Priscila Monteiro: “Matemática é sempre abstrata”

Para a mestra em Educação Matemática, é possível começar a propor exercícios mais distantes do cotidiano da criança desde os primeiros anos do Ensino Fundamental

POR:
Flavia Nogueira
Ilustração para o projeto Costurando a Matemática
Ilustração: Arquivo/Nova Escola

O ensino da Matemática com o uso de informações do contexto social dos alunos tem vantagens, mas também riscos. Esta é a opinião de Priscila Monteiro, mestra em Educação Matemática e coordenadora de pós-graduação em Didática Matemática no Instituto Vera Cruz, em São Paulo. “O risco é se ficarmos muito presos ao contexto. Ou ainda: os problemas (matemáticos que são criados a partir do contexto encontrado) podem ser muito complexos para abordarmos, de um ponto de vista matemático. Ou, às vezes, muito simples. Precisa ter um casamento entre o que o professor quer ensinar e o que o contexto oferece para potencializar essas aprendizagens”, explica.

Para Priscila, o risco é se o conteúdo abordado, que aparece em ligação ao contexto em que os alunos estão inseridos, realmente se relaciona com as questões que a criança precisa aprender.

A especialista conversou com NOVA ESCOLA sobre essas e outras questões ligadas ao ensino da Matemática. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

NOVA ESCOLA – Existe a questão de trazer o ensino da Matemática para o dia a dia dos alunos, mas, por outro lado, também é preciso desenvolver o raciocínio abstrato. Como equilibrar estes dois aspectos?

Priscila Monteiro – O problema é uma ilusão. Atribuir sentido aos conhecimentos matemáticos não é conectar com o contexto social, mas  com algo que você sabe, com um conhecimento que você tenha disponível para poder se relacionar com o que o professor está querendo ensinar. É essa conexão que é importante. Quando o professor conhece bem os alunos e o que eles sabem, consegue fazer essas conexões. E aí o assunto pode, sim, ser algo que tenha a ver com o contexto social. Se a aula for desafiadora para as crianças - isto é, se instiga os alunos a colocar o que sabem em jogo, para construir novos saberes -, elas se engajam no projeto, mesmo que seja uma coisa puramente matemática.

É possível começar a propor algo tão fora do cotidiano, tão abstrato, desde os primeiros anos do Ensino Fundamental?

Sim, porque Matemática é sempre abstrata. O que acontece: quando eu penso, por exemplo, nos números, noto que eles não estão no meio físico. Eles são uma abstração. Posso usar objetos do meio físico que vão me ajudar nesse pensamento, mas os números não estão neles. Por exemplo: eu conto cinco objetos, porém o número cinco não está no objeto, está na relação que o ser humano cria ao contar aqueles itens.

Ou seja, os números só existem na abstração criada pelo ser humano...

Pois é. E as crianças podem pensar sobre isso desde pequenas. Só que elas vão ter aproximações parciais e, aos poucos, quanto mais souberem, vão construindo conhecimentos mais aprofundados sobre determinado assunto.

A desmitificação da Matemática, a aproximação da disciplina com os alunos para que eles percam o medo, isso passa pela formação dos professores?

Passa pela formação. Muitas vezes o professor polivalente também vê a Matemática como uma disciplina temerosa. Eles não se sentem seguros no trabalho com a Matemática porque, muitas vezes, enfrentam o próprio desconhecimento. Precisamos investir é nesse estudar da Matemática. E estudar não a Matemática separada do que se realiza em sala, mas estudar a didática da Matemática, que tem a ver com o que a professora [Jussara Schmitz, do projeto Costurando a Matemática] faz. Ela pega uma situação que tem a ver com a realidade local e estabelece sentido. No momento em que as crianças começam a fazer isso, constroem outra relação com a Matemática, que não é temerosa.

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