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Conteúdos virais da internet: como levá-los para sua aula?

Vídeos, publicidade e humor alimentam a reflexão sobre mídia em proposta criada por professora de Brasília e aplicada por docente de Belo Horizonte

POR:
Dimítria Coutinho
Guiados por questões como "quem criou essa mensagem?" e "quais informações estão implícitas", os jovens do Ensino Médio analisaram campanhas publicitárias. Foto: Bruna Brandão/Nova Escola.

Para o professor Gustavo Neves, da Escola Sebrae, em Belo Horizonte, falar de mídia tem tudo a ver com Geografia. Entre as discussões sobre globalização e sobre como a tecnologia acelerou o compartilhamento de informações, ele aproveitou para conversar com os alunos do 2º ano do Ensino Médio da Escola do Sebrae, na capital mineira, sobre questões do mundo da publicidade e os famosos conteúdos "virais", que se espalham rapidamente na internet.

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A perspectiva de Gustavo está alinhada com o que defende a Base Nacional Comum Curricular (BNCC): segundo as diretrizes do documento, é papel da escola como um todo – e, portanto, de todos os componentes curriculares – possibilitar que os estudantes desenvolvam competências ligadas ao pensamento crítico, à comunicação e à cultura digital

A proposta implementada por ele se baseou no plano de aula escrito por Clarissa Bezerra, professora em Brasília, Google Innovator e também multiplicadora do Educamídia, programa do Instituto Palavra Aberta, com o objetivo de dar subsídios para professores trabalharem competências ligadas à Educação Midiática em todas as áreas, e não apenas nas aulas de Língua Portuguesa. Para isso, no processo de construção, Clarissa buscou deixar a atividade o mais flexível possível, a fim de que docentes de diversas disciplinas pudessem utilizá-la, levando a Educação Midiática a patamares mais aprofundados.

Clarissa elaborou, para o EducaMídia, um plano de aula que possibilita fazer discussões mais profundas sobre vídeos e outros produtos midiáticos. Foto: Estêvão Zilioli/Divulgação.

Vídeos, notícias, reportagens e anúncios já fazem parte dos materiais inseridos por educadores em seus planejamentos, mas as sugestões de Clarissa permitem que o uso deles ganhe mais aprofundamento e intencionalidade. “Esse plano é como uma camada de Educação Midiática a ser colocada no que cada um já faz”, diz ela. 

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Gustavo conheceu o material durante uma apresentação feita pela professora na primeira formação de multiplicadores do EducaMídia, promovida pelo Instituto Palavra Aberta, em Brasília. Os vídeos já eram bastante presentes em suas aulas, mas o uso da proposta de Clarissa o ajudou a envolver os estudantes em uma análise mais aprofundada.  “As aulas de Geografia sempre têm uma entrevista, algum discurso de um determinado presidente, ou mesmo algum tratado ou congresso, que requerem um olhar muito apurado para perceber as intenções de quem emite essas mensagens", explica.

O que faz um viral

Feito para ser desenvolvido em apenas uma aula, o projeto de Clarissa se divide em três momentos. No primeiro, os alunos são convidados a compartilhar com os colegas exemplos de conteúdos digitais que tenham viralizado e, em seguida, discutem sobre os possíveis motivos pelos quais aquele conteúdo alcançou um público grande. “A ativação começa pelo mundo dos próprios alunos”, comenta.

A primeira discussão teve como base a ideia de viralização: vídeos que se espalham rapidamente pelas redes. Foto: Bruna Brandão/Nova Escola

Aspectos como o humor, a espontaneidade e o inusitado contam para o potencial de o conteúdo se espalhar como um vírus – de uma pessoa para outras, atingindo uma quantidade grande em pouco tempo. Um exemplo recente é o caso senhor Nilson Izaías, de 72 anos, que ficou famoso por um vídeo em que faz slime, um tipo de meleca caseira que ficou famosa na internet, principalmente em canais infantis. A publicação – em que ele diz ter realizado um sonho – se espalhou rapidamente e se tornou um dos mais vistos no Brasil em 2019, segundo o YouTube.

O segundo momento da aula propõe o uso da metodologia Rotinas de Pensamento, criada por um projeto da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Após assistirem a uma campanha publicitária de cosméticos (veja o vídeo abaixo), o plano sugere que os jovens registrem, em papel, o que viram, depois sua interpretação sobre o conteúdo e, por último, curiosidades que ficaram. O objetivo é evidenciar processos que podem ser desencadeados ao entrar em contato com um vídeo ou um texto e que ajudam a construir um olhar mais aprofundado sobre eles. “Eu não queria só que os jovens assistissem e falassem ‘eu achei legal’ ou ‘eu achei polêmico’, mas sim que eles se engajassem em um pensamento crítico”, explica a professora. 

No terceiro momento, a sugestão é apresentar outra campanha e pedir que, em grupo, os estudantes discutam sobre o conteúdo com base em uma matriz que questiona informações como: "quem é o autor?", "qual o propósito desse conteúdo?" e "quem pode se beneficiar dessa mensagem?". 

A adaptação para diferentes disciplinas, segundo Clarissa, pode se dar no levantamento dos materiais. “O professor pode colocar uma imagem, um anúncio impresso sobre outro assunto, pode substituir o vídeo por outro conectado com os temas do currículo. Mas sempre com o intuito de realizar a leitura crítica da mídia”, orienta. Para Clarissa, o essencial é que o material escolhido seja passível de uma análise crítica e que se relacione, de alguma forma, com o conteúdo trabalhado em sala de aula. “Mudam as perguntas que o professor quer fazer de acordo com o objetivo que ele quer alcançar.”, justifica.

O que faz um viral

Na aula de Gustavo, duas discussões principais tomaram forma. A primeira foi sobre o conteúdo das propagandas, que fez com que os jovens debatessem temas como machismo e homofobia. “Foi muito interessante porque a turma construiu os próprios argumentos”, conta o professor. Nessa discussão, por exemplo, alguns alunos estavam resistentes a aceitarem que o aumento da diversidade nos vídeos era um fator positivo. A outra parte da sala contrapôs essa ideia, argumentando sobre a importância de contemplar diferentes visões de mundo também na mídia.

Dois anúncios publicitários serviram como mote para o debate sobre a representação da diversidade na mídia. Foto: Bruna Brandão/Nova Escola

A segunda discussão gerada em sala diz respeito ao incentivo ao consumo pela publicidade. “Embora a propaganda tenha uma mensagem que é legal, eles notaram que a empresa insere minorias porque as veem como um nicho de mercado”, lembra o professor. Esses eram justamente os pontos que Clarissa queria levantar. “Esse é o verdadeiro pensamento crítico”, afirma a autora do plano de aula. 

A proposta não tem como objetivo encerrar a discussão sobre mídia, pelo contrário. A ideia é dar um primeiro passo para inserir alunos e educadores na discussão. “Esta aula abre possibilidades de voltar ao tema com um olhar já crítico”, afirma o professor mineiro.

 

ler, ver, sentir, interagir - CLARISSA bezerra

Área: Ciências Humanas, mas pode replicado em qualquer disciplina

Anos: Ensino Médio

Duração: Uma aula

Objetivos de Aprendizagem

- Refletir sobre o impacto da comunicação das marcas no comportamento de consumidores;

- Aprofundar o entendimento dos alunos acerca do fenômeno da viralizaçãoerença entre representação e realidade; 

Relação com a BNCC

Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta.

Competência Geral 7

Compreender o funcionamento das diferentes linguagens e práticas culturais (artísticas, corporais e verbais) e mobilizar esses conhecimentos na recepção e produção de discursos nos diferentes campos de atuação social e nas diversas mídias, para ampliar as formas de participação social, o entendimento e as possibilidades de explicação e interpretação crítica da realidade e para continuar aprendendo.

Competência da área de Linguagens 1 

Campo Jornalístico-Midiático: Analisar formas contemporâneas de publicidade em contexto digital (advergame, anúncios em vídeos, social advertising, unboxing, narrativa mercadológica, entre outras), e peças de campanhas publicitárias e políticas (cartazes, folhetos, anúncios, propagandas em diferentes mídias, spots, jingles etc.), identificando valores e representações de situações, grupos e configurações sociais veiculadas, desconstruindo estereótipos, destacando estratégias de engajamento e viralização e explicando os mecanismos de persuasão utilizados e os efeitos de sentido provocados pelas escolhas feitas em termos de elementos e recursos linguístico-discursivos, imagéticos, sonoros, gestuais e espaciais, entre outros.

Habilidade EM13LP44


Passo a passo do projeto

1. Em grupos de quatro ou cinco, peça que os alunos selecionem o exemplo de algum conteúdo digital que se tornou muito famoso na internet, e peça que eles discutam sobre “por que o conteúdo viralizou?” Convide um membro de cada grupo para compartilhar o debate com toda a turma.

2.Escolha um material para ser apresentado aos alunos. Pode ser um vídeo, uma imagem, um recorte de jornal ou uma obra de arte. Os requisitos são ser passível de análise crítica e estar relacionado com a disciplina lecionada pelo professor. Proponha que os alunos assistam ao primeiro vídeo da aula (ou qualquer outra mídia que você tenha escolhido para adaptar) e diga que eles deverão se engajar em uma tarefa de reflexão estruturada;

3. Em uma folha, os alunos devem preencher, individualmente, três colunas. Na primeira, devem descrever o que viram no vídeo. Na segunda, suas interpretações, ou seja, o que eles pensam sobre o que viram no vídeo. Na terceira, o que eles ficam curiosos, ou as perguntas que surgiram no processo de descrever e pensar sobre o que foi visto. Nesse momento, é importante instruir sobre a separação do que se vê e do que se interpreta; Ao final, separe um momento para que os alunos compartilhem o que escreveram. Faça a mediação do debate convidando o restante da turma a expor suas também suas opiniões;

4. Terminada a discussão, indique que os alunos assistam ao segundo vídeo (ou outra mídia escolhida pelo professor - é importante que ela tenha os mesmos requisitos que a primeira e se relacione com ela em temática). Ao fim do vídeo, divida a sala em grupos e distribua cartas da Matriz de Análise Midiática, disponível no slide número 11 desse link. Cada aluno deve ficar responsável por conduzir o debate sobre o aspecto da carta com a qual ficou; Convide alunos a compartilhar com a turma toda as análises e discussões que os pequenos grupos tiveram acerca das cartas;

5. Para finalizar, peça que os alunos compartilhem a experiência com o resto da turma, seguindo o seguinte molde: Antes da aula de hoje, eu achava/pensava/sentia que.... , mas depois da aula de hoje... eu passei a achar/pensar/sentir que…”.

Este conteúdo é parte do projeto EducaMídia, do Instituto Palavra Aberta, com apoio do Google.org, para incentivar a Educação Midiática e a liberdade de expressão.

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