“Ao apresentar diferentes histórias, você mostra diferentes possibilidades”

Para Mafoane Odara, histórias mudam histórias, e fazer isso na Educação Infantil é essencial para a formação do indivíduo

POR:
Paula Salas
Crédito: Acervo Pessoal/Mafoane Odara

Mafoane Odara entrou na vida da turma da professora Priscilla por meio da literatura. Ela é protagonista do livro infantil Sou Linda Assim, de Pâmela Gaino. Quando retornou ao Brasil, após morar quatro anos em Angola, Mafoane sofreu preconceito por sua cor de pele e seu cabelo crespo. No entanto, ainda pequena, encontrou uma solução que a fez perceber seu espírito de liderança. 

Hoje, Mafoane trabalha no Instituto Avon como coordenadora de projetos, é mestre em psicologia social pela USP e liderança ativista nas lutas raciais e de gênero. “Sou uma executiva dentro de uma multinacional e uso meus privilégios para que outras mulheres cheguem onde eu estou. Minha mãe sempre disse que a gente precisa fazer parte da solução dos problemas que a gente enfrenta”, afirma. 

A ativista conversou com NOVA ESCOLA sobre sua experiência e o poder de transformação das histórias.

NOVA ESCOLA BOX: No livro Sou Linda Assim diz-se que a senhora morou em Angola e, quando voltou ao Brasil sentiu as diferenças entre os dois países. Como foi esse período? Quais estratégias encontrou para enfrentar o preconceito?

MAFOANE ODARA Aos 2 anos fui morar em Angola. Lá, o toque, mexer no cabelo, faz parte da cultura. Isso é muito forte. Quando voltei para o Brasil, tive problemas na escola, porque as pessoas não aceitavam a cor da minha pele e o meu cabelo. 

Quando eu tinha uns 10 anos, não aguentava mais as pessoas falarem que meu cabelo era ruim. Minha mãe sempre falava para encontrar uma solução para os problemas. Nessa história de criar soluções e imaginar, perguntei quantos dias letivos tinha no ano, ela respondeu que 180, e eu falei: "Mãe, quero fazer 180 penteados para mostrar que meu cabelo é bom". Com isso, fiz um penteado diferente a cada dia do ano. Passei de ser a menina com o cabelo feio para a que todos queriam imitar. 

Quando eu fiz essa história do cabelo, percebi duas coisas que foram muito importantes para mim: a primeira é que eu podia fazer as pessoas mudarem de ideia sem ter de bater nelas; e a segunda é que eu sabia provocar as pessoas. 

Comecei a usar esse meu poder de provocação a meu favor, para fazer transformações, e virei liderança em tudo. Comecei a entender que é possível construir outras formas de responder ao racismo e ajudar a outras crianças a também responderem.

O que a motivou a contar sua história no livro Sou Linda Assim?

Toda vez que eu conto a história do livro, as crianças criam narrativas próprias para lidar com as situações de racismo e bullying que elas sofrem. 

Eu sempre digo que histórias mudam histórias, e esse livro surgiu dessa ideia. Ao apresentar diferentes histórias, você apresenta diferentes possibilidades. O cuidado que a gente precisa ter é mostrar que existem muitas possibilidades, pois não é a gente que vai construir essa história.

Qual a importância de trabalhar com diversidade na Educação Infantil? 

É fundamental. Essa fase é muito importante para a construção de valores, para que a violência não se instaure e para trabalhar a construção da identidade e da autoestima. Foi o que aconteceu comigo. Sempre fui uma criança com autoestima, porque eu venho de uma família que vê a importância disso. 

No Brasil, a gente ainda trata as crianças de formas desiguais, porque elas são diferentes. A diferença não deveria causar uma desigualdade, na qual você é bonito e você é feio. Isso se instaura nessa fase, por isso é superimportante encontrar formas de mostrar as diferenças, as diferentes belezas e as formas de ajudar as crianças a responderem a essas situações indesejáveis. Cada um vai dar uma resposta, mas é importante ajudar as crianças a desenvolverem as habilidades socioemocionais. 

Costumo dizer que as coisas realmente importantes em termos de construção de essência estão nessa fase até os 6 anos. Eu não tenho dúvidas de que a essência do que sou hoje está nesses primeiros anos, nessas experiências que eu construí.

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