Afeto e indisciplina: como o bom relacionamento pode melhorar o clima na sala

Com ideias parecidas às do francês Henry Vallon, o americano Doug Lemov apresenta técnicas para desenvolver um bom relacionamento entre o professor e o aluno

POR:
Maria Lígia Pagenotto
Ilustração
Ilustração: Catarina Bessel/Nova Escola

O educador norte-americano Doug Lemov, de 52 anos, conta, em uma entrevista que deu ao jornal Folha de S.Paulo em 2010, que, quando começou a dar aulas, aos 21 anos, ouviu de um professor mais experiente que o contato olho a olho com os alunos era o mais importante dentro da sala de aula.

“Você escuta melhor alguém quando está olhando para a pessoa. Uma discussão deve ser tanto sobre ouvir quanto sobre falar. Esta é uma rotina tão importante quanto a que faço para escutar ou a que faço para falar”, afirma Lemov, diretor de uma rede privada de 16 escolas nos Estados Unidos, as

Uncommon Schools (Escolas Incomuns), que tem como uma das suas metas principais diminuir a distância na taxa de aprendizado entre ricos e pobres.

Com base em suas inquietações acerca do processo educacional e empenhado em compreender por que alguns professores conseguiam ensinar mais do que outros, ele se dedicou a acompanhar educadores de sucesso e, então, divulgar suas técnicas.

Lemov reuniu essas análises no livro Aula Nota 10 (Fundação Lemann e editora Da Boa Prosa), em que descreve, de forma bem prática, 49 técnicas de ensino adotadas por bons professores (em inglês Teach Like a Champion: 49 Techniques That Put Students on the Path to College). O livro foi lançado no Brasil em 2010.

“Se você vai ensinar Matemática, você tem de ter uma boa formação em Matemática. Mas meu ponto é que só isso não faz de alguém um bom professor”, afirma Lemov.

E ele dá um exemplo.

 “Imagine uma escola pública em área pobre que esteja precisando de um professor de Física. Hoje em dia, já é difícil achar alguém que conheça bem a disciplina e esteja disposto a dar aula. Mas se as pessoas com boa formação em Física souberem também técnicas para fazer boas perguntas, inspirar crianças e gerenciar uma sala de aula, triplicaríamos o número de pessoas capazes de dar boas aulas.”

Segundo ele, as técnicas adquiridas pelos professores de sucesso podem ser aprendidas. Ele insiste em um ponto: o importante é que os alunos com mais dificuldade, seja em qual área for, não desistam de aprender. Para Lemov, toda palavra utilizada em sala de aula pelo professor, assim como a entonação empregada no contato com o aluno, sua postura geral, enfim, fazem toda a diferença no relacionamento entre educando e educador, com significativos impactos positivos nos resultados pedagógicos.

Entre suas muitas ideias, ele trata do conceito de proximidade. “Chegar perto dos alunos para reforçar seu envolvimento na aula e também para eliminar problemas disciplinares. Lembre-se de que isso deve ser constante para que apresente resultados. Principalmente nas áreas ‘problemáticas’ da sala.”

De acordo com Lemov, os melhores professores realizam seu trabalho com doses generosas de energia, paixão, entusiasmo, diversão e bom humor. “Não necessariamente como antídoto para o trabalho pesado, mas porque essas são algumas das maneiras mais básicas de trabalhar bem. Embora não seja segredo, os profissionais mais competentes são os que gostam do que fazem!”

Lemov e Wallon

O educador francês Henry Wallon defendia ideias similares. Segundo Wallon, o processo de ensino e aprendizagem é movido por uma relação interpessoal entre professor e aluno. A afetividade é item que impacta diretamente na qualidade desse aprendizado.

Para Wallon, o professor precisa demonstrar que tem confiança na capacidade do aluno. No conceito de Educação Integral, o professor deve enxergar o aluno em sua totalidade.

Ao estudar a criança, Wallon não coloca a inteligência como o principal componente do desenvolvimento, mas defende que a vida psíquica é formada por três dimensões - motora, afetiva e cognitiva -, que coexistem e atuam de forma integrada. "O que é conquistado em um plano atinge o outro, mesmo que não se tenha consciência disso", explica Laurinda Ramalho de Almeida, vice-coordenadora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação, da PUC-SP. Um bebê,  por exemplo, desenvolve suas dimensões motora e cognitiva com base em um estímulo afetivo. Um olhar repressor da mãe poderia impedi-lo de aprender, segundo texto sobre o educador publicado em NOVA ESCOLA.

No caso do ambiente escolar, Wallon escreveu:

"O espaço não é primitivamente uma ordem entre as coisas, é antes uma qualidade das coisas em relação a nós próprios, e nessa relação é grande o papel da afetividade, da pertença, do aproximar ou do evitar, da proximidade ou do afastamento."

Aqui, segundo uma reportagem publicada por NOVA ESCOLA em 2011, Wallon mostra que a afetividade está sempre presente em todos os momentos, movimentos e circunstâncias de nossas ações, assim como o ato motor e a cognição. O espaço permite a aproximação ou o retraimento em relação a sensações de bem-estar ou mal-estar. É importante saber o que a escola, a sala de aula, a distribuição das carteiras e a organização do ambiente provocam nos alunos: abraço ou repulsa.



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