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Blog de Alfabetização

Troque experiências e boas práticas sobre o processo de aquisição da língua escrita.

No fim do dia, ser professora vale a pena

Mara Mansani relembra histórias de sua carreira de 33 anos como alfabetizadora

POR:
Mara Mansani
Professora Mara Mansani sentada nas escadas do pátio da escola, cercada por seus alunos também sentados. Todos sorriem para a foto, abraçados
Crédito: Mariana Pekin

Escrevi esse texto no início da semana, quando o dia dos professores ainda estava se aproximando. Como todo ano, nesta data, penso na minha carreira e lembro que nunca sonhei em ser docente. Isso nunca foi o meu desejo. Minha mãe dizia, na época em que eu estava estudando, que o melhor era fazer o magistério, assim eu já saía da escola com uma profissão.

Iniciei o magistério a contragosto, mas com pouco tempo de estudo, ao conhecer a profissão, fazer estágios em sala de aula e conhecer professores inspiradores, acabei me apaixonando pela Educação e decidi que seria professora!

Hoje me sinto privilegiada. Como é bom estar em sala de aula, ser professora da alfabetização, ver e ouvir as primeiras palavras escritas e lidas pelas crianças, a alegria ao se descobrirem lendo e escrevendo. É realmente incrível empoderar as crianças pela alfabetização.

Mas ser professora nos dias atuais não é fácil: exige um misto de profissionalismo, amor e resiliência.

Os alunos de hoje são muito diferentes dos alunos do início da minha carreira. São mais falantes, participativos e agitados. Mas não foram só os estudantes que mudaram. Há uma nova demanda de necessidades, de ações que exigem novas aprendizagem dos alunos e também dos professores. A escola, enquanto instituição, infelizmente ainda não acompanha como deveria essas novas demandas. Estar preparado para ser um professor do século 21 é um dos nossos maiores desafios.

Porém, eu acredito que podemos fazer juntos essa grande transformação na Educação, com trabalho comprometido não só dos professores, mas de todos que fazem a Educação acontecer, em todas as instâncias. Afinal, como venho dizendo, a aprendizagem não se faz somente com um professor, uma sala de aula e seus alunos. Nós precisamos de apoio, valorização profissional e respeito, três elementos que infelizmente andam em falta atualmente.

Em muitos momentos difíceis na minha jornada, principalmente na alfabetização, tive dúvidas sobre continuar na carreira; mas também, nesses momentos, eu me senti ainda mais fortalecida, pois tive que me reinventar em sala de aula, buscar soluções, lutar por direitos. Todo o apoio que recebi de meus colegas de profissão, dos meus alunos e de seus familiares foram decisivos para eu chegar a esses quase 33 anos alfabetizando e ainda estar feliz, sentindo prazer de estar em sala de aula e verificando bons resultados na aprendizagem dos meus alunos.

Nessa reflexão, lembrei de quatro diferentes momentos da minha carreira. Um difícil, um transformador, um triste e um emocionante. Veja a seguir:

Foi difícil

Lidar com as turmas multisseriadas. Passei por elas no início da minha carreira, em zonas rurais distantes, de difícil acesso. Eram alunos do 1º ao 5º anos reunidos na mesma sala e no mesmo período. Na época, foram alunos difíceis de lidar, mas hoje vejo que eles ajudaram na minha formação, pois tive que desenvolver melhor meu trabalho em turmas tão heterogêneas na aprendizagem e no modo de viver a vida. Me afastei e preconceitos e me aproximei da ideia de que todos são capazes de aprender.

Foi transformador

Andando pela rua em Sorocaba, no interior de São Paulo, ouço alguém falando "professora!" de maneira insistente. Nós, professores, quando ouvimos essa palavra sempre achamos que é conosco. Olhei para trás e dei de cada com um jovem, que logo perguntou "Lembra de mim, professora?"

Com tantas turmas e alunos, lembrar do rosto de cada um é uma tarefa difícil. Mas quando olhei nos olhos daquele rapaz, tudo me veio à cabeça: a turma, a história de vida difícil daquele menino, a escola, o ano em que nos conhecemos. Havia sido meu aluno há mais de 10 anos.

Agora, era funcionário efetivo de uma empresa pública, estava cursando o Ensino Superior e havia transformado sua vida por meio da Educação. Ele estava muito feliz e só queria me agradecer, pois foi naquele ano em que estivemos juntos que ele acreditou que poderia mudar sua realidade através dos estudos. Eu mal consegui falar, só dei um abraço forte. Marcamos nossos alunos, mas esse meu aluno mal sabia que histórias de vida como a dele também marcaram a minha trajetória e me dão força para seguir como professora.

Foi triste

Muitas das minhas aulas foram sobre higiene pessoal. Em uma delas, descobri que dois irmãos que estudavam juntos não tinham banheiro em casa. Em uma região muito fria onde estava localizada a escola e a casa deles, o banho daquelas crianças eram somente no rio ou com água esquentada em um fogão improvisado no quintal, "de canequinha", como eles diziam. Foi na escola, durante essas aulas, mesmo com toda a falta de acesso ao mínimo que se espera para uma vida digna, que aqueles irmãos começaram a entender e praticar os primeiros hábitos de higiene. 

Precisamos ouvir nossos alunos, conhecer a fundo sua realidade de vida para entender suas ações e necessidades e acolhê-los. Muitas vezes, é só na escola que os estudantes terão acesso ao conhecimento, aos livros, à cultura e às condições mínimas que garantam a sua sobrevivência.

Com a ajuda de uma Organização Não-Governamenta (ONG), alguns anos depois os alunos puderam ter seu próprio banheiro em casa.

Foi emocionante

Já recebi muitos convites para visitar a casa de meus alunos. Fui à residência de muitos deles por amor, preocupação, consideração e também para chamar a atenção da família, mas sempre com muito respeito. Almocei com alguns, sentei-me para um café com outros, fui visitar alguns que ficaram doentes, etc.

Só tomei cuidado com os convites de aniversário, porque isso é complicado, principalmente para os pequenos. Se eu vou à festinha de um, terei que me virar para ir à festinha dos outros 20 que convidarem. A ausência da professora em uma festa que seja pode causar decepção e mágoa nas crianças. Para evitar isso, prefiro também evitar minha presença. Mas teve um ano em que eu fui a uma dessas festinhas. Era um aluno que precisava muito se sentir amado na época, e lá fui eu. Era longe, bem longe, cheguei atrasada, parei meu carro próximo da casa e já comecei a escutar gritos de "Ela chegou! Ela chegou!"

Era eu a pessoa que todos esperavam, a professora da turma! Fiquei emocionada parada na porta da casa, rodeada por muitos de meus alunos. A família estava agradecida, meu aluno incrédulo, rindo à toa. E, para coroar, o primeiro pedaço do bolo foi para mim. Parecia uma reunião de pais: todo mundo queria dar uma palavrinha com a professora, contar onde morava, chamar para um cafezinho. O aniversário foi do meu aluno, mas o presente foi meu com todo aquele carinho e reconhecimento das famílias com o meu trabalho.

Nesta semana em que comemoramos o Dia dos Professores, desejo a todos vocês, meus queridos colegas, que as dificuldades que enfrentamos façam a gnte aprender e avançar, que nossos alunos continuem marcando nossas vidas e nos ajudando a seguir na profissão, acreditando que a Educação e o nosso trabalho valem a pena.

Qual é a história mais marcante que você tem relacionada à nossa profissão? Conte aqui nos comentários!

Um abraço e até semana que vem,

Mara Mansani

Professora há quase 30 anos, lecionou em vários segmentos, da Educação Infantil ao 5º ano do Ensino Fundamental, passando também pela Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em 2006, teve dois projetos de Educação Ambiental para o Ensino Básico publicados pela ONG WWF, no livro “Muda o Mundo, Raimundo”. Em 2014, recebeu o Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, na área de Alfabetização, com o projeto Escrevendo com Lengalenga.

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