Como boas práticas mudaram o Ensino Médio em escolas do Ceará

Conheça três iniciativas que fazem a diferença para a garantia do tempo e planejamento pedagógico

POR:
Adolfo Ignacio Calderón
Alunos do Ensino Médio
Foto: Getty Images

São múltiplos os usos que podem ser feitos das avaliações em larga escala, promovidas pelo poder público. Um deles é aprender com as experiências de escolas, municípios e estados que conseguiram fazer a diferença no cotidiano escolar. O chamado (e por vezes criticado) benchmarking no âmbito educacional não é nada mais do que identificar e analisar de forma estratégica as boas práticas realizadas por outras unidades escolares ou redes de ensino, com o intuito de aprender com elas. 

Seria ingênuo acreditar que a ação que gerou bons resultados em uma determinada realidade escolar possa ser replicada com os mesmos efeitos em outra unidade ou sistema escolar. Todas as escolas estão inseridas em realidades e contextos diferentes, apresentando suas próprias especificidades. Portanto, mais do que meramente serem replicadas, as boas práticas podem servir para inspirar a criação, recriação e aprimoramento de iniciativas que visem a solução de determinados problemas do universo escolar.

Neste artigo, gostaria de apresentar uma síntese de alguns resultados do estudo “Análise de fatores de alto desempenho e boas práticas em escolas da rede pública do estado do Ceará”

, divulgado em 2013, que coordenei a partir de convite das equipes da Avalia Educacional e da Secretaria de Educação do Governo do Estado do Ceará, e também redigi o relatório final. O objetivo foi estudar, a partir do referencial teórico da eficácia escolar, a realidade in loco de escolas do Ensino Fundamental e Ensino Médio do Ceará.

LEIA MAIS Tempo integral: 5 ações que fizeram o sucesso das escolas de PE

Como é amplamente sabido, Sobral tornou-se uma referência nacional devido aos progressivos bons resultados de aprendizagem, apesar das adversidades do contexto de pobreza predominante. O bom desempenho é resultado de iniciativas pragmáticas no âmbito da gestão e do trabalho docente, com foco na aprendizagem e adequado monitoramento e uso das avaliações externas.

Entretanto, não somente Sobral, mas também outros municípios cearenses têm chamado a atenção em razão de seus avanços, resultados de políticas orquestradas conjuntamente entre o governo do Estado do Ceará e os governos municipais. 

O que se pode aprender desses municípios? Quais boas práticas podem ser resgatadas para servir de inspiração para escolas e municípios do país? Como tem sido possível a mudança da cultura escolar em determinadas realidades?

O estudo citado traz algumas ideias.

No que se refere ao Ensino Médio, foram selecionadas sete escolas que obtiveram elevado desempenho no Sistema Permanente de Avaliação da Educação Básica do Ceará (SPAECE) – edição 2010. Além disso, elas também tiveram resultado positivo no Índice Efeito-Escola, instrumento construído para este estudo, que permitiu identificar escolas que mais agregaram à aprendizagem dos alunos independentemente do contexto socioeconômico no qual estão inseridas.

LEIA MAIS Tempo integral: o que muda a Educação não são as horas a mais na escola

A coleta de dados foi realizada por uma equipe de sete pesquisadores de campo, composta em sua maioria por mestrandos e doutorandos de universidades cearenses. Ao todo, em cada escola, foram entrevistados cinco docentes, cinco pais, cinco alunos, cinco funcionários e um diretor. Participaram da pesquisa um total de 147 pessoas.

Todas as escolas selecionadas guardam como principal característica unificadora o fato de possuírem indicadores de qualidade e equidade elevados. Entretanto, no que tange aos aspectos socioculturais e econômicos, a característica principal é a heterogeneidade. São escolas localizadas em municípios de portes diferentes, em diversos pontos do Ceará, não havendo uma concentração em uma região específica.

Neste estudo identificou-se um conjunto de 28 boas práticas em diversos âmbitos, seja da gestão escolar, das práticas pedagógicas ou do clima escolar. Selecionamos abaixo três boas práticas que tinham como objetivo evitar que o aluno fique sem aula na ausência do professor, bem como a ruptura da sequência do planejamento escolar e a garantia do tempo pedagógico.

A primeira boa prática denomina-se “Professor Sempre Presente”, e tem como objetivo diminuir as faltas justificadas ou não dos docentes, principalmente, a banalização do uso do atestado médico. Assim, criou-se um instrumento para suprir essas ausências. Os professores que faltavam à aula eram obrigados a repô-la aos sábados, sob supervisão da equipe gestora. Além dessa ação obrigatória, criou-se um quadro de faltas na escola, com o nome do professor, o número de faltas, o dia da ausência e a data da reposição. O princípio se faz básico: se o professor falta, não é penalizado, mas deve repor as aulas, porque os alunos não podem ser prejudicados em relação aos conteúdos previstos.

A segunda boa prática denomina-se “Aula vaga: tolerância zero”. Esta surgiu diante do fato de que, quando os professores faltavam, os alunos ficavam fora da sala de aula. Como muitos alunos moravam na zona rural ou a distâncias de até 14 km da escola, não tinham como voltar para casa, permanecendo ociosos. Esta boa prática surgiu com o objetivo de não deixar nenhum aluno fora da sala de aula e sem estudar, mesmo na ausência justificada do docente, cumprindo toda a carga horária obrigatória no ano e os respectivos conteúdos curriculares.

Os professores passaram a elaborar planos de aula para mais de uma semana, caso tivessem que se ausentar. Na eventualidade da falta, a direção da escola já sabia os conteúdos ministrados, devendo seguir o planejamento. O professor era substituído por um docente da equipe de apoio, estabelecida a partir de uma relação solidária construída entre os docentes da mesma disciplina/ eixo/ conteúdo, que fazem planejamento coletivo e, portanto, têm capacidade técnica para ministrar os conteúdos. O professor substituto encerrava a aula deixando tarefas de casa, que eram registradas no planejamento. Quando o professor retornava, a primeira atividade era cobrar a tarefa de casa. Caso o aluno não tivesse feito a tarefa, a família era notificada. Com as tarefas de casa, os alunos percebiam a seriedade do trabalho do professor substituto. 

A terceira boa prática denomina-se “Garantia do uso do tempo de aprendizagem do aluno”. Para os entrevistados de uma das escolas pesquisadas, esta prática contribuiu para a melhoria da aprendizagem dos alunos, uma vez que, por ocasião da falta de professores, muitas vezes os alunos retornavam para casa, criando um ambiente escolar desestimulador, com a sensação de ruptura na sequência dos conteúdos. Dessa forma, os professores que iriam faltar enviavam à coordenação pedagógica uma atividade sobre o conteúdo do dia, podendo ser feita pelo aluno de forma escrita, na biblioteca e no laboratório de informática. A coordenação pedagógica providenciava mecanismos para que essa atividade pudesse ser efetivada, com acompanhamento docente. Trata-se de uma prática que se instituiu na rotina da escola. As famílias e os alunos sabiam que sempre haveria aula.

Como podemos observar, essa prática está estreitamente vinculada com a boa prática “Aula vaga: tolerância zero”. Por meio de ambas as iniciativas tentava-se evitar que os alunos retornassem para casa quando o professor, eventualmente, tinha de se ausentar da sala de aula. Além disso, fazer com que todos os conteúdos do planejamento coletivo fossem ministrados, independentemente da ausência do docente.

Chama a atenção o fato de existirem três boas práticas, bastantes semelhantes, em escolas de alto desempenho, voltadas para evitar que o aluno perca aula quando o professor falta à escola.

A “Professor sempre presente” revolucionou toda uma cultura escolar, e a equipe gestora foi muito corajosa ao manter-se firme, com amplo apoio político da Secretaria Municipal de Educação, na sua implantação, diante das pressões por parte de setores do professorado para suspender o projeto, cujo único e legítimo objetivo era o cumprimento do tempo pedagógico, com todos os conteúdos ministrados. Ou seja, o professor tem a liberdade para faltar à aula, mas também tem a obrigação de repor a mesma, uma vez que os alunos não podem se ver prejudicados. Recuperar aula é uma prática que acontece em qualquer escola privada, porque seria diferente na escola pública?

Com a prática “Professor sempre presente”, o professor que faltava era obrigado a repor as aulas aos sábados, havendo um controle sobre a otimização do tempo pedagógico e o cumprimento do planejamento escolar. Além disso, havia um controle exposto, publicamente, com os nomes dos professores que faltavam, constando os dados da reposição. Esse projeto conseguiu avançar à medida que a gestão se apoiou numa prática democrática como é buscar consenso e adesão dentro do corpo docente, neutralizando resistências. As outras duas boas práticas, “Garantia do uso do tempo de aprendizagem do aluno” e “Aula vaga: tolerância zero”, acenam para a construção de uma cultura do planejamento coletivo baseada em relações de colaboração entre professores. Caso um professor tenha que faltar, é substituído por outro docente, da mesma área e do mesmo grupo de planejamento, que espera reciprocidade em situação semelhante. Aulas planejadas individual e coletivamente, estabelecendo-se relações de colaboração, para que não haja ruptura no planejamento semanal, são um sinal de uma nova cultura, que acena para o espírito colaborativo, o trabalho em equipe, a manutenção de um ritmo planejado para ministrar os conteúdos exigidos por lei. Junto a isso, um núcleo gestor que apoia, estimula e acompanha. 

Adolfo Ignacio Calderón é professor titular do Programa de Pós-graduação em Educação da PUC-Campinas, pesquisador com bolsa de produtividade em pesquisa do CNPq, membro do comitê técnico do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede).