"Antes da mudança, os alunos não podiam contestar nada", diz diretora da EM Waldir Garcia

Lúcia Cristina Cortez percebeu que estava errada e, a exemplo do que aconteceu na EMEF Amorim Lima, conduziu uma transformaçõ radical na escola de Manaus (AM)

POR:
Maria Lígia Pagenotto
Os alunos da escola Waldir Garcia, de Manaus, trabalham em grupos
Os alunos trabalham em gruipos na EM Waldir Garcia, em Manaus  Foto: Karla Vieira/Secom

Certa de que uma Educação rígida e disciplinadora era a mais eficiente, em todos os sentidos, a educadora Lúcia Cristina Cortez, formada em Letras pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), precisou rever seus conceitos quando percebeu que a escola que dirige, a EM Waldir Garcia (com aulas do 1º ao 5º ano), estava perdendo alunos de forma assustadora.

Como reverter esse quadro? A escola estava correndo o risco de fechar, por conta da evasão.

Localizada às margens de um igarapé em Manaus (AM), no bairro de São Geraldo, os estudantes que frequentam a instituição estão inseridos em uma comunidade com alto índice de violência e muitos problemas socioeconômicos.

Após ver, impotente, a perda de muitos alunos para o tráfico de drogas, decidiu que a escola, hoje com 33 anos na ativa, precisava se reinventar com urgência.

À frente da Waldir Garcia há 14 anos, Lúcia conta que a mudança radical ocorreu em 2016. Nessa entrevista, ela fala um pouco como foi esse processo de transformação, também inspirado na Escola da Ponte, de Portugal, e os ganhos que a escola obteve a partir dele.

NOVA ESCOLA BOX: Quais os indicativos de evasão que levaram a Waldir Garcia a mudar de metodologia?

LÚCIA CRISTINA CORTEZ: Em 2015, a escola apresentava um índice muito alto de reprovação – tivemos mais de cem em um ano – e de abandono por parte dos alunos. Perdemos muitos estudantes. De 618, a gente passou a ter menos de 200. Recebemos um aviso da Secretaria Municipal de Educação nos alertando: se continuasse assim, a escola fecharia.

Que medidas você tomou então para evitar o pior?

Vi que precisava mudar radicalmente a conduta da escola. Eu acreditava em algo que não estava dando certo, pois os alunos estavam abandonando a instituição. Por coincidência, nessa ocasião, enquanto eu me articulava para tomar alguma medida, recebemos um convite da Secretaria de Educação para oferecer educação integral. Seria a primeira escola da rede pública de Manaus com esse modelo. E a Waldir Garcia foi sondada justamente porque tinha poucos alunos (nessa ocasião, estávamos com cerca de cem alunos apenas), o que favorecia essa experimentação.

Em que ano foi e como aconteceu?

Estávamos no início de 2016. Decidi encarar a proposta, mas achava que educação integral era o mesmo que tempo integral. A secretaria queria testar a novidade porque havia recebido a demanda de um grupo de pais comprometidos com a qualidade da escola pública no estado (o Cefa – Coletivo Escola Família Amazonas). Eles tiveram contato com a Escola da Ponte e buscavam algo parecido para seus filhos. A secretaria acatou a ideia.

Em especial, o que chamou sua atenção no projeto?

Gostei da ideia da educação integral a partir do momento em que entendi do que se trata. O aluno é avaliado em todas as suas potencialidades, não de forma isolada. São valorizadas todas as suas dimensões sociais, emocionais, físicas e culturais. Também demos início ao projeto de tempo integral aqui. Outro ponto importante: no projeto da Escola da Ponte, toda a comunidade se envolve na Educação e assume responsabilidades na construção do modelo.

Você teve de fazer mudanças radicais para adaptar a escola às novidades?

A principal mudança foi na minha visão de mundo: recebi uma Educação muito tradicional, rígida. Sou casada com militar e sempre acreditei que a disciplina excessiva, ditatorial, era o melhor caminho para educar crianças e jovens. Antes da mudança, eu exigia silêncio em todas as atividades, os alunos tinham de andar em fila e não podiam contestar nada. Todos me obedeciam, mas por medo, não por respeito.

Você acha que a evasão dos alunos e a reprovação tinha a ver com esse modelo?

Com certeza. Tive de mudar minha visão. Aprendi a ver que o relacionamento melhor, mais aberto e democrático com os alunos influencia muito na aprendizagem e no sentimento de pertencimento.

Como ficou o ambiente escolar com essas inovações?

Na hora da entrada, antes, tocava o sinal, assim como na saída. Eles tinham obrigação de cantar o Hino Nacional, hastear a bandeira, entrar em fila. Hoje a escola fica aberta, os pais entram e saem quando querem. Eu recebo os alunos na porta da escola toda manhã. No lugar do sinal, eles ouvem música, escolhida pela rádio comunitária da escola. Sinto que o ambiente está mais leve, alegre, mais colorido, isso impacta no ânimo dos funcionários, professores, de todos.

Em relação aos alunos, quantos vocês têm hoje e com qual perfil? O aproveitamento escolar apresentou melhora?

Atualmente, estamos com 206 estudantes. Investimos muito na diversidade, porque acreditamos que esse é um caminho importante para o exercício da cidadania. Recebemos alunos do Haiti, Venezuela, temos muitos com deficiências também. Essa mistura enriquece o ambiente escolar e nos coloca muitos desafios, nosso aprendizado é constante. As famílias estão muito mais presentes, participando da rotina escolar. Temos uma gestão compartilhada, não estou sozinha nas decisões. Também mantemos uma relação horizontal com os pais, com funcionários, com crianças. Assim vamos construindo a Educação com respeito, amor, criando laços. A relação afetiva, que havia se perdido em meio à Educação militarizada, foi resgatada. Isso nos aproximou mais dos alunos, das famílias e da comunidade, com impacto positivo na aprendizagem.

Como é o horário dos alunos e a rotina das aulas?

Eles entram às 7h10 e saem às 16h10. Mas se chegam atrasados podem entrar. Recebem café da manhã, almoço e dois lanches. Não temos mais carteiras, só mesas. São 20 alunos do 1º ao 3º ano e 25 do 4º e 5º. Estamos com a capacidade máxima de alunos por sala. Eles têm 20 horas-aula semanais do currículo comum e 15 horas diversificadas, que são as oficinas. O professor deixa de ser detentor do conhecimento, mas mediador, incentivando a troca de saberes. Investimos muito em alguns pilares, por isso acreditamos que o estudo em grupo é o mais adequado: trabalho em equipe, autonomia e protagonismo, criatividade e empatia. Eu também sinto que não estou sozinha na direção, tem um grupo me apoiando, as famílias estão dentro da escola, ajudando nos pequenos e grandes problemas, dividindo desafios, aprendi que isso é muito mais prazeroso.

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