A ‘lenga-lenga’ que alfabetiza crianças nos Anos Iniciais

Projeto usa metodologia ativa e faz com que crianças produzam seus próprios textos

POR:
Camila Cecílio
Mara Mansani caminha de mãos dadas com as crianças de sua sala pelo pátio da escola em Sorocaba (SP)
Foto: Mariana Pekin

A professora Mara Elizabeth Mansani já tinha quase 30 anos de sala de aula quando teve a ideia de usar uma nova metodologia para alfabetizar seus alunos da EE Laila Galep Sacker, em Sorocaba (SP). Com tanto tempo de experiência, a educadora sempre fez questão de estudar e buscar novas práticas para potencializar a aprendizagem das crianças dos Anos Iniciais do Fundamental 1. Da bagagem profissional e do desejo de fazer diferente nasceu o projeto Escrevendo com lenga-lenga, que deu a Mara o Prêmio Educadora Nota 10 em 2014

Era começo de 2014 e Mara já pensava em novos elementos para suas aulas. Foi então que ela teve a ideia de trabalhar com as lenga-lengas, textos construídos com frases curtas, que geralmente rimam, ajudando na sua memorização. O gênero textual se baseia na repetição de sons, rimas, palavras ou expressões e estruturas textuais e, geralmente, está associado a brincadeiras e jogos infantis. “As lenga-lengas vêm da tradição oral portuguesa, na era medieval, e são transmitidas de geração em geração até hoje”, explica a educadora. 

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Ao criar o projeto, a professora foi motivada também pela possibilidade de fazer livros coletivos com as escritas dos seus alunos. “Há alguns anos, eu mesma diria que seria impossível propor a alunos de 6 e 7 anos que escrevessem seus próprios textos, mas essa foi a proposta de meu projeto para meus alunos: que eles escrevessem textos de autoria, levando em conta as características do gênero, para a produção de livros coletivos”, lembra Mara Mansani. 

O objetivo era criar situações desafiadoras que levassem os alunos a refletir sobre sua própria escrita e o sistema alfabético, segundo a professora. A ideia era que eles chegassem à hipótese alfabética ou se aproximassem o máximo possível dela. Para isso, Mara traçou uma espécie de passo a passo para que o projeto possa ser replicado por outros professores. 

Mara Mansani ensina os alunos em sala de aula
Foto: Mariana Pekin

Como posso desenvolver esse projeto na minha escola? 

O primeiro passo é diagnosticar os saberes e as dificuldades dos alunos através de sondagens que fornecem o retrato da situação de sua aprendizagem. A partir das necessidades levantadas, estabeleça os objetivos e selecione os conteúdos: apreciação de texto literário, leitura de texto com a ajuda da professora, escrita de textos de próprio punho individuais e coletivos, ainda que com erros ortográficos. 

Depois, apresente o projeto aos alunos e explique a ideia de fazer um livro de lenga-lengas. “Foi o que eu fiz, isso os envolveu e motivou. Expliquei que, além de aprender a ler e escrever melhor, eles ainda seriam autores de livros e o resultado disso foi muita empolgação”, conta Mara. Para preparar a turma, ela levou os alunos para um passeio na biblioteca, onde apresentou e leu o livro "Dez sacizinhos", da Tatiana Belinky, escrito em forma de lenga-lenga, que explora rimas, repetições de sons e palavras e também a contagem regressiva do dez ao zero.

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Outra etapa é dividir os alunos em grupos levando em consideração as hipóteses de escrita de cada um, tentando organizar hipóteses próximas para um trabalho produtivo, mas deixando em cada grupo pelo menos um aluno em hipótese alfabética ou silábico-alfabética para garantir o andamento das discussões. 

Crie um "circuito de intervenções pedagógicas" para atender aos grupos. “Nos momentos de escrita, cada grupo ficava ao redor de uma mesa, sempre com uma cadeira extra para que eu pudesse acompanhar uma parte das discussões e fizesse as intervenções pedagógicas necessárias”, diz a professora. Na realização de seu trabalho, ela passava pelas mesas e sentava com cada grupo por volta de 10, 15 minutos, pelo menos quatro vezes ao longo das aulas de escrita, em um rodízio constante para orientar, mediar e facilitar o trabalho. 

Com os textos prontos, chegou o momento de editar e lançar os livros. “Fiquei mais ansiosa que as crianças e muito feliz com as produções e os avanços na escrita dos alunos”, recorda. Desde então, Mara vem desenvolvendo o projeto a cada ano com suas turmas. 

Escrevendo com Lenga-lenga - Mara Mansani

Mara Mansani ensina os alunos em sala de aula
Foto: Mariana Pekin

Indicação: 1º ano do Ensino Fundamental
Disciplinas: Alfabetização
Duração: 1 ano

O que é o projeto?
A proposta do projeto Escrevendo com Lenga-lenga foi desenvolver a prática de leitura e escrita na alfabetização em uma forma inovadora envolvendo uma metodologia ativa, o circuito de intervenções pedagógicas, que colocou cada aluno como protagonista de seu processo de alfabetização. “Fiz boas intervenções pedagógicas que os levaram a refletir acerca da escrita alfabética, confrontando suas hipóteses com os demais colegas, lendo e escrevendo a todo momento. Para o desenvolvimento dessas práticas de leitura, oralidade e escrita, escolhi textos que fazem parte do universo das crianças no gênero lenga-lengas, que são parlendas trazidas pelos portugueses na colonização”, contou Mara. 

Do que vou precisar? 
- Livro: Dez sacizinhos, de Tatiana Belinky;
- Cópias reproduzidas dos textos de domínio público (lenga-lenga): Tangolomango e Tumba La Catumba;
- Papel, lápis de escrever e lápis de cor para as ilustrações

Quais os objetivos de aprendizagem trabalhados? (BNCC)
- Que meus alunos refletissem sobre sua própria escrita e o sistema alfabético e assim avançassem em suas hipóteses, chegando à hipótese alfabética consolidando os seus conhecimentos, rumo a alfabetização.;
- Escrever alfabeticamente textos de próprio punho, de autoria, individualmente e coletivamente, tendo como modelos os textos apresentados, ainda que escrevessem com erros ortográficos;
- Produzir textos buscando aproximação com as características discursivas do gênero (lengalenga/parlenda);
- Apreciar textos literários;
- Ler, com a ajuda da professora, textos de gênero literário, apoiando-se em conhecimentos sobre o tema do texto e sobre as características de seu portador e sobre o gênero. 

E os desafios? Como encará-los?
“Os principais desafios foram em um mesmo projeto dar conta de atender às necessidades de aprendizagem de alunos em diferentes hipóteses de escrita, mas isso se resolveu com a proposta da metodologia do circuito de intervenções que criou momentos de atendimento individualizado onde pude fazer intervenções pontuais para que todos avançassem em suas hipóteses de escrita”, diz. 

E no final? O que meus alunos vão aprender?
“Foi nítido e significativo o desenvolvimento dos alunos em relação ao conhecimento sobre a língua escrita e consequentemente os avanços em suas hipóteses de escrita e de leitura. Na avaliação final, alunos estavam com escrita alfabética, consolidando o processo de alfabetização. Em relação as produções textuais, quanto ao gênero proposto, os resultados também foram bons. Todos os textos produzidos pelos alunos (cinco produções que resultaram em livros animados em PPT e impressos) foram de boa qualidade. Neles é possível perceber claramente as características discursivas do gênero e real aprendizagem dos estudantes. Após todo o processo, os alunos tinham produzido textos criativos e de acordo com o que propõe o gênero Lenga-lenga”, conta Mara. 

Mara Mansani é professora há 32 anos, já lecionou em vários segmentos, da Educação Infantil ao 5º ano do Ensino Fundamental, passando também pela Educação de Jovens e Adultos (EJA), com destaque a alfabetização. Atualmente professora efetiva da Rede Estadual de Educação de SP, em Sorocaba/SP e da Rede Municipal de Salto de Pirapora/SP. Em 2006, teve dois projetos de Educação Ambiental para o Ensino Básico publicados pela ONG WWF, no livro: Muda o Mundo, Raimundo. Em 2014, recebeu o Prêmio Educador Nota 10, na área de Alfabetização, com o projeto Escrevendo com Lengalenga. Formadora de professores da Educação Infantil e Ensino Fundamental 1. Colunista semanal do Blog de Alfabetização da Revista Nova Escola. Membro do Comitê Consultivo da Iniciativa “Profissão Docente”, do Todos pela Educação. 2018 e 2019. Coordenadora do Núcleo Sorocaba da Rede Conectando Saberes, apoiada pela Fundação Lemann, 2018 e 2019.

 

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