Consciência Negra: vamos refletir sobre racismo e saúde mental

Estrutural e epidêmico no Brasil, o preconceito racial tem consequências graves para a saúde mental da população negra

POR:
Ana Carolina C D'Agostini
O racismo cria um impacto adicional de stress diário na população negra, causando grande sofrimento. Foto: Getty Images

Você já parou para pensar o quanto o racismo afeta o dia a dia da escola e da sociedade? Em novembro, comemoramos o mês da Consciência Negra, com feriados oficiais em municípios de 16 estados brasileiros. Em muitos casos, a ocasião é aproveitada para promover palestras de conscientização sobre o racismo, criar espaços para discussão, organizar marchas e celebrar a ancestralidade, a cultura e a memória dessa parcela da população que representa 54% do país. 

Embora a data seja de extrema importância para sinalizar que precisamos falar seriamente sobre a Consciência Negra, o debate não deve estar circunscrito a esse momento nem na escola e nem na sociedade. Compreender os impactos do racismo existente no país é um tema antigo, e que continua urgente e atual em todos os setores da sociedade, inclusive na saúde mental. É preciso, ainda, entender a questão do racismo como um problema estrutural do nosso país. O termo racismo estrutural significa a formalização desse tipo de preconceito, presente na sociedade brasileira de maneira cristalizada.

Mas o que isso tem a ver com saúde mental? Uma das consequências, de acordo com uma pesquisa da Universidade de São Paulo, é que o racismo faz com que muitas pessoas negras se sintam insuficientes e culpadas devido a essa falta de integração plena em uma sociedade que as violenta e as segrega recorrentemente. 

Além disso, embora a condição crônica de estresse traga efeitos colaterais negativos a todas as pessoas, os fatores psicossociais e contextuais únicos aos quais os negros estão sujeitos - como o racismo e a discriminação - criam um fator adicional de estresse diário a eles. Corroborando com esse dado, um estudo

 divulgado pela Associação Americana de Psicologia, concluiu que o estresse relacionado à raça é um fator de risco significativamente mais importante do que outros eventos estressantes da vida para o sofrimento psíquico.

Em uma reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, dados indicam que a violência precoce a qual os jovens negros estão sujeitos afeta os aspectos psicológicos desse público, o que aumenta os riscos de doenças como depressão, a piores resultados acadêmicos e ao envolvimento com a violência no futuro. 

Somado a isso, pesquisadores como Danielle Valverde e Lauro Stocco pontuam que o Brasil possui uma cultura de negação da existência de práticas racistas no meio escolar, priorizando-se, assim, atrelar o fracasso escolar de jovens e crianças negras unicamente à desestruturação familiar, à condição socioeconômica ou à necessidade precoce de inserção no mercado de trabalho, desconsiderando o peso que o pertencimento racial tem sobre as trajetórias daquelas pessoas. 

Para Iray Carone o branqueamento é um outro fator importante a ser considerado. O termo designa uma forma de pressão direta ou indireta pela população branca para que o negro negue seus traços, para que, dessa forma, possa ser aceito na sociedade. Quando o branqueamento se torna um ideal, há uma interferência negativa na formação da autoestima, ocasionando uma supervalorização dos aspectos culturais e dos traços da população branca e uma consequente desvalorização da negra. Para Carone, isso traz consequências sérias, pois o negro se sente insatisfeito com seus traços físicos e consigo mesmo, pois é levado a pensar que apenas as características brancas são belas e importantes. 

A violência contra a população negra está presente não só de forma extrema, como na liderança de taxas de homicídio no país. Ela se revela no cotidiano na forma de preconceitos muitas vezes já banalizados, e, também, de forma sutil. Um exemplo é dizer que "não precisamos de um dia para consciência negra, mas de 365 dias de consciência humana" - jargão popularizado nas mídias sociais e comumente compartilhado por pessoas brancas. Essa frase nada mais é que uma forma de negar, negligenciar e calar as discussões sobre o racismo no Brasil, mantendo-o velado e causador de sofrimento. 

O Instituto Amma Psique e Negritude, fundado pela psicóloga e psicoterapeuta Maria Lucia da Silva, que é negra, é uma ONG focada no combate ao racismo pelas vias política e psíquica. Em uma entrevista , a psicóloga defende que o racismo é um grande causador de sofrimento mental e que tem atendido cada vez mais pacientes negros com questões relacionadas a aceitação da própria identidade, a autoestima, e com ansiedade, insegurança e angústias profundas. Para ela, a existência de um lugar como o Instituto Amma para acolher o sofrimento psíquico responde a uma demanda da população negra: receber apoio de profissionais que compreendam aquele lugar de fala, atrelando a análise das questões de saúde mental às raciais.

Referências
CARONE, Iray et. al. Psicologia Social do Racismo. 1ª ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2016.
VALVERDE, Danielle; STOCCO, Lauro. Notas para interpretação das desigualdades raciais na educação. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 17, n.3, p. 2009

Ana Carolina C D'Agostini é psicóloga e pedagoga com formação pela PUC-SP, especialização em psicologia pela Universidade Federal de São Paulo e mestre em Psicologia da Educação pela Columbia University. Trabalha com projetos em competências socioemocionais e é consultora do projeto de Saúde Emocional da Nova Escola.

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