O quebra-cabeça da escola inclusiva

Os docentes apoiam a presença de alunos com deficiência nas turmas regulares, mas faltam várias peças para que esse cenário se organize

POR:
Noêmia Lopes
O quebra-cabeça da escola inclusiva. Ilustração: Bruno Algarve

A presença de alunos com necessidades educacionais especiais (NEE) é cada vez maior nas salas de aula brasileiras, e vários pesquisadores têm analisado como os professores estão lidando com esse desafio. Estudos feitos em diferentes regiões do país, com metodologias e enfoques diversos, concluíram que a inclusão é aceita, propagada e desejada pelos docentes, mas no dia a dia o discurso favorável encontra barreiras significativas.

Uma das pesquisas é relatada no artigo Atitudes de Professores em Relação à Educação Inclusiva, escrito por integrantes do Laboratório de Estudos sobre o Preconceito do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Eles entrevistaram 14 professores de Ensino Fundamental com e sem experiência em lecionar para alunos com NEE. Segundo José Leon Crochík, um dos autores, entre os obstáculos citados estão a ausência de formação e de tempo para dar aulas a turmas numerosas e ainda dedicar a atenção necessária aos alunos com deficiência.

Sob a orientação de Crochík, a psicóloga e professora Dulce Regina Pedrossian, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), realizou entrevistas com 12 professoras de Campo Grande. "A maioria aposta na inclusão e critica o ensino em escolas especiais. Contudo, ficou evidente a existência de atitudes preconceituosas, veladas ou explícitas, no âmbito escolar", diz Dulce. De acordo com ela, para se tornar inclusiva, a escola precisa passar por modificações que envolvem as metodologias de ensino, o projeto político-pedagógico (PPP), as avaliações e a acessibilidade, entre outros fatores. "A inclusão deveria ser um projeto coletivo, mas tem assumido um caráter individual", completa. Por isso, o professor se sente impotente e solitário no desenvolvimento de suas tarefas.

Um olhar para a heterogeneidade

As pesquisas também indicam que se deve rever as concepções de ensino não apenas em relação às crianças e aos adolescentes com deficiência mas também a todos os alunos, oferecendo condições para que as particularidades de cada um sejam respeitadas. Sob essa perspectiva, o psicólogo Ramon Luis de Santana Alcântara, docente da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), desenvolveu a dissertação A Ordem do Discurso na Educação Especial.

Alcântara realizou entrevistas com pelo menos dois professores de cada uma das sete regiões da cidade de São Luís e identificou que eles enxergam dois grupos de alunos distintos em suas classes, um deles formado pelos que têm NEE. "Trata- se de inclusão? Sim se olharmos os números de matrículas nas escolas regulares e a permanência dos estudantes. Mas não se levarmos a sério o fundamento da Educação inclusiva, que remete a novas formas de convivência entre os indivíduos", afirma.

Em sua pesquisa, Vivian Caroline de Lima Juarez, mestre em Educação Especial pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), comprovou que é possível superar os obstáculos que Alcântara identificou e inserir de fato os alunos nas atividades promovidas em classe. Para a dissertação Análise das Interações Professor-Aluno com Paralisia Cerebral no Contexto da Sala de Aula Regular, ela acompanhou semanalmente, por quatro meses, duas professoras do interior de São Paulo, cada qual com uma aluna com paralisia cerebral em sua turma. As docentes assimilaram em sua prática pedagógica a diversidade entre todos os estusantes e conseguiram envolver as meninas na elaboração de atividades e na resolução de tarefas.

O artigo Qual É o Lugar do Aluno com Deficiência? O Imaginário Coletivo de Professores sobre a Inclusão Escolar, redigido por pesquisadoras da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), também aponta algumas saídas para que o professor tenha condições de transpor o discurso favorável para a prática. Uma delas é implantar nas escolas momentos em que os docentes possam trabalhar coletivamente angústias e possibilidades de ação. Além disso, o estudo indica a inserção, nos cursos de licenciatura, de conteúdos que abordem a relação entre o professor e o aluno com NEE. "Isso não precisa ocorrer do ponto de vista teórico, pois o professor já sabe o que é inclusão escolar, mas deve ter uma perspectiva emocional, que envolva preconceitos e percepções", afirma uma das autoras, Miriam Tachibana, doutora em Psicologia pela PUC-Campinas.

Para chegar a tais conclusões, Miriam e as demais pesquisadoras analisaram uma entrevista grupal com 12 docentes de cursos de Letras e Pedagogia, que produziram histórias com o tema "aluno de inclusão". "Enxergamos aspectos mais profundos, como a relação com as famílias, e notamos que na figura do estudante com deficiência o professor vê espelhadas as suas próprias limitações", afirma. O que não falta são bons motivos para montar esse quebra-cabeça até o ponto em que não faça mais sentido falar em inclusão - uma vez que todos estarão incluídos.

Formação Faltam conhecimentos sobre a Educação inclusiva tanto na graduação como em especializações e cursos em serviço.

Comportamento Alguns docentes acham que os alunos com NEE atrapalham a aula e há os que se sentem impotentes diante deles.

Infraestrutura A presença de um auxiliar em classe e o apoio de especialistas são algumas das soluções apontadas pelos professores.

Metodologia A adaptação dos conteúdos de acordo com as necessidades de cada estudante ainda não é uma prática comum nas escolas.

Compartilhe este conteúdo:

Tags

Guias

Tags

Guias