Paredes derrubadas, aulas em pequenos grupos e muita autonomia: a fórmula da EMEF Amorim Lima

Com base nas ideias da Escola da Ponte, de Portugal, a escola municipal paulistana busca incentivar a autonomia dos alunos, a liberdade, a solidariedade e a participação das famílias dos estudantes

POR:
Maria Lígia Pagenotto
Alunos trabalham em grupo com a ajuda de uma professora tutora na escola Desembargador Amorim Lima, em São Paulo
Os alunos trabalham em grupos espalhados por um grande salão com a ajuda de professoras tutoras Foto: Roberto Setton/Nova Escola

Em 1996, assim que assumiu a direção da EMEF Desembargador Amorim Lima, na Vila Gomes, zona oeste da cidade de São Paulo, a educadora Ana Elisa Siqueira detectou alguns desafios: alto índice de evasão, indisciplina dos estudantes e baixo nível de aprendizagem.

Se havia evasão era, talvez, porque o aluno não se sentia pertencendo àquele lugar, pensava Ana Elisa. Então a diretora resolveu fazer, aos poucos, mudanças radicais na Amorim Lima.

Uma das primeiras medidas foi a de abrir a escola nos fins de semana, a princípio para os próprios alunos e depois para a comunidade. Para ampliar os espaços e torná-los mais agradáveis, derrubou alguns muros que circundavam o pátio.

Foi o início de uma grande mudança, que se consolidou mesmo a partir de 2002, quando o Conselho da Escola começou a se reunir para discutir como melhorar o nível de aprendizado e a convivência. Desse grupo, saiu uma comissão de pais e professores que coletaram e analisaram uma série de dados em relação aos alunos e suas relações com os docentes.

Em 2003, comissão e conselho perceberam que seria o momento de mudar o Projeto Político-Pedagógico (PPP) da Amorim Lima. A psicóloga Rosely Sayão, interlocutora da escola desde 2001, foi convidada a participar da discussão sobre as modificações no PPP.

Foi em um desses encontros com Rosely que Ana Elisa e o conselho assistiram a um vídeo sobre a Escola da Ponte, em Portugal.

Havia grande semelhança entre a escola portuguesa e o que se almejava para a Amorim Lima. A pedido do conselho, Rosely formulou e apresentou para a Secretaria Municipal de Educação uma proposta de assessoria para fazer um projeto inspirado na Escola da Ponte. Aprovada pela secretaria, a proposta foi implantada de janeiro de 2004 a maio de 2005.

Criada em 1976, a Escola da Ponte é uma instituição de ensino público de Portugal e sua marca, resumidamente, está no fato de estimular no aluno um conhecimento aprofundado de si próprio e de seu processo educativo, além de incentivar o relacionamento solidário entre os estudantes. Isso se dá de diversas maneiras – os alunos trabalham em grupos e se reúnem com colegas não só do seu ano, mas de outros também.

“Nos inspiramos na Escola da Ponte, mas temos nosso próprio projeto, adaptado à nossa realidade”, explica Ana Elisa.

Na Amorim Lima, os alunos, cujos perfis variam muito – segundo a diretora há crianças que vêm de famílias sem nenhuma escolaridade e há outras que são filhos de professores universitários, por exemplo –, seguem uma rotina pontuada por aulas em conjunto num salão (paredes foram derrubadas para criar esse espaço), elaboração de roteiros, participação em grupos, oficinas, projetos. Tudo acompanhado por um professor tutor.

A escola acolhe crianças próximas dos 6 anos até adolescentes de 15 anos – eles estão divididos em Ciclo 1 (do 1º ao 5º ano) e Ciclo 2 (do 6º ao 9º ano). Ao todo, são 860 alunos divididos em aulas nos períodos da manhã e tarde.

Os alunos do 1º e os do 2º ano ficam, cada grupo, em uma sala separada, pois é o ciclo de alfabetização. Já os alunos do 3º, 4º e 5º ano ficam em um mesmo espaço. Os que estão no 6º, 8º e 9º se agrupam em outra sala.

Em cada salão ficam mais ou menos cinco professores, fora os que dão as oficinas. Essas são de leitura e escrita, Matemática, Artes, Educação Física, Inglês, capoeira, grego e latim, maracatu, Ciências.

As aulas são pouco expositivas. Os alunos trabalham em roteiros temáticos. Ao longo do ano, debruçam-se sobre vários temas de pesquisa, que se interligam e são discutidos, dialogando com as várias áreas do conhecimento.

Os assuntos são muito discutidos. Os estudantes têm autonomia para escolher o tema e elaborar a forma com que vão trabalhar o assunto.

Não há provas. Os alunos fazem uma autoavaliação constante. “No plano de estudo eles escrevem quais as atividades precisam fazer, o que fizeram, o que não fizeram. No fim do bimestre, eles redigem um texto dizendo como foi o processo naquele período”, explica a educadora.

Quando os roteiros temáticos chegam ao fim, há uma ficha de finalização que deve ser feita por cada grupo. “É uma forma também de eles avaliarem o percurso daquele roteiro, o que foi aprendido ou não”, explica a diretora. 

O professor faz também uma avaliação de cada estudante, por meio de um texto narrativo semestral individual e outra, bimestral, mais focada no grupo que coordenam.

Em relação aos professores, existe a figura do professor tutor, que se responsabiliza por mais ou menos quatro ou cinco grupos de cinco alunos cada. Ele pode ser um professor de qualquer área e esse professor vai auxiliar os alunos a organizarem suas atividades e seus percursos de aprendizagem.

“O ideal é que esse tutor acompanhe os estudantes ao longo de suas trajetórias. Ele também deve dialogar com outros professores. Isso acaba fazendo com que cada docente, além da sua tutoria, seja um pouco professor de todos”, diz a diretora. O tutor também é uma referência forte para os pais, pois estão muito próximos dos alunos, e conhecem bem seus problemas e pontos positivos.

Sempre agrupados, debatendo ideias e dificuldades, os alunos criam vínculos fortes entre si e com os professores. Como têm liberdade, sentem-se pertencendo à escola, pois podem dar suas opiniões, sugerir. Isso diminui muito a falta de disciplina e tem impacto muito grande na redução da evasão.

Os pais estão sempre presentes, entram e saem quando querem e se encarregam de proporcionar oficinas e de organizar festas, trazendo pessoas de fora dos muros da escola para se integrar também a essas atividades.

Ana Elisa ressalta que a “receita” tem dado certo na Amorim Lima, mas que cada escola, caso esteja insatisfeita com os resultados dos seus alunos, tem de procurar sua própria saída para seus problemas.

“Não somos perfeitos, temos várias questões a serem resolvidas. Mas a forma como organizamos a escola nos permite lidar melhor com esses problemas”, acredita a diretora.

A gestão em que todos participam representou um ganho para as relações. Os alunos são ouvidos, podem opinar, isso melhora a autoestima. “Eles se sentem valorizados e assim são mais motivados a estudar. Quando sentam em grupo, um colabora com o outro, incentivamos essa troca respeitosa, que os aproxima também afetivamente”, explica Ana Elisa.

Ela reconhece que os estudantes da Amorim Lima não apresentam resultados excelentes nas avaliações oficiais, mas acredita que isso não é fundamental. “Temos cada vez mais estudantes nossos participando de olimpíadas de Matemática, por exemplo, e muitos que ingressam em ETECs”, afirma. “Talvez eles não estejam entre os primeiros, mas eu posso dizer com certeza é que os alunos daqui se apropriam totalmente de seus processos de aprendizagem e têm muita consciência de suas responsabilidades. Isso é muito importante. Eles têm sua cidadania ativa, são autônomos e muito interessados nas coisas da vida deles, opinam, estão integrados”, comenta.

Sobre o custo para manter uma escola desse tipo, Ana Elisa afirma que recebe o mesmo que toda escola municipal. Para implantar algumas oficinas, recorre a parcerias, participa de editais de fomento e apresenta projetos para angariar recursos. Também mobiliza pais e a comunidade nesse sentido.

Como a Amorim Lima mudou:

1. A diretora Ana Elisa Siqueira detecta os problemas e repensa o modelo de escola. Com ajuda de pais e outros educadores, formula um novo PPP, inspirado nos princípios da Escola da Ponte e o apresenta à Secretaria Municipal de Educação.

2. Com o projeto acatado, a escola passa por reforma: derrubada de paredes para a criação de um salão de atividades, pintura dos muros, criação de horta e jardim, mudança no mobiliário.

3. Mudanças na aula: cada grupo de cerca de cinco estudantes conta com um professor tutor para discutir conteúdo, metodologias de pesquisa e também questões de relacionamento com outros estudantes e docentes.

4. Alunos assumem responsabilidades além dos estudos: escolhem os espaços que querem gerir. Um grupo se responsabiliza pela biblioteca, outro pela horta e assim por diante. Aumenta o comprometimento com o ambiente escolar.

5. A avaliação passa a ser um processo de cada aluno, o que estimula a autonomia. Cada estudante perceberá, com orientação do tutor, as dificuldades, conquistas e desafios.

6. Além dos pais, é preciso comprometer a comunidade escolar para consolidar a mudança, incentivando a participação de todos em oficinas, festas e eventos.

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