E se fosse meu filho? Como a conquista de um aluno autista me fez relembrar a paixão por ser professora

Mãe de um garoto autista, a professora Damaris Morgenstern Pacheco nunca se emocionou tanto ao dar a nota máxima a um estudante

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Damaris Morgenstern Pacheco em depoimento a Clarice Cardoso

Crédito: Damaris Morgenstern Pacheco/acervo pessoal

Pela primeira vez, em nove anos de carreira, eu vinha pensando seriamente em mudar de profissão. Sempre fui apaixonada pelas salas de aula, mas a situação da carreira docente no Paraná e a violência nos fazem repensar – nunca registrei tantos boletins de ocorrência como em 2019. Eu já estava no meu limite, me questionava se deveria fazer uma nova graduação. Foi então que o destino, em suas brincadeiras, me fez lembrar os motivos de eu ter escolhido ensinar.

Era uma terça-feira, aula do 6º ano. Chorei discretamente em sala até chegar em casa e desabar. Não era um choro triste, mas a emoção de uma conquista.

Tenho um aluno diagnosticado com autismo. Às vezes, ele me lembra muito meu filho, que também é autista. No início de nossas aulas, ele tinha muitas crises em sala e eu tinha dúvidas se aquele era o melhor lugar para ele. Porém, com o tempo, ele foi sendo cada vez mais abraçado pelos colegas, o que fez uma tremenda diferença na vida dele, e foi se adaptando.

Em sala com um aluno autista 

Eu sou uma professora muito exigente e, até pelo meu sotaque, de Guarapuava, no sul do estado, tenho fama de “brava”. Brinco que sou exigente como uma professora de Matemática, mas dando aula de Arte. Também por isso, sei que no início esse garoto não gostava muito das minhas aulas. Ele chegou a faltar algumas vezes, até que começou a entender que o que eu estava fazendo era mostrar que ele tinha habilidades e competências únicas que poderíamos desenvolver juntos. Essa é uma preocupação constante para mim: cada criança, seja neurotípica ou neuroatípica, tem limitações e potencialidades – e meu trabalho é enxergar as primeiras e ajudar a desenvolver as segundas.

Para desenvolver atitudes inclusas em sala de aula 

Princípio da Educação inclusiva é não se ater ao diagnóstico e enxergar sujeito. Confira as dicas de Fernanda Arantes, especialista do curso “Como desenvolver atitudes inclusivas em sala de aula”, assessora em Educação Inclusiva e professora do curso de Pedagogia do Instituto Singularidades:

- Entenda como é a criança é.  Enxergar suas dificuldades e potencialidades permite mapear e vencer barreiras, assim como acessar o que cada aluno mais precisa. Esqueça as receitas de bolo: vá além disso e construa um olhar que permita ver o sujeito, pois isso é o princípio da inclusão. Encontre meios de permitir que cada estudante possa se vincular aos conteúdos de sua disciplina e entrar no circuito de aprendizagem.

- Não permita que o diagnóstico de paralise ou o impeça de ver além. Ficar preso a características que são generalizadas no espectro do autismo não permite apostar no aprendizado de cada indivíduo. Além de enxergar o sujeito no aluno, reconheça seu saber como pessoa e profissional e faça uso dele para acessar aquele estudante. Assim, você poderá ultrapassar tudo que a princípio seja colocado como obstáculo.

- Esforce-se em colocar esse aluno como um participante ativo de suas aulas. Alunos com diagnóstico não podem nem devem ficar à margem, mas pertencer integralmente do processo de aprendizado. Permita-se ouvir o que outros alunos têm a dizer sobre aquele colega, dando a eles também a chance de reconhecer seu potencial e de pertencer a um mesmo grupo.

Para saber mais, conheça nosso curso certificado “Como desenvolver atitudes inclusivas em sala de aula”.


Este menino expressava uma dificuldade comum entre os alunos com o diagnóstico de autismo, que é a de escrever – não é raro o professor de apoio tomar notas para alunos nestes casos. Então, de cara, ele ficou incomodado com a minha insistência em fazê-lo exercitar a escrita. Mas, aos poucos, foi se desenvolvendo e pegando gosto por desenhar. Sua coordenação motora fina não é tão bem desenvolvida como as das outras crianças, mas eu percebi o quanto ele começou a explorar, por exemplo, a perspectiva nos desenhos. Quando comecei a falar sobre os momentos na História da Arte em que a perspectiva se desenvolveu, vi que ele aparecia na próxima aula com uma pesquisa própria, algo comum em autistas.

Nessa tarefa, a professora de apoio foi fundamental. Maria Cecília é uma senhora na faixa dos 60 anos que tem uma pedagogia que amo, de muito afeto. Para qualquer criança em sala, ver que há alguém ali dedicado a elas faz muita diferença. E Maria Cecília tem uma dedicação imensa àquelas crianças. Com seu jeitinho de avó, consegue trazer todos e todas para ouvi-la - e quem não gosta de amor de vó?

O professor do Atendimento Educacional Especializado (AEE) é geralmente especializado em alguma deficiência ou em educação inclusiva. Em síntese, suas tarefas consistem em:

- auxiliar o corpo docente da sala regular a fazer o diagnóstico pedagógico;
- auxiliar a construir o planejamento de atividades a serem desenvolvidas;
- desenvolver, no contraturno, atividades mais focadas com os estudantes de inclusão

Cada município ou estado tem autonomia para desenhar a estrutura do AEE conforme as necessidades e possibilidades locais. Para saber mais sobre as dúvidas mais comuns sobre inclusão; o que fazer quando o professor descobre que a criança tem deficiência; dicas sobre planejamento, parcerias e registros para garantir a inclusão; o  laudo na Educação Infantil e uma atividade na perspectiva da Educação inclusiva de leitura e encenação de histórias, conheça a edição do NOVA ESCOLA BOX sobre “como trabalhar a inclusão na primeira infância”.

Assim o ano transcorreu até que, naquela terça-feira, chegou o dia em que este aluno deveria me mostrar o caderno com as atividades do trimestre. Logo de saída, pensei em que critérios adotar: se se tratasse de uma criança neurotípica, eles seriam outros? Diante do caderno, não tinha dúvidas de que ele merecia a nota integral. Eu normalmente presto atenção ao que pedi, anoto o que pode ser melhorado, peço que seja refeito, seja a criança neurotípica ou não. Vem daí a minha fama de ser exigente. E, sim, aquele caderno merecia a nota máxima: tudo estava dentro do que pedi e, não só isso, mas tudo feito com excelência. Eu podia notar a qualidade daquelas tarefas, o quanto ele havia se dedicado e dei a nota integral.

A conquista que me fez chorar

Ao receber a notícia, ele teve uma das reações mais lindas que já vi em um aluno. Colocou as duas mãos abertas perto da boca e ficou congelado olhando para mim. Sem saber muito como reagir, dei os parabéns, assim como os colegas que estavam próximos, felizes com aquela conquista. Rapidamente, ele voltou para o mundinho dele. Guardou o caderno, sentou-se em uma carteira e retornou ao livro que estava lendo anteriormente, absorto na leitura e alheio ao que estava acontecendo na sala.

Era a hora, então, de corrigir as provas – outra ótima surpresa. Revisando as questões, fui vendo como a letra dele havia melhorado, como havia desenvolvido a coordenação motora fina. Meses atrás ele mal tinha limites com a linha, por exemplo. ‘Esse garoto acertou tudo na prova, e ninguém mais acertou tudo’, pensei. Estava tudo correto, das questões objetivas às dissertativas. Fiquei muito bem impressionada, e o chamei para carimbar um “parabéns” em sua prova. Foi quando ele fez a soma.

- Mas, professora, se eu tirei 60 na prova e 40 no caderno, eu tirei 100? – A sala toda foi se aquietando para ver o que estava acontecendo.
- Eu tirei 100?
- Tirou.
- Mas a senhora é tão exigente!
- Sou e você tirou 100 – eu disse, sorrindo.

Ele repetiu aquela reação de alegria, com as mãozinhas próximas ao rosto. Os colegas, muito felizes, vieram dar os parabéns e queriam aplaudi-lo. Como entre as condições do espectro autista incluem respostas anormais às sensações, como a audição, eu então perguntei se doeria seus ouvidos se a sala batesse palmas. Ele respondeu que sim, mas que queria os aplausos da mesma forma.

Qual não foi a minha surpresa quando a turma – com uma sensibilidade extrema – bateu palmas bem baixinho, num som contido, para não incomodá-lo? Muita gente depois me sugeriu que ele tivesse sido aplaudido em libras, o que seria uma boa saída em muitos casos, mas acredito que ele realmente tenha curtido que fosse dessa forma. É incrível ver alunos dessa idade com esse grau de entendimento de que o barulho alto pode ferir um colega. É uma turma que me faz pensar no quanto é bonito que o destino tenha juntado ali aquelas crianças. Esse aluno foi muito abraçado pelos colegas e vejo o quanto isso o transformou.

Passados alguns minutos, ele agradeceu, mostrou as notas à professora de apoio e retornou ao livro. Enquanto isso, eu assistia àquela cena com os olhos cheios de lágrimas pensando: e se fosse meu filho? Como mãe, fico cheia de dúvidas, imaginando como será o desenvolvimento do Chico, que tem cinco anos. Então, tive que segurar as lágrimas e, ao chegar em casa, não aguentei. Foi a coisa mais fofa do mundo acompanhar o desenvolvimento dessa turma, tanto o desse estudante como o dos colegas, todos encantados com a sua conquista.

A descoberta de que meu filho era autista

Ser mãe de um garoto diagnosticado me transformou a ponto de refletir muito se, não fosse pelo Chico, eu teria a mesma visão das coisas. Eu me pergunto com frequência: e se fosse meu filho? Olho para todos os alunos e penso nisso. Há muitas crianças que estão passando por muitas coisas, com transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), outras síndromes ou mesmo vivendo em condições sociais complicadas. Independente das situações que enfrentem, eu, como mãe, gostaria que os filhos de todos tivessem alguém dentro da escola agindo corretamente, com acolhimento. É nesse sentido que tento nortear toda a minha prática.

No caso do autismo, mais ainda: o diagnóstico do Chico pareceu uma brincadeira do destino comigo. Tinha dois amigos de quem era muito próxima quando eu fazia faculdade de publicidade, que eu tranquei para me dedicar à Educação. Éramos como irmãos, mas a vida nos jogou para todos os lados até que nos reencontramos. Os três vivendo em Maringá, os três com filhos autistas. Logo que me mudei para cá, o Francisco tinha dois anos e eu via coisas em comum entre ele e essas crianças, um já diagnosticado, o outro ainda em processo. Muita coisa foi se acendendo na minha cabeça diante disso e do fato de pensar em familiares já adultos que eu achava serem autistas. Muita gente dizia que eu via pelo em ovo, que ele era sociável, coisa que nenhum autista é. Como as pessoas falam bobagem…

Um dia, uma professora comentou que ele poderia ser autista e fomos chamados, meu marido e eu, para uma conversa com a equipe pedagógica e uma avaliação com um neurologista. Ao olhar aquele relatório de como ele era em sala de aula, vi tudo que já sabia escrito no papel. É engraçado porque, mesmo já sabendo, mesmo já dando aula para crianças autistas, aquela confirmação me tirou o chão. Eu sabia que o autismo não era algo ruim, que ele poderia crescer e ter grandes oportunidades, mas precisaria de um apoio diferente. Hoje entendo o que senti. Fui fazer terapia, e isso me ajudou muito a compreender que toda mãe e todo pai passa pelo entendimento de que o filho não será a pessoa que eles idealizaram. A diferença é que eu percebi isso cedo.

É por isso que me emocionei tanto com aquele aluno: toda família espera que a criança tenha professores sensíveis. Participo de vários grupos de mães de autistas e vejo muitos questionamentos sobre como a inclusão é feita. Há medo de que o filho esteja em sala só por estar, sem aprender nada – o que vejo bastante nas escolas em que trabalho, ou casos de crianças cujos professores não sabem como agir e que são aprovadas sem aprender nada. Eu mesma quero que o Chico encontre professores que entendam suas limitações, sim, mas que principalmente o ajudem a desenvolver suas potencialidades. Eu sei que meu filho pode não conseguir tudo, mas sei que ele pode ir muito além naquilo que pode conseguir.

Diante disso, observo muito cada turma e tento descobrir, dentro da minha área, o potencial de cada aluno. Se eu tenho um aluno muito focado em Matemática, seja ele autista ou não, abordar História da Arte à força não vai adiantar de nada. O que vai adiantar é se eu me dispuser a entender sua individualidade e ajudá-lo a aprender. Eu me orgulho do que faço, e não quero ser um desperdício de dinheiro público ou ser babá das crianças. Meu trabalho tem uma função social importante, então eu me preocupo em fazê-lo da melhor forma possível.

No caso de uma turma com aluno de inclusão, a primeira coisa que faço é explicar para todos sobre as questões sensoriais em um momento em que ele não esteja em sala. Explico que cada um tem facilidades e dificuldades e é muito melhor quando todos respeitam seus processos e seus tempos. Esse é um aprendizado muito maior. Como o barulho costuma ser uma questão, fazemos um acordo de não arrastar as carteiras para não machucar o ouvido dele, ou de respeitar na hora de encostar no outro, porque muita gente não gosta de ser tocado. Explico que há, por exemplo, momentos em que eles terão movimentos repetitivos e que cada um tem a sua característica que o torna único. É muito bonito ver como eles entendem que aquela é uma pessoa que merece ser amada e que, se tiver oportunidade, pode virar um grande amigo. A única diferença é que é preciso respeitá-lo. A prova de que isso tem funcionado é a doçura como o aplaudiram na semana passada.

Para desenvolver atitudes inclusas coletivas

Confira as dicas de Fernanda Arantes, especialista do curso “Como desenvolver atitudes inclusivas em sala de aula”, assessora em Educação Inclusiva e professora do curso de Pedagogia do Instituto Singularidades:

- Converse com a comunidade de sua escola. A inclusão ainda acontece muito pontualmente e o professor não pode ou deve estar sozinho. O aluno é de toda a escola, circula por vários espaços e disciplinas, e cabe a esse coletivo que seja construído um saber sobre ele.

- Convide toda a turma a conhecer o aluno com deficiência e escute o que tem a dizer. São saberes importantes na construção de uma boa dinâmica de classe e que permitirão uma melhor integração em todos os espaços da escola. Além disso, permite o desenvolvimento de uma relação de cumplicidade.

- Envolva a turma. Dê espaço para ouvir e compreender as angústias e incômodos de todos a fim de permitir que sejam protagonistas nos espaços. Às vezes, uma criança ou adolescente tem necessidades mais corporais, de andar e circular. Outros, de batucar. Nada disso implica em eles não estarem prestando atenção, mas em jeitos de manter vias de acesso ao que está acontecendo em sala. Esteja aberto a entender esse tipo de manifestação, ao invés de simplesmente tentar controlá-las ou impedi-las.

Para saber mais, conheça nosso curso certificado “Como desenvolver atitudes inclusivas em sala de aula”.

Fazendo as pazes com a profissão

Essa experiência me fez lembrar que dar aula sempre foi uma escolha para mim. Já ouvi muitos casos em sala de professores sobre a docência ter sido algo que simplesmente aconteceu, mas não foi o meu caso. Tranquei um curso de publicidade porque queria outra coisa para a minha vida. Já estagiava na área e cheguei a trabalhar em cruzeiros, mas achava aquele mundo um pouco fútil e queria outra coisa para a minha vida. Eu sempre quis fazer a diferença, e a Educação se mostrou como o caminho certo para isso. Minha irmã é professora e me contava muitas histórias sobre o trabalho, histórias que fariam qualquer um desistir da carreira. O que acontece é que a docência é uma profissão em que há muitos elementos frustrantes, mas que é absolutamente gratificante. É gratificante fazer parte da trajetória de alguém, ser um pedacinho de um processo em que um ser humano alcançou alguma coisa. Cada aluno é uma vida, e ser uma boa professora é estar atenta a isso.

Em outra turma de 6º ano, recentemente, fiz uma atividade em que pedi para as crianças descreverem com o que sonhavam para si dentro de um ano, de cinco anos e de dez anos. Eu dou aulas em muitas escolas de periferia e noto que as crianças não têm sonhos, como se não se sentissem no direito de sonhar. Elas dizem que não têm o que escrever, e eu digo que têm sim, que podem, que não há problema algum em sonhar. Chorei de novo com um aluno autista que escreveu que em cinco anos queria estar namorando, como outros colegas também escreveram. Como mãe, penso muito se um dia o Chico irá se relacionar com esse amor romântico, ao mesmo tempo em que tenho familiares autistas que se casaram, trabalham e têm filhos. Aí, pedi que eles escrevessem o que teriam de fazer para realizar o desejo, e esse aluno completou dizendo que teria de ser um cara muito legal.

Foi muito especial testemunhar isso, e me fez pensar nos meus próprios sonhos, no que eu penso para mim a longo prazo. Meu sonho é chegar em casa ao final do dia e abraçar meu filho, é ajudar todos os meus alunos a se desenvolverem felizes. Percebi que meus sonhos não são só para mim, são para o meu filho e meus alunos também.

Há pouco tempo, participei de um processo seletivo em que me foi feita a clássica pergunta: Quem é Damaris? Eu respondi que sou essencialmente duas coisas: sou mãe e sou professora. Eu me realizei sendo mãe e me realizo todos os dias sendo professora. Eu amo a minha profissão, apesar de tudo. Eu não sei que brincadeira do destino colocou esse aluno, que me lembra tanto meu filho, em minha sala de aula em um ano tão difícil, mas sou grata a isso ter acontecido. Graças a ele, hoje estou muito realizada de novo por me lembrar os motivos que me fizeram escolher a educação. Eu não estou professora. Eu sou professora e amo o que faço!

Damaris Morgenstern Pacheco, 35 anos, é arte-educadora na rede pública no Paraná.

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