Trabalho com competências socioemocionais: o que considerar e o que evitar

Veja como se preparar para implementar essas habilidades na escola

POR:
Letícia Ferreira
Não basta falar em habilidades socioemocionais: os alunos precisam colocá-las em prática no dia a dia e na interação com os outros. Imagem: PeopleImages 

O prazo está acabando. Até o começo de 2020, as escolas de ensino básico de todo país deverão ter seus currículos alinhados à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que indica os conhecimentos essenciais que os alunos da Educação Infantil e dos Ensinos Fundamental e Médio no Brasil aprenderão nas salas de aula. 

O documento foi estruturado tendo como pilares 10 competências gerais, que irão nortear o trabalho das escolas em todos os anos e componentes curriculares. Elas apontam para a necessidade de desenvolver não apenas habilidades cognitivas, mas também socioemocionais. Temas como projeto de vida, autoconhecimento, empatia, cidadania, que já permeiam de maneira intencional ou indireta o trabalho de algumas escolas, a partir de 2020, serão exigências curriculares para todo ensino básico. 

“O século XXI demanda uma série de capacidades, para além das habilidades cognitivas, de modo que as pessoas possam aprender, se desenvolver e buscar conhecimento. A Base traz essa visão de uma forma muito clara”, diz Helton Souto, Gerente de Projetos do Instituto Ayrton Senna. Willmann Costa, ex-diretor do Colégio Chico Anysio, no Rio de Janeiro, que desenvolve atividades com habilidades socioemocionais desde 2012, completa: “Hoje, uma pessoa muito inteligente tecnicamente, mas que não saiba lidar com as  diferenças ou compartilhar as coisas, ficará excluída no mundo do trabalho”.  

A seguir, confira alguns pontos de atenção ao trabalhar habilidades socioemocionais na escola. 

Entender o papel da escola 

As habilidades socioemocionais sempre fizeram parte do ambiente escolar. “Não há como ter relações humanas sem o envolvimento de emoção, sem interação”, diz Anita Abed, psicopedagoga da Mind Lab. 

O que a BNCC propõe é colocar intencionalidade no desenvolvimento dessas habilidades. “A preocupação é de que a instituição de ensino não seja um lugar apenas comprometido com a apresentação do conhecimento, mas também com a construção das pessoas, o que nós chamamos de desenvolvimento integral, explica Anita. 

Zelar pelo processo de reconhecer esta nova visão de educação nas escolas é um papel dos gestores. “Se a gestão não considera que a escola é o lugar para este desenvolvimento, é muito difícil implementar as habilidades socioemocionais com sucesso”, argumenta Daniel Santos, pesquisador em economia da educação na Universidade de São Paulo (USP). 

Formar professores

Um desafio constante na educação, a formação dos docentes é questão central para que as habilidades socioemocionais sejam efetivadas no cotidiano do currículo escolar. “Não dá pra mudar esse paradigma e jogar na mão do professor a responsabilidade que até então ele não tinha. Você precisa formá-lo para que ele adquira recursos internos para lidar com essa nova exigência de olhar para o desenvolvimento dos alunos e para o processo sociais que ocorrem na aprendizagem”, diz Anita.

Estudar o desenvolvimento socioemocional em cada faixa etária 

O desenvolvimento dessas habilidades como um estímulo provocado pela escola exige “profundo conhecimento do que é o processo de desenvolvimento do indivíduo, do desenvolvimento socioemocional. O que é típico de cada faixa etária”, explica Daniel. Por isso, cabe a gestores e professores estudar o que é mais adequado e perceber como os componentes socioemocionais da BNCC conversam com o Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola. São informações importantes para fazer o planejamento correto para cada etapa. 

Proporcionar vivências e reflexões

Cartilhas ou qualquer roteiro para mapear sensações, com informações pré-estabelecidas de como agir não são instrumentos para apoiar o trabalho da escola, explica a psicopedagoga Anita. “Nós promovemos o desenvolvimento de habilidades socioemocionais por meio da vivência e da reflexão sobre o que você viveu”. Assim sendo, não basta falar sobre o tema. Os alunos necessitam colocar essas habilidades em prática em seu dia a dia e na interação com os outros. E, para isso, também é importante o exemplo de toda a equipe escolar. Gestores, professores e funcionários são modelos para os estudantes, que observam e, muitas vezes, copiam as atitudes dos adultos. 

Buscar um método de avaliação adequado 

É um desafio encontrar maneiras eficazes de acompanhar o desenvolvimento de habilidades socioemocionais. Uma simples prova não é capaz de medir a evolução dos alunos e outras opções devem ser debatidas entre gestores e professores. A observação atenta dos docentes é essencial. Sistemas de autoavaliação são uma alternativa comum. Mas é preciso ter cuidado com a análise dos resultados obtidos. O aluno identificar, por exemplo, uma emoção ruim, como sentir raiva ou medo, pode ser um resultado positivo. “Se antes ele não era capaz de reconhecer que vivenciava essas sensações e agora é, ter essa consciência é sinal de que ele andou para frente”, justifica Anita. 

O que evitar 

Os especialistas também descreveram situações comuns que podem atrapalhar o trabalho da escola com habilidades socioemocionais. 

Treinamentos comportamentais 

Entre ensinar e treinar existe uma linha tênue. A preocupação de Daniel é com projetos pedagógicos que apresentam propostas de treinamentos comportamentais e não de experiências de aprendizado para os estudantes. “A ideia não é simplesmente treinar os estudantes para se comportar direito na sala de aula”, diz o pesquisador. O objetivo é promover autoconhecimento e não estimular repetição automática de atitudes e posturas. 

Juízos de valor

Um aluno comunicativo não é melhor ou por pior que aquele introvertido. “O desenvolvimento socioemocional faz com que cada um se torne uma pessoa melhor para si mesma, descobrindo seus potenciais e desenvolvendo sua própria maneira de ser no mundo”, diz Anita. Por isso, para a psicopedagoga, estabelecer parâmetros do que é uma habilidade socioemocional bem ou mal desenvolvida não é um caminho que funciona em contextos tão individuais. 

Fazer terapia em sala 

Mesmo profissionais qualificados não devem transformar a escola em um espaço de cura ou de tratamento psicológico. “Os casos mais graves devem ser acompanhados pelas áreas de saúde responsáveis dos governos”, diz Anita. “Fazer isso, é estabelecer um limite e deixar claro qual é o papel da escola”.  

Criar expectativa irreal

É necessário ter cuidado com as expectativas que as abordagens socioemocionais trazem para a escola e para as pessoas. Crianças no início do ensino fundamental, por exemplo, provavelmente não vão ficar o tempo todo quietas sem qualquer variação emocional, explica Anita. A especialista esclarece que é esperado que a capacidade de entender as emoções seja menor neste período. Outros pontos devem ser observados nas demais faixas etárias, o que reforça, como dito acima, a necessidade de estudar a maneira como crianças e jovens se desenvolvem emocionalmente.