Jogos educacionais podem ajudar estudantes a superar o medo de errar

Aprendizagem depende também da autoconfiança do aluno, que ele acredite ser capaz de realizar as tarefas. Entenda como ajudá-los nesse desafio

POR:
Silvio Henrique Fiscarelli
Aluna usa o computador com ajuda da professora em uma sala de aula
Foto: Getty Images

É muito comum atribuirmos as dificuldades de aprendizagem dos estudantes a fatores extraescolares como as políticas educacionais, suas condições socioeconômicas e familiares, bagagem de valores, experiências e vivências que se chocam com as práticas de ensino na escola. Estes aspectos, sem dúvida, influenciam o processo educacional. No entanto, gostaria de chamar a atenção para um outro aspecto que, muitas vezes, passa desapercebido dentro da sala de aula: o medo de errar dos alunos.

Todos os professores, provavelmente, já se deparam com aquilo que parece ser uma “indiferença” ou “preguiça” do aluno frente as atividades propostas durante a aula. Estão ali, mas não fazem o exercício e esperam que seja corrigido para copiar a resposta, por exemplo. É claro que existem exceções, mas esse comportamento pode ser classificado como medo de errar. Na verdade, o medo não é do erro, mas das consequências do erro.

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Do ponto de vista do aluno, essas consequências podem ser externas, por exemplo, expor sua condição de não saber fazer uma determinada atividade para o professor e outros alunos. O medo de errar também gera consequências de caráter interno, quando o aluno, constatando seu erro, se sente inferior aos outros por não saber realizar uma determinada tarefa. Ou seja, o medo das consequências do erro leva à insegurança, ansiedade e displicência. O medo de errar leva o aluno a querer “fugir” da situação e, nestas condições, começa a importunar os colegas e a realizar ações que não têm relação com a atividade proposta. Uma recente pesquisa realizada na Universidade de Maryland aborda a “ansiedade social”, um transtorno que atinge crianças e jovens que temem que seus erros sejam percebidos em situações sociais (BUZZELL et al, 2017).

A aprendizagem depende, em grande parte, de uma autoconfiança do estudante. É preciso que ele acredite ser capaz de realizar as tarefas, evitando assim, o sentimento de desânimo e de frustração (Bandura et al, 2008). Esta autoconfiança vai influenciar fortemente no interesse, na persistência e no esforço dispensado à realização das atividades. Kuhl (2000), chama atenção para um fenômeno denominado volição, que é um fator distinto da motivação, pois segundo o autor, a motivação é responsável pelo interesse e desejo inicial, enquanto a volição é responsável pela manutenção do interesse, das intenções e da ação planejada para atingir os objetivos. Podemos pensar que existe uma relação entre motivação e volição pois, para dispor-se a realizar uma tarefa, os alunos precisam ter um certo grau de motivação. Contudo, para se manterem engajados na tarefa e não se dispersarem, precisam também de um certo grau de volição. O medo de errar atua diminuindo a volição, que é fundamental para que o aluno se mantenha envolvido e crie oportunidades para a aprendizagem.

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Poderia continuar dando outros exemplos e situações, mas acho que os argumentos são suficientes para mostrar que o medo de errar é um elemento a ser considerado dentre as chamadas dificuldades de aprendizagem.

Durante a pesquisa com uso de tecnologia em uma escola do primeiro ciclo do Ensino Fundamental de Araraquara, no interior do estado de São Paulo, temos observado que o uso dos recursos tecnológicos pode levar a uma diminuição do medo de errar. De início, destaco o fato de que a maioria dos alunos não percebem as atividades realizadas no computador como uma forma de julgamento de suas competências e habilidades, fato que os deixa menos apreensivos em engajar-se nas tarefas. O caráter lúdico das atividades ameniza o peso dos erros que possam vir a cometer, pois, para o aluno, a participação e o processo de interação tornam-se mais importantes do que resultado final propriamente dito.

Os jogos educacionais, quando elaborados de maneira adequada, podem levar os alunos a perceberem que o erro pode fazer parte do processo, que ele pode refletir porque errou, tentar corrigir e continuar. Outro aspecto interessante é o fato de os alunos identificarem suas características individuais de uma maneira mais natural: alguns são mais rápidos no teclado, outros têm mais habilidade com o mouse; alguns terminam primeiro, outros demoram mais para chegar ao fim. Ou seja, é uma forma de entenderem que apresentar dificuldades em um ou outro aspecto de uma tarefa é algo absolutamente normal. Embora a pesquisa esteja em andamento, considero os indícios apresentados como princípios interessantes de como a tecnologia pode ajudar os alunos a superar, mesmo que parcialmente, o medo de errar. 

Silvio Henrique Fiscarelli é mestre e doutor em Educação Escolar pela Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara (Unesp) e professor na mesma instituição

 

Para saber mais

Bandura, A.; Azzi, R. G. & Polydoro, S. Teoria Social Cognitiva: conceitos básicos. Porto Alegre: Artmed, 2008.

BUZZELL et al. A Neurobehavioral Mechanism Linking Behaviorally Inhibited Temperament and Later Adolescent Social Anxiety.Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, volume 56, número 12, 2017 disponível em https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0890856717317732

Kuhl, J. The volitional basis of personality systems interaction theory: application in leasing and treatment contexts. Internationl Journal of Educational Research, 2000.