolsas de estudo.  “Os critérios que estabelecemos são para preparar os estudantes para o próximo passo e para poderem participar de bolsas de estudos, que são competitivas”.

Há um processo de aplicação em que os interessados são avaliados pelas atividades que executam na escola. Bom comportamento, pelo menos 100 horas de dedicação à serviços comunitários e estar cursando disciplinas avançadas (como as de Cambridge ou do Advanced Placement) são alguns dos critérios, por exemplo, para participar da academia médica na John I. Leonard. 

Nem todos possuem os mesmos benefícios nas escolas públicas

O tamanho das escolas públicas nos Estados Unidos impressiona. As estruturas se assemelham às de universidades: laboratórios, quadras com arquibancada, pistas de corrida, grandes pátios e refeitórios que quase podem ser confundidos com uma praça de alimentação. Mesmo que a infraestrutura deste último mude, as escolas valorizam a liberdade das crianças e adolescentes de escolherem sua comida: refeição, lanches, doces  – mas vale dizer que o sorvete que as crianças mais novas consomem tão felizes é na verdade feito de iogurte. Diferente das escolas brasileiras, não há um único cardápio para a merenda. No entanto, ela não é gratuita para todos os estudantes nos Estados Unidos.

O refeitório da John I. Leonard se assemelha à uma praça de alimentação de shopping e oferece um cardápio variado, que inclui comida asiática e hambúrgueres. Crédito: Laís Semis/Nova Escola

Os pais e responsáveis pelas crianças depositam um crédito para a escola que vai sendo descontado conforme o uso. Para as crianças de baixa renda, existe um auxílio do governo. “Se uma família está abaixo de uma determinada renda, os estudantes se qualificam para receber refeições de graça ou por um preço reduzido”, explica Donald. Quando mais de 40% dos estudantes se enquadram no benefício, as instituições são categorizadas como Escolas Título 1 (title one school). 

“Elas recebem um fundo extra porque há crianças e jovens com maiores necessidades econômicas”. O fundo tem o objetivo de apoiar as escolas a atingir suas metas educacionais e o dinheiro pode ser aplicado para contratação e formação de funcionários e para investimentos em melhorias no currículo, por exemplo. 

Donald, no entanto, atenta que apesar do que pode parecer à primeira vista, esta é uma faca de dois gumes: embora seja bom para o orçamento, ser uma Escola Título 1 pode ser visto negativamente – assim como acontece com algumas escolas localizadas em comunidades mais carentes no Brasil. “Algumas pessoas olham para as Escolas Título 1 como um lugar em que eles não querem dar aula ou matricular seus filhos”, explica.

A coordenadora Beth Knight acredita que há uma subestimação de que essas crianças seriam menos capazes por conta de sua origem social. A escola John I. Leonard, em que Melissa e Beth trabalham, é Título 1. A escola, entretanto, é ranqueada pelo estado como Nota B em uma escala de “A” a “F” – sendo a nota “A” atribuída às melhores escolas. Uma série de itens compõem essa nota – parte dela é obtida a partir do desempenho dos alunos em avaliações externas de Língua Inglesa, Matemática, Ciências e História. “Nós estamos provando que não importa de onde você vem. O que importa é o que é disponibilizado para você para te ajudar a desenvolver suas habilidades”, defende Beth.

Recreio no pátio da John I. Leonard. Crédito: Laís Semis/Nova Escola

A corrida por alunos

Os programas curriculares, academias e outras iniciativas da escola podem ser atrativos decisórios na escolha de uma instituição de ensino para estudar – mesmo se tratando das públicas. Mas engana-se quem pensa que a corrida por estudantes começa no Ensino Médio, considerando a preparação que essas escolas podem dar para a universidade. 

A escola H.L. Johnson atende alunos da pré-escola ao Fundamental 1. Eles se orgulham de ser uma escola cinco estrelas. A diretora Jennifer Makowski mostra os folhetos que a escola imprimiu para distribuir em uma feira de exposição de escolas para o início do ano letivo. Além da visão educacional da instituição e das premiações que ela já recebeu, os folhetos destacam eventos, programas acadêmicos, metodologias (como o STEAM) e o currículo Cambridge International, pontos que considera atrativos para as famílias e estudantes. 

Se você conhece a realidade das escolas públicas brasileiras com salas superlotadas e poucos recursos financeiros, é possível que esteja se perguntando: por que uma escola com de 750 alunos se importa em fazer uma busca ativa para atrair mais estudantes? “Eu quero que o maior número possível de estudantes tenham a possibilidade de vivenciar as oportunidades educacionais que oferecemos aqui na  H.L. Johnson”, responde a diretora Jennifer. 

Mas além do propósito educacional, há recursos financeiros que podem ajudar na administração e sucesso de aprendizagem dos alunos. Como o orçamento das escolas está associado ao número de estudantes, é possível contratar mais professores, diretores-assistentes e orientadores pedagógicos. “E, dependendo do tamanho da escola, há um bônus para os diretores pela complexidade daquela instituição”, pontua Donald. Além disso, com um corpo docente maior há diferentes expertises na casa, o que dá flexibilidade para que as escolas explorem muitas disciplinas eletivas. 

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