Inclusão: com Educação Física adaptada, professor ensina sobre acessibilidade

Leonardo Coelho fez com que alunos vivenciassem realidade de pessoas com deficiência no interior do Piauí

POR:
Camila Cecílio
Alunos de Leonardo Coelho em Corrente, o Piauí, durante uma aula de Educação Física Adaptada
Leonardo queria que seus alunos vivenciassem as situações de forma concreta Foto: Acervo Pessoal 

Em 2016, Leonardo Coelho de Deus Lima fez as malas e partiu de Teresina (PI) rumo ao município de Corrente, a 900 quilômetros da capital, para assumir uma vaga de professor de Educação Física no Instituto Federal do Piauí (IFPI). Naquela época, o educador não sabia como, mas já queria usar a profissão para mudar a vida das pessoas a sua volta. Não demorou muito e Leonardo teve a ideia de criar o projeto Educação Física Adaptada: Análise, Reflexão e Ação, que fez dele um dos vencedores do Prêmio Professores do Brasil em 2018. Com a iniciativa, o professor não só transformou a realidade daquela comunidade como também a sua própria. 

Assim que chegou na cidade de pouco mais de 25 mil habitantes, Leonardo percebeu que a população local enfrentava um cenário de pobreza e desamparo por parte do poder público. Mas, no meio desse contexto de precariedade, crianças, jovens e adultos contam com a estrutura do IFPI para ter acesso a condições básicas. “Muitos alunos só conseguem ter uma alimentação decente, por exemplo, dentro da escola. Outros só foram ao dentista pela primeira vez também na escola”, conta.

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Ao ver tudo isso, o professor sentiu que era hora de partir para a prática. Inspirado pelas obras de Paulo Freire, Leonardo percebeu a importância de levar para dentro da escola uma abordagem crítica dos conteúdos com o intuito de conectar a sala de aula aos anseios da comunidade. “Quando comecei a conhecer um pouco melhor as mazelas que afligem a população do município, percebi o quanto as pessoas com deficiência eram negligenciadas no dia a dia devido à falta de acessibilidade”, lembra. 

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Leonardo conversou com seus alunos do Ensino Médio e propôs a prática de alguns esportes adaptados para pessoas com deficiência, como o Golbol e o Voleibol sentado. Mas, a ideia era ir além do viés esportivo. O que o educador queria era problematizar o conteúdo e discuti-lo de forma crítica. Ele lembra que, a princípio, a resistência dos alunos foi grande. “Eles não estavam habituados a ter que ler, discutir e refletir na aula de Educação Física”, recorda. No entanto, a partir da primeira etapa do projeto eles perceberam a relevância da proposta e como eles poderiam transformar a realidade local, de modo que o engajamento nas atividades foi natural. 

Alunos de Leonardo Coelho em Corrente, o Piauí, durante uma aula de Educação Física Adaptada
Várias atividades faziam parte do que o educador chama de conhecimento encarnado  Foto: Acervo Pessoal

Como posso desenvolver esse projeto na minha escola?

O primeiro passo para que o projeto possa ser replicado é dialogar com os alunos sobre a necessidade de se trabalhar a formação crítica, segundo Leonardo Lima. Em seguida, é necessário mostrar aos alunos a relevância da proposta. A dica é falar com os alunos sobre pessoas com deficiência que eles conhecem (por exemplo: quais as dificuldades eles já presenciaram e como é a vida destas pessoas com deficiência que eles conhecem). O professor garante que “se tiver algum aluno com deficiência na sala é importante ouvir seu relato, pois ele se sentirá acolhido”. 

Para introduzir o conteúdo, é importante fazer os alunos vivenciar uma situação de forma concreta, o que o educador chama de conhecimento encarnado. Neste projeto específico, seria a pesquisa de campo sobre acessibilidade. Desta forma, os alunos conseguem falar com mais propriedade sobre a questão e naturalmente sentem maior interesse em abordar a temática. “Uma vez que o aluno percebe a importância da formação crítica e a relevância da proposta, fica mais fácil para realizar um aprofundamento do conteúdo, de propor a leitura de textos, de ver vídeos e de realizar as discussões. Os alunos já estão engajados”, comenta. 

Após esta etapa, professor e alunos pensam em como eles podem intervir nas situações problema diagnosticadas nas etapas anteriores. Esta intervenção pode ser por meio de uma audiência pública, de uma passeata, de uma palestra dos próprios alunos em outra escola, por meio de uma ação conjunta com instituições do município que tratam da questão (direito das pessoas com deficiência) ou até mesmo por meio da produção de um documentário pelos próprios estudantes.  

O projeto Educação Física Adaptada: Análise, Reflexão e Ação foi organizado em cinco etapas. 

Alunos de Leonardo Coelho em Corrente, o Piauí, durante uma aula de Educação Física Adaptada
As atividades de pesquisa de campo foram feitas nas ruas da cidade Foto: Acervo Pessoal

1ª etapa: Na primeira foi realizado um estudo de campo sobre acessibilidade no centro comercial da cidade. Os alunos vivenciaram na pele, de forma encarnada, as dificuldades que uma pessoa com deficiência sente para realizar atividades básicas do cotidiano, como ir ao banco ou ao mercado. Cada grupo de aluno simulava uma determinada deficiência. Tinha o grupo dos cegos, dos cadeirantes, dos muletantes e outros.

2ª etapa: Após a realização da pesquisa de campo, a turma retornava para escola para fazer um debate sobre a percepção deles sobre a experiência e também para conhecer como historicamente as pessoas com deficiência foram e ainda são oprimidas. Tudo isso com textos, filmes e documentários sobre o tema para promover rodas de conversa. 

3ª etapa: Nessa fase, já conhecendo um pouco mais do percurso histórico, os alunos foram para a prática dos esportes adaptados. Nela, eles puderam praticar esportes adaptados para pessoas com deficiência, como golbol, voleibol sentado, futebol de cegos, basquetebol para cadeirantes, bocha, tênis de mesa para cadeirantes e atletismo para cegos.

4ª etapa: Uma audiência pública foi realizada em parceria com instituições públicas para debater com as autoridades políticas a questão da acessibilidade no município. Como os alunos de Leonardo já tinham participado de todas as fases anteriores, na quarta fase do projeto eles mesmos faziam os questionamentos e as reivindicações. Ao término desta audiência foi elaborado um termo de ajustamento e conduta, para adaptação dos espaços públicos para as pessoas com deficiência. A audiência deu origem a Lei de Acessibilidade do Município.

5ª etapa: Na última etapa, a turma organizou uma passeata com distribuição de panfletos, para falar dos direitos das pessoas com deficiência, para chamar a atenção da população sobre os problemas enfrentados por aqueles que historicamente foram marginalizados, as pessoas com deficiência.

Educação Física Adaptada: Análise, Reflexão e Ação - Por Leonardo Coelho de Deus Lima

Alunos de Leonardo Coelho em Corrente, o Piauí, durante uma aula de Educação Física Adaptada
O projeto do professor Leonardo (centro, agachado), pode envolver várias disciplinas  Foto: Acervo Pessoal

Indicação: Ensino Médio 
Disciplinas: Educação Física, História, Sociologia e Filosofia
Duração: 6 meses

O que é o projeto? 
“Motivado pelas leituras de Paulo Freire, comecei a me questionar como poderia, na condição de professor de Educação Física, ajustar minha prática pedagógica, de modo a torná-la politicamente comprometida com a realidade social na qual meus alunos estavam inseridos. Após um diálogo com os estudantes, percebi a importância em intervir numa questão que representava uma situação-problema vivenciada pela população local: o respeito aos direitos das pessoas deficientes. Surge, então, a ideia de desenvolver o projeto sobre Educação Física adaptada, realizado com alunos do Ensino Médio do Instituto Federal do Piauí, campus Corrente”, conta o professor. O projeto de Educação Física Adaptada foi organizado em cinco etapas, iniciando-se com a realização de uma pesquisa de campo, passando por um aprofundamento teórico e pela vivência dos esportes adaptados aos deficientes, e finalizando com uma intervenção nas situações-problema diagnosticadas inicialmente. “Identificamos, por meio desta experiência, diversas situações-problema que afetavam a dinâmica de vida das pessoas com deficiência; intervimos nestas situações diagnosticadas; vivenciamos diferentes formas de manifestação corporal no âmbito da prática esportiva adaptada; e refletimos sobre o processo histórico de opressão percebido pelas pessoas com deficiência. Em síntese, a partir das experiências vivenciadas, os estudantes demonstraram ter interiorizado princípios de respeito e solidariedade ao próximo. E esta foi, indubitavelmente, a aprendizagem mais estruturante promovida pelo projeto de Educação Física adaptada”, explica Leonardo.  

Do que vou precisar?
- Livro: A Epopeia Ignorada – A Pessoa com Deficiência na História do Mundo de Ontem e de Hoje (Otto Silva, 1986);
- Filme: Nise – O Coração da Loucura;
- Filme: Meu Nome é Rádio;
- Documentário: Homo Sapiens 1900;
- Documentário: Zion;
- Documentário: Holocausto Brasileiro;
- Vendas para os olhos (pode ser confeccionada com TNT preto e elástico);
- Cadeiras de roda (podem ser emprestadas de conhecidos);
- Muletas (podem ser emprestadas de conhecidos);
- Bola de futsal com guizo (doação da Associação de Cegos);
- Bola de basquete e de vôlei. 

Quais os objetivos de aprendizagem trabalhados?
Os objetivos com o projeto são: 

- Exercitar a empatia; 
- Estimular a formação crítica;
- Trabalhar o senso de coletividade e de humanidade; 
- Enriquecer o repertório motor, a partir da prática de diferentes esportes.

Das 10 competências gerais da BNCC, oito foram trabalhadas a partir deste projeto sobre Educação Física Adaptada: 

- Conhecimento; 
- Pensamento crítico; 
- Repertório cultural;
- Comunicação;
- Argumentação;
- Autoconhecimento;
- Empatia;
- Responsabilidade e cidadania 

E os desafios?
O principal desafio foi mostrar para os alunos que nós podemos fazer uma Educação que transcende seu aspecto técnico, que nós podemos fazer uma Educação onde a escola se mostra conectada aos anseios da sua comunidade. Na aula de Educação Física não devemos ficar estimulando apenas a repetição de movimentos esportivos, como se estivéssemos em escolinhas esportivas. É fundamental que estes esportes sejam inseridos dentro de um contexto histórico, cultural e social.

E no final? O que meus alunos vão aprender?
Vão aprender a importância da ação crítica e coletiva, a importância de se ter uma visão mais humana e sobretudo a importância de se respeitar as diversidades humanas. Para além disto, as discussões possibilitam o enriquecimento do capital intelectual, por meio do aprendizado de novos conteúdos.

Leonardo Coelho de Deus Lima é formado em Educação Física pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), mestre em Educação Física pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Tem cinco anos de experiência e atualmente é professor efetivo do Instituto Federal do Piauí - Campus Corrente, onde é também coordenador de Educação Física. Foi premiado no Prêmio Professores do Brasil em 2018 e participa do Impulsiona Educação Esportiva, e da Rede Conectando Saberes e Talentos da Educação, da Fundação Lemann. Tem desenvolvido estudos na área da educação crítica emancipatória, com enfoque na área dos direitos humanos. Pesquisador da vida e obra de Paulo Freire.

 

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