Do começo ao fim: análise da produção textual inicial e final dos alunos

Em áudio, a professora Dayane comenta uma fábula criada por estudante e explica o progresso observado pelo aluno entre a primeira e última versão

POR:
Paula Salas
Crédito: Andris Bovo

Nas turmas do 6º ano de Dayane Martins, não bastava escrever uma vez só. Durante o projeto desenvolvido pela educadora na EE Professora Judith Ferreira Piva, em Ribeirão Pires (SP), os alunos puderam experimentar a vida de quem trabalha com as letras e refinar a fábula escrita inicialmente. 

Esse exercício foi aplicado em três turmas de 6º ano, com um total de 91 alunos. Na produção inicial, apenas dez textos tinham uma moral coerente com a narrativa. Quase todos os alunos decidiram mudar totalmente a produção, pois perceberam que o primeiro texto não se encaixava no gênero fábula. 

Nem todos, porém, resolveram jogar tudo fora e começar de novo. Alguns alunos optaram por manter a história, mas fazer mudanças substanciais na produção, com o objetivo de adequá-la ao gênero textual proposto. 

Você verá, abaixo, a título de exemplo dois textos produzidos por um dos alunos de Dayane. O primeiro foi escrito na etapa inicial e o segundo na etapa final. Compare a versão inicial com a final e ouça o comentário da professora sobre cada um deles (ah, uma observação: os textos foram transcritos abaixo, exatamente como o aluno os produziu, sem nenhuma correção gramatical).

PRODUÇÃO INICIAL

O reino dos Cupins

Um dia na floresta num reino de cupins, uma rainha pedia todo dia para três servos cupins buscassem a madeira para quem não tinha condições de comprar. Até que um dia aconteceu um desmatamento, e, neste dia eles foram e não conseguiram madeira. Então um deles disse: 

- Vamos voltar e avisa-la!

- Oh!

- Vamos!

Então eles foram. 

Os três, para avisar a..

Prooaaccc.

Um malvado lenhador pisou neles

Moral: “Não desmate a floresta porque nela tem vida”

PRODUÇÃO FINAL

O reino dos cupins

Uma rainha cupim, pedia todo dia para três servos cupins trazer madeira para os pobres cupins. 

Certo dia houve um desmatamento na floresta. Quando voltaram para falar com a rainha. 

Encontraram um tamanduá e se esconderam atrás de uma árvore. 

Podem sair, não tenhão medo, sou cego e vegano! 

Então eles saíram: 

- Qual seu nome? 

- Maria Eduarda. E o de vocês? 

- Lincoln, Nicolas e Igor. 

- Bem chame seu reino e vamos!

- Vamos aonde?

- Para uma nova floresta ué! Aonde mais iriamos?

Moral: “Nossos inimigos podem ser melhores amigos, mas certifique-se disso. Não julgue um livro pela capa”. 

CONFIRA O COMENTÁRIO DA PROFESSORA

Se não conseguir ouvir, não tem problema! Leia a transcrição do comentário da professora: 

“O que a gente pode verificar é que na primeira produção o aluno não tem muita noção da estrutura do que realmente é uma fábula. Já na segunda, o ele opta por manter a base do enredo, a ideia de que as personagens são animais (no caso, o cupim e o tamanduá). Mas o que fica evidente é que o aluno apresenta, na segunda versão, um conflito mais estruturado, uma sequência de ações mais coerente.

Ele busca a ideia do valor moral, da amizade, de julgar o outro e as questões sociais. De acordo com essas características, o que a gente pode observar da fábula é que, na primeira produção, a ideia era só contar uma história, e não tinha um desfecho estruturado, a moral na produção inicial não tem nenhuma relação direta com o enredo. Já na produção final, ela reflete bem a temática do enredo, que essa ideia de amizade, de confiança, de julgamento. Além disso, o texto tem uma sequência de ações mais estruturada em relação à organização: tem uma apresentação; as personagens se encontram; há um conflito, um problema; esse conflito vai se resolvendo e, por fim, há um desfecho e a ideia da moralidade”