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Quietinho ou solitário?

Por trás daquele comportamento impecável de aluno que não abre a boca e nunca se mete em confusão, pode existir uma criança solitária. Ampará-la é mais fácil - e importante! - do que você imagina

POR:
Raquel Ribeiro
Ilustração: Gustavo
Ilustração: Gustavo

Vai haver um jogo e duas crianças começam a escolher seus times. "Quero Pedro.Vem, Carol!", e assim a garotada forma as equipes. No final, sobram dois ou três que ninguém quer e que ficam na reserva. Em toda escola há turmas assim. Mas às vezes, antes que o grupo ponha de lado alguns colegas, eles mesmos se isolam. Aluno que sempre lancha sozinho, se recusa a fazer trabalho em grupo, fala pouco e não participa das aulas dá sinais de que precisa de ajuda. A razão do isolamento pode estar na incapacidade de trocar, e o professor tem meios de intervir.

As causas da solidão podem ser transitórias, como a separação dos pais, a chegada de um irmão ou a morte de alguém querido. Os motivos estão também na própria escola. Por vezes, eles se referem à aprendizagem: a criança tem dificuldade em aprender ou é muito inteligente e não consegue se interessar pelas atividades ou pelos colegas. 

João* é um dos melhores alunos do Colégio Assunção, em São Paulo, mas não se relaciona com os colegas: prefere fazer sozinho trabalhos que os outros fazem em grupo e não participa das brincadeiras da turma. "Ele está centrado demais nos próprios desejos. Integrar-se implica ceder, se doar, e isso ele não sabe fazer", explica a coordenadora Adília Torres Cristófaro.

Algumas crianças mais introvertidas, geralmente dotadas de talentos artísticos, têm muita dificuldade de se enturmar. O isolamento é uma decisão pensada. "Esses alunos também merecem atenção especial e devem ter seus interesses respeitados", diz Inês Ribeiro, psicanalista do Colégio Freudiano do Rio de Janeiro. Há ainda os que se isolam para se proteger, porque não conseguem acompanhar o desempenho da turma, e os que se afastam porque são hostilizados pelos demais. É comum, em situações desse tipo, o estudante criar amigos imaginários. Se o mundo real não oferece possibilidades de relacionamento, ele prefere a fantasia.

Como ajudar seu aluno a se entrosar

Isolamento social e tristeza podem ser sinais de depressão, de acordo com a psicóloga Miriam Cruvinel, de Campinas (SP). Autora de uma tese sobre depressão infantil e rendimento escolar, ela aponta outros sinais do distúrbio: dificuldade de expressão, sentimento de culpa e de rejeição, falta de motivação, sonolência, irritabilidade e pessimismo ? a criança tem pensamentos negativos do tipo "não sou boa em nada". Em casos como esses, é fundamental sua aproximação. Por isso, tente motivá-la e elogiá-la. Lembre-se: todos precisam de amor e compreensão.

Há uma comprovada relação entre depressão infantil e falta de amizade ? e essa pode ser uma ótima bússola para você identificar o que acontece com o aluno. Jussara Tortella, professora da Universidade São Francisco, em Bragança Paulista (SP), escreveu uma tese de doutorado sobre a amizade e sugere que o educador incentive a turma a acolher o colega solitário. Outro caminho é explorar o talento do estudante em aulas de teatro e oficinas de arte, na produção de um jornal ou em pesquisas de laboratório. A atividade servirá de ponte para aproximação com o grupo. Assim fez Adília, do Colégio Assunção, para resolver o caso do aluno João. Com a ajuda da professora, ela começou a aproximar o garoto dos colegas que tinham os mesmos interesses que ele.

A postura do professor diante dos que são rejeitados ou ignorados pelo grupo é decisiva. "Muito quietos, os alunos negligenciados não dão trabalho ao professor, que pode pensar: 'Se todos fossem assim, que bom seria!' Só que eles precisam de apoio!", ressalta Jussara. Segundo a pesquisadora, a resposta mais comum da criança diante da pergunta "quando você se sente solitário?" é "quando não tenho um amigo".

A troca de informações com os pais do aluno é outro ponto importante, até para você saber se ele se comporta do mesmo modo fora da escola. Nem sempre o professor consegue dar conta do recado e o encaminhamento a um terapeuta é necessário. Mesmo assim, seu papel é crucial: perceber que ele precisa de cuidado já ajuda muito. "No início é mais fácil resolver o problema. Com o tempo, os estragos na auto-imagem são maiores", diz Miriam Cruvinel.

Vale lembrar que nem todo tímido desenvolve depressão e nem toda separação ou perda leva à tristeza profunda. Além disso, uma criança solitária não terá necessariamente o mesmo comportamento pelo resto de sua vida. O artista Leonardo da Vinci foi uma criança solitária. O físico Albert Einstein e o cineasta François Truffaut também! "Com certeza, o olhar do adulto e o apoio que a criança recebe são determinantes para sua felicidade", afirma Adília.

* O nome foi trocado para preservar a identidade da criança

Atividades que fortalecem o grupo

Veja alguns caminhos sugeridos por Jussara Tortella para auxiliar o aluno a se entrosar.

? Explorar com o grupo atividades de expressão artística. Desenhos, teatro e brincadeiras permitem criar personagens e colocar para fora medos, angústias e tristezas.

? Montar com a turma um caderno cheio de desenhos para presentear os aniversariantes da sala de aula.

? Elaborar perguntas que levem a garotada a falar das emoções. Sugestões: como você reage quando um amigo perde a calma e fica agressivo? Como você se sente quando briga com um amigo? Você consegue falar de seus sentimentos para outras pessoas? Para quem você contaria um segredo?

? Propor atividades divertidas, recreativas ou pedagógicas, em que os alunos precisem se ajudar, se tocar e trocar idéias. Por exemplo: assista com a turma ao filme Toy Story 1. Discuta o tema amizade e toque a música Amigo Estou Aqui, que faz parte da trilha sonora. Os alunos caminham enquanto escutam a música. Quando você abaixar o som, eles devem cumprimentar um colega. A música começa de novo e, quando pára, eles cumprimentam outro com um gesto diferente.

Quer saber mais?

CONTATOS
Colégio Assunção
Al. Lorena, 665, 01424-000, São Paulo, SP, tel. (11) 3887-3433
Inês Ribeiro, inesribeiro@superig.com.br
Jussara Tortella, atortella@uol.com.br
Miriam Cruvinel, miriam@unicamp.br

BIBLIOGRAFIA
DIBS: Em Busca de Si Mesmo,
Virgínia M. Axline, 215 págs., Ed. Agir, tel. (21) 3882-8200, 34,90 reais
O Livro de Referência Para a Depressão Infantil, Jeffrey A. Miller, 288 págs., Ed. M. Books, tel. (11) 3168-8242, 45 reais
Draguinho, Diferente de Todos, Parecido Com Ninguém, Claudio Galperin, 48 págs., Ed. Ática, tel. (11) 3990-1777, 18,50 reais

FILMOGRAFIA
Toy Story 1
, Estados Unidos, 1995, direção de John Lasseter, 81 min., Walt Disney, tel. 0800-121508 

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