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Como usar o filme Pantera Negra para pensar produção e consumo de mídia

Ao discutir a ideia de que mídia e arte trabalham com representação, professora abordou a leitura crítica feita por alunos de Ensino Médio

POR:
Camila Cecílio
Debates e rodas de conversas são algumas estratégias usadas pela professora Dominique Gogolevsky para levar seus alunos da Fundação Antônio Antonieta Cintra Gordinho, em Jundiaí, a refletir sobre a produção midiática      Foto: Vitor Manon/Noyze

Para a professora Dominique Nogueira Gogolevsky, a famosa pintura A Traição das Imagens (veja foto abaixo), do francês René Magritte (1898-1967), traz uma provocação fundamental para despertar a leitura crítica dos estudantes. Nela, há a imagem de um cachimbo com a frase Ceci n'est pas une pipe (do francês: Isto não é um cachimbo). Dominique apresentou a imagem aos estudantes de 2º e 3º anos do Ensino Médio da Fundação Antônio Antonieta Cintra Gordinho, em Jundiaí, no interior de São Paulo, e questionou: o que é possível entender com base nessa pintura?

A ideia da professora era fomentar um debate sobre o conceito de representação, um dos primeiros abordados por ela na disciplina extracurricular de Mídias, que ela oferece na escola. Os encontros ocorrem duas vezes por semana, com três aulas seguidas de 50 minutos cada. Nesses encontros, Dominique se dedica a trabalhar com seus alunos teoria e prática ligadas à produção e ao consumo de mídia.

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A professora Dominique Gogolevsky usa obra de René Magritte para que sua turma daFundação Antônio Antonieta Cintra Gordinho possa refletir sobre como objetos e suas representações não são a mesma coisa.    Foto: Vitor Manon/Noyze

Durante a discussão, uma resposta foi fundamental para que o debate chegasse ao ponto que a professora buscava: alguns alunos enfatizaram que o que ela havia apresentado era a pintura de um cachimbo. Pode parecer óbvio, mas é importante destacar que a representação de um objeto e o objeto em si não são a mesma coisa. O desenho de um item, assim como uma foto ou um texto sobre ele, apresentam a visão do criador da obra sobre ele. “As representações que fazemos das coisas e do mundo, mesmo que sejam apenas na nossa cabeça, se constroem a partir das nossas referências”, explica a professora.

Para entender como isso se dá na prática, a educadora dá o seguinte exemplo: “Se eu pedir aos estudantes para desenhar um extraterrestre, com certeza teremos ETs diferentes dentro da mesma sala, pois cada um construiu uma referência para ET a partir dos filmes, séries e desenhos animados que já assistiu”. Dominique reforça que aprender sobre isso é importante para que os adolescentes compreendam a existência de vários pontos de vista sobre um mesmo assunto e, também, “a importância do nosso repertório e como ele influencia nossa forma de ver o mundo sem que a gente, muitas vezes, se dê conta disso”. 

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Nos debates, estudantes da Fundação Antônio Antonieta Cintra Gordinho são convidados a discutir sobre como as intenções dos autores impactam na produção de mídia      Foto: Vitor Manon/Noyze/Nova Escola

 

Da arte à mídia

A ideia de representação é importante para compreender como o imaginário que construímos sobre situações, lugares e pessoas está relacionado com os conteúdos aos quais temos acesso. Isso se tornou mais claro quando Dominique apresentou dois conteúdos que discutiam a imagem que se tem sobre o continente africano: o TED Talk Os perigos de uma história única, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, e um trecho do filme Pantera Negra.

No primeiro vídeo, a escritora explica como ela foi afetada pelo fato de colegas dos Estados Unidos conhecerem apenas a visão do continente africano como um lugar de pobreza e sem acesso à informação. “Essa concepção sobre a África construída pela mídia é apenas uma das representações possíveis. No filme Pantera Negra, vemos a África como continente rico e desenvolvido, ou seja, uma outra representação”, diz a professora. 

No final da atividade, Dominique perguntou aos alunos o que eles acharam e o que tinham entendido. “Eles relacionaram os dois conteúdos e apresentaram as relações retomando a ideia de representação como uma construção da realidade. Eles precisaram de um empurrãozinho para lembrar, mas quando lembraram, deu quase para ver as luzes de eureca se acendendo sobre as cabeças”, brinca. 

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Estudantes da Fundação Antônio Antonieta Cintra Gordinho debatem sua visão sobre representação e refletem sobre os diferentes tipos de mídia    Foto: Vitor Manon/Noyze/Nova Escola

Leitura reflexiva: o caminho para ser leitor e autor 

As práticas adotadas pela professora Dominique Gogolevsky dialogam diretamente com o cotidiano dos jovens que, uma vez conectados, são bombardeados por novas informações. Por isso, a importância de ensinar os alunos a ler e a analisar os diferentes tipos de mídia de maneira reflexiva. É o que ressalta Mariana Ochs, coordenadora do EducaMídia, programa do Instituto Palavra Aberta criado para capacitar professores e organizações de ensino. “Quando a professora fala da representação, ela quer dizer que, ao lermos uma mensagem, seja em documentário, jornal, meme, etc. precisamos lembrar que existe um autor. Trata-se portanto de um recorte feito por alguém que tinha uma intenção ou propósito e que escolheu uma técnica textual ou visual para atingi-lo”, reforça Mariana.

A discussão proposta por Dominique pode entrar no contexto das aulas de Língua Portuguesa, Arte, Ciências e também em outros contextos, sempre que os alunos forem confrontados com alguma produção midiática. É possível ampliar a discussão destacando como os aspectos técnicos influenciam na construção da mensagem e revelam a intenção do autor. Em uma fotografia, por exemplo, o ângulo escolhido pelo fotógrafo pode fazer toda a diferença: uma foto de baixo para cima pode fazer alguém parecer grande e poderoso, enquanto um retrato feito de cima para baixo pode dar a impressão de que o retratado é menor do que na vida real. 

Especialista em Educação Midiática, Flávia Aidar afirma que a escola não pode deixar de considerar que a realidade digital mudou o comportamento da sociedade. Para a educadora, assim como a escola é competente para orientar seus alunos na leitura de livros, orientando-os a fazer as perguntas básicas (quem é o autor, qual sua biografia, qual a editora do livro, quando foi escrito e editado, por exemplo), “é necessário fazer o mesmo com as outras mídias, particularmente com as mídias digitais que não trazem essas informações tão claras em suas ‘capas’ ou expedientes”. 

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A discussão proposta por Dominique pode entrar no contexto das aulas de Língua Portuguesa, Arte, Ciências e também em outros contextos, sempre que os alunos forem confrontados com alguma produção midiática    Foto: Vitor Manon/Noyze/Nova Escola

EM BUSCA DA INTENÇÃO DO AUTOR
3 pontos para refletir sobre os propósito por trás de um texto

1. Procure pistas sobre o autor
Estimule a turma a refletir sobre a pessoa – ou o conjunto de pessoas – que produziram e veicularam o conteúdo analisado. Quem criou a mensagem? Qual o interesse dele? Em que contexto ele está sendo veiculado? Vale procurar também pistas sobre o suporte onde ele foi publicado, como o público a quem ele se interessa e outros textos publicados no mesmo local.

2. Observe atentamente o conteúdo
Procure, na obra, pistas de como as técnicas foram utilizadas para atingir o propósito do autor. Em textos escritos: procure o título ou reflita sobre a escolha de palavras e de certos recursos gramaticais – o uso do imperativo, por exemplo, é um indicador de que o autor espera uma ação específica do leitor. Em imagens, o ângulo utilizado, a escolha feita entra o que deve aparecer e o que deve ficar de fora do quadro, assim como a posição dos fotografados também dão pistas do sentido que o autor buscou construir. Em obras audiovisuais, as sensações causadas por música de fundo, o tom de voz utilizado e as composição das imagens também podem ser observadas.

3. Tente buscar outros pontos de vista
Toda produção de conteúdo passa, necessariamente, por uma edição: o processo em que o autor decide quais conteúdos entram e quais devem ser deixados de lado. Provoque os estudantes a pensar quais aspectos e pontos de vista foram excluídos e a buscar mais informações sobre eles.

4. Garanta uma riqueza de formatos
Recorra a conteúdos em vídeo, imagens, memes e outros gêneros textuais. Destaque, na leitura, como a escolha dos gêneros também impacta na mensagem, e como a escolha de cores, sons, tons de voz e outros elementos também influencia na mensagem final apresentada.

O questionamento de fontes e da autoria dos conteúdos são temas constantes nas aulas de Dominique. A professora reforça com os alunos a necessidade de entender pontos cruciais, como: de onde veio aquele conteúdo, quem o produziu, qual a motivação, quais os possíveis interesses por trás dele. 

Para Flávia Aidar, ler as mídias criticamente para poder se expressar de modo responsável passa por conhecer a natureza dos meios de comunicação, as técnicas que utilizam e os efeitos que produzem e, por fim, dominar os elementos que compõem suas linguagens. “Independentemente de preverem uma disciplina intitulada ‘Educação Midiática’, ou mesmo ter pessoas com formação específica na área, os professores podem e devem trabalhar com conteúdos midiáticos. É impossível conceber qualquer trabalho escolar sem considerar as fontes disponíveis na internet, portanto, o desafio é ainda o mesmo de toda escola que se quer boa e competente: leitura crítica e expressão qualificada e ética, de todo tipo de texto, de todo tipo de mídia”, pontua.

 

REPRESENTAÇÃO NA MÍDIA - Dominique Gogolevsky 

Área: Linguagens

Anos: Ensino Médio

Duração: Um semestre

Objetivos de Aprendizagem

- Compreender a diferença entre representação e realidade;

- Despertar e exercitar um olhar anali?tico em relac?a?o a?s imagens, seus significados e mensagens;

- Exercitar a leitura cri?tica de conteu?dos diversos.

 

Relação com a BNCC

Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e escrita), corporal, visual, sonora e digital –, bem como conhecimentos das linguagens artística, matemática e científica, para se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos em diferentes contextos e produzir sentidos que levem ao entendimento mútuo.


Competência Geral 4  

Compreender o funcionamento das diferentes linguagens e práticas culturais (artísticas, corporais e verbais) e mobilizar esses conhecimentos na recepção e produção de discursos nos diferentes campos de atuação social e nas diversas mídias, para ampliar as formas de participação social, o entendimento e as possibilidades de explicação e interpretação crítica da realidade e para continuar aprendendo.

Competência da área de Linguagens 1 

Analisar, a partir de referências contextuais, estéticas e culturais, efeitos de sentido decorrentes de escolhas e composição das imagens (enquadramento, ângulo/vetor, foco/profundidade de campo, iluminação, cor, linhas, formas etc.) e de sua sequenciação (disposição e transição, movimentos de câmera, remix, entre outros), das performances (movimentos do corpo, gestos, ocupação do espaço cênico), dos elementos sonoros (entonação, trilha sonora, sampleamento etc.) e das relações desses elementos com o verbal, levando em conta esses efeitos nas produções de imagens e vídeos, para ampliar as possibilidades de construção de sentidos e de apreciação.

Habilidade: EM13LP14


Passo a passo do projeto

1. Apresente diferentes representações de um mesmo objeto – fotos, desenhos, pinturas, vídeos, descrições em áudio e em texto etc. Uma alternativa é apresentar a obra A Traição das Imagens, do pintor francês René Magritte. Questione: o que diferencia essas imagens? O que significa a frase "Isto não é um cachimbo" escrita no quadro de Magritte? Conduza a discussão de modo que os alunos percebam que, entre o objeto e sua representação, a intenção do autor exerce um papel fundamental.

2. Questione se os estudantes acreditam que a mídia e a imprensa também passam por esse processo e peça que eles citem exemplos que conheçam. Um encaminhamento possível é pedir que eles apresentem suas visões sobre África: quais filmes já viram em que o continente aparece? Quais notícias tiveram acesso? Quais as principais características do continente? Em seguida, apresente os vídeos Os perigos de uma história única e selecione um trecho do filme Pantera Negra em que seja mostrado o reino fictício de Wakanda. Discuta a relação entre esses dois produtos e a discussão anterior. O objetivo é esclarecer que os conteúdos produzidos sobre o continente africano muitas vezes destacam apenas a pobreza e as mazelas dos países que o formam, mas que outras visões também são possíveis.

3. Sugira que os estudantes, em grupo, elejam temas que achem interessantes e próximos de sua realidade para apresentar como eles são retratados na mídia diante dos colegas. Proponha que eles busquem na internet peças que tratam desses temas e depois discutam a intenção e a maneira como eles foram retratados. Alguns temas que podem chamar a atenção dos jovens:

- o cotidiano de estudantes de Ensino Médio na época do vestibular;
- a representação de meninas e mulheres na mídia e na propaganda;
- discussões sobre o papel dos videogames e sua influência na violência.

4. Faça aprofundamentos em diferentes tipos de produção midiática: propaganda, fotografia, jornalismo, documentário, filme e programa de ficção etc. Apresente produções de gêneros ligados a essas produções, discuta suas características, a linguagem escrita empregada, a importância das imagens, e assim por diante. Convide os estudantes a refletir sobre quais elementos podem ser usados para a construção de sentido em cada um, com base nos exemplos trazidos pelos alunos.

5. Proponha que os estudantes construam conteúdos que apresentem visões diferentes daquelas que eles observaram nas pesquisas, de acordo com os próprios pontos de vista que eles identificarem. Por exemplo: se verificarem que a produção de notícias sobre o vestibular foca nas histórias de superação, eles podem desenvolver conteúdos sobre o estresse e as dificuldades dos estudantes que realizam a prova. Proponha que se aprofundem no tema e nas técnicas do suporte que escolherem utilizar. É possível pesquisar tutoriais online ou observar profissionais da fotografia, do cinema, do jornalismo, da publicidade e assim por diante para reconhecer como a produção é feita por eles. Estimule-os a pensar nas escolhas feitas para esclarecer suas intenções na composição do produto final. Peça que compartilhem com a turma e comente os resultados ao final.

6. Sistematize o que foi aprendido durante o processo, com a ajuda dos estudantes. Converse sobre os desafios superados e liste cuidados a serem tomados nas próximas produções. Incentive que todos registrem os principais achados no caderno para poderem consultar futuramente.

Este conteúdo é parte do projeto EducaMídia, do Instituto Palavra Aberta, com apoio do Google.org, para incentivar a Educação Midiática e a liberdade de expressão.

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