O que é a metodologia ativa dos incidentes críticos?

Ao relembrar experiências, professor pode melhorar a prática pedagógica e avaliar a qualidade das aulas

POR:
Daniel Santos
Crédito: Getty Images

Durante a trajetória de vida, uma pessoa acumula momentos, episódios, emoções que, de alguma maneira, foram importantes e geraram consequências para seu desenvolvimento pessoal e profissional. No contexto da Educação, essas experiências vividas no passado são chamadas de incidentes críticos. Alguns são bons, outros, nem tanto. Porém, eles podem ser revisitados e utilizados como elementos de autoavaliação e ajudam o professor na sua prática didática.

Como se dão os incidentes críticos

Uma reunião de classe sem sucesso, um episódio frustrante durante uma formação ou até mesmo uma ação dentro da sala de aula são alguns possíveis exemplos de incidentes. No entanto, de acordo com Laurinda Ramalho de Almeida, professora de pós-graduação e mestrado em Educação e Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), essa classificação depende do significado que o docente atribui aos acontecimentos para que estes sejam considerados incidentes críticos. “Podem ser [acontecimentos] corriqueiros ou não, mas é a interpretação do episódio, por parte de quem viveu, que faz dele crítico e observável. Os incidentes, segundo definição de Peter Woods, são flashes que iluminam fortemente alguns pontos problemáticos vividos”, explica.

É essa avaliação individual sobre quão impactante tal experiência foi que pode ajudar o professor a melhorar sua trajetória profissional. Ao rememorar os incidentes críticos, a pessoa pode refletir, por exemplo, sobre seus desafios cotidianos, suas dificuldades na aplicação de metodologias, ou até mesmo problemas de relacionamento com colegas, gestores e alunos. A partir daí, o docente tem inúmeros elementos para melhorar a tomada de decisões.

Como aplicar os incidentes críticos

Harley Sato, professor do Ensino Médio e especialistas do curso “Metodologias Ativas - Como inovar sem tecnologia”  explica dois possíveis usos dos incidentes críticos no dia a dia da escola

  1. Uso para autoavaliação docente:

    Ao iniciar um trabalho com incidentes críticos, o professor deve levar em conta ao menos três pontos: o que exatamente aconteceu; qual foi a ação tomada na época para lidar com o ocorrido; e o que está sendo feito hoje, a partir da análise das situações rememoradas. Essas questões ajudam o professor a avaliar melhor os efeitos a longo prazo causados por essas experiências.

  2. Uso para avaliação dos alunos sobre a aula:

    Nesse caso, a aplicação da técnica segue uma dinâmica diferente. O professor desenvolve um formulário com cinco questões qualitativas que devem ser respondidas pelos alunos, de forma anônima. As questões, após analisadas pelo docente, são discutidas em classe. O objetivo é avaliar como o aluno recebe a proposta de ensino, como a metodologia do professor impacta seu aprendizado e quais falhas precisam ser corrigidas.

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Incidentes críticos na prática

O ato de relembrar incidentes críticos é um recurso importante, capaz de estimular nos professores a autoempatia, já que os coloca diante das próprias emoções e sentimentos, e serve como diagnóstico da necessidade de eventuais formações. Pode ainda estabelecer e fortalecer vínculos quando realizado de forma compartilhada com os colegas. “Trabalhar com incidentes críticos tem se mostrado uma estratégia potencialmente formativa, pois ao narrar o acontecido o professor reflete sobre os seus problemas cotidianos de maneira mais individual e aprofundada”, comenta Laurinda. “Um episódio rememorado pode promover a capacidade identificação do grupo com o ocorrido e de afetar-se com ele”.

Quando bem conduzido, o processo ajuda na socialização dos professores em seu processo de desenvolvimento. Além disso, também lhes dá maior segurança na prática pedagógica, já que permite identificar e corrigir dificuldades encontradas em sala de aula.

A aplicação da técnica adaptada aos alunos é interessante por dois motivos. O primeiro, de acordo com Harley Sato, é que ao criar um questionário para avaliação, o docente permite que o aluno produza seus próprios incidentes críticos. É a oportunidade que o aluno tem de apontar, por exemplo, o que ele acha mais interessante no conteúdo estudado e quais assuntos considera mais impactantes. “Ele está produzindo seus primeiros incidentes críticos, refletindo sobre seu aprendizado. Essa é uma importante atividade meta-cognitiva e de reflexão”, comenta. Outro ponto é a inserção do aluno de forma efetiva no entendimento do seu processo de aprendizagem. O professor abre a oportunidade de escuta aos alunos e cria um ambiente para que eles deem sua opinião. Essa é uma maneira importante de estabelecer uma relação de confiança como o aluno.

A partir da análise do questionário com as repostas dos alunos, o professor pode encontrar indicadores sobre a aceitação ou não de metodologia. Em sua prática profissional, Harley Sato faz dos incidentes seus aliados. “Na primeira vez em que apliquei um questionário de incidentes críticos para minha turma, vi resultados interessantes”, relata. A partir da aplicação, foi possível identificar que 60% dos alunos preferiam metodologias ativas, e 40%, aulas mais expositivas. “Como são metodologias diferentes, discuti com eles os resultados e decidimos juntos como conduzir melhor as aulas seguindo a avaliação dada pelos alunos”, diz Sato.

As respostas dadas pelos alunos são elementos importante para o professor propor as metodologias ativas. Aliás, o próprio questionário é um tipo de metodologia ativa, pois coloca o aluno como um personagem principal no processo de aprendizado. “Pode não ser uma metodologia tradicional, com aulas expositivas, estudo híbridos, mas a técnica, em si, faz do aluno um protagonista. Ao iniciar o processo de metodologia ativa, é fundamental que o docente escute o aluno, entenda suas dificuldades e proponha métodos mais eficientes para o desenvolvimento da turma”, explica o professor Harley.

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