Professores doutores: eles são a exceção

Apenas 0,08% dos professores do Ensino Fundamental possuem doutorado

POR:
Elisângela Fernandes

A Educação de qualidade exige o aperfeiçoamento constante dos docentes. Mas no Brasil ainda são poucos os que alcançam a pós-graduação stricto sensu. De acordo com o Censo Escolar de 2010, há apenas 1.156 doutores atuando no Ensino Fundamental, o que significa 0,08% do total.

"Todo cidadão, esteja ele na Educação Infantil ou na pós-graduação, merece ter professores formados com o mais alto grau de excelência", defende Izabel Lima Pessoa, diretora de Educação Básica Presencial da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). "O doutoramento de professores possibilita a constante revisão das práticas pedagógicas e das estratégias didáticas e a proposição de novas ações que modifiquem o trabalho."

Os benefícios para quem ensina e para quem estuda são claros, mas há vários entraves que explicam a pouca adesão a esse nível de estudo. Um deles é a baixa valorização do docente. Antônio Carlos Caruso Ronca, presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), explica que apesar de a Lei nº 11.738 ter sido aprovada, a maior parte dos municípios e estados não possui planos de carreira. "É comum a progressão ser feita apenas com base no tempo de serviço, sem levar em conta a formação", constata.

Reter profissionais que investem continuamente na formação é outra dificuldade das redes. Ao obter a titulação de mestre ou doutor, os professores tendem a migrar para o Ensino Superior. "Em geral, as universidades oferecem melhores condições salariais e de trabalho e também a oportunidade de fazer pesquisa", comenta a diretora da Capes. "Além disso, criou-se a cultura de que mestres e doutores são formados para atuar na graduação e na pós."

Para mudar esse quadro, o presidente do CNE considera que as redes de ensino precisam estimular a formação continuada. Entre as medidas possíveis estão a oferta de licença remunerada e de bolsas de estudo, a flexibilização da carga horária e a possibilidade de afastamento temporário. Há redes públicas em que os planos de carreira preveem auxílios como esses, embora seja comum a demora na concessão.

Algumas secretarias vinculam a oferta desses benefícios à permanência do professor na rede após concluir o curso. É o que acontece em São Paulo. A Secretaria Estadual de Educação oferece bolsas mensais de 1,3 mil reais para mestrado e de 1,6 mil reais para doutorado a professores, supervisores e diretores. Como contrapartida, após a conclusão do curso, é necessário permanecer no Magistério estadual pelo mesmo período em que o auxílio foi recebido. Desde que o programa teve início, 3,4 mil docentes receberam a bolsa e 2,2 mil concluíram o curso.

Quase 80% dos doutores que lecionam no Ensino Fundamental no País atuam na rede pública. Nesse seleto grupo estão Magali de Moraes Menti e Maria da Consolação Rocha. Para elas, essa experiência é muito importante para aprimorar o trabalho na universidade com a formação de professores. Sebastião Fernandes Raulino já concluiu o doutorado e ainda não está na universidade, mas também quer ser formador. Enquanto isso não ocorre, ele atua em duas redes municipais no Rio de Janeiro. Já Felipe Bandoni de Oliveira leciona Ciências para alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA), atendidos gratuitamente por uma escola particular paulistana. Conheça a história deles e entenda como trilharam esses caminhos na página seguinte.

Conheça 4 professores doutores

Diálogo com a academia

Maria da Consolação. Foto: Leo Drummond

"Sempre gostei de estudar e tenho clara a ideia de que o professor precisa ser pesquisador. Trabalho na mesma escola há 26 anos, no bairro Piratininga, periferia de Belo Horizonte. Lá sempre há espaço coletivo para o planejamento e para a pesquisa, o que possibilita fazer um aprofundamento teórico e refletir sobre a minha prática pedagógica. Também sou muito ligada ao movimento sindical e interessada por assuntos relacionados às políticas de valorização do Magistério. Por isso, resolvi investigar aspectos relacionados à formação e ao plano de carreira da rede municipal em que trabalho. Em 1996, concluí o mestrado sobre esse tema e, em 2009, o doutorado. Hoje também atuo na formação de professores e a experiência na Educação Básica possibilita que eu faça intervenções levando em conta o que ocorre na escola. Como ainda estou em sala de aula, consigo manter um diálogo entre a academia e o dia a dia."

Maria da Consolação Rocha, professora de Educação Física do 4º ao 6º ano da EM Cônego Raimundo Trindade, em Belo Horizonte.

De formadora a professora

Magali Menti. Foto: Tamires Kopp

"Boa parte da minha trajetória profissional foi dedicada à formação de professores. Trabalhei nessa área na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e também em algumas faculdades privadas. Durante o doutorado sobre o ensino de Inglês, senti a necessidade de conhecer de perto os desafios de lecionar na Educação Básica. Por isso, prestei o concurso da rede municipal de ensino de Porto Alegre. Inicialmente, meu objetivo era ficar apenas um ano, conhecer o cotidiano da escola pública e aproveitar essa experiência para melhorar a minha atuação na formação de professores. Mas eu me apaixonei, fiquei e não tenho planos de sair tão cedo. É muito gratificante poder trabalhar com jovens de diferentes realidades, contextos sociais e culturais. Conciliar tudo isso não é uma tarefa simples. Pelo contrário, ela é extremamente complexa. Mas, após seis anos, me sinto bem mais preparada para falar com meus alunos na universidade sobre a prática docente."

Magali de Moraes Menti, professora de Inglês de 7º e 8º anos da EMEF Lauro Rodrigues, em Porto Alegre.

Escolha pela sala de aula

Felipe Bandoni. Foto: Gustavo Lourenção

"Sou biólogo e meu interesse pela Educação nasceu em um congresso, quando apresentei um trabalho sobre teste de paternidade no projeto Genética na Praça, aberto ao público. Foi a primeira vez que precisei explicar um conteúdo de Ciências para alguém que não era da área. Desde então, comecei a participar de grupos de estudos sobre os processos de ensino e de aprendizagem. Sentia a necessidade de atuar fora da universidade e, quando concluí o mestrado, fui trabalhar em uma escola privada. Tive a oportunidade de elaborar o programa de Ciências para as séries finais do Ensino Fundamental. Apliquei o que aprendi na licenciatura, enfrentei dificuldades e compreendi como o 6º ano é completamente diferente do 8º. Depois de três anos, achei que era hora de voltar a estudar. Fui para o doutorado, mas sempre com a intenção de retornar para a sala de aula. A pesquisa foi muito bem-sucedida e recebi uma menção honrosa do Prêmio Capes 2010. Ao concluir, comecei a lecionar no período noturno para as turmas da EJA, em que tenho alunos de 16 a 62 anos. Após o primeiro dia, pensei: como pude ficar quatro anos sem dar aulas!"

Felipe Bandoni de Oliveira, professor de Ciências da EJA do Colégio Santa Cruz, em São Paulo.

Incentivos para estudar

Sebastião Raulino. Foto: Fernando Frazão

"Sou professor há quase 21 anos. Quando decidi fazer pós-graduação, optei por investigar os riscos socioambientais decorrentes da atividade industrial na Baixada Fluminense, onde leciono. Nessa época, já trabalhava nas redes municipais de ensino do Rio de Janeiro e de Duque de Caxias, na Baixada. Para estudar, pedi afastamento remunerado e durante um ano pude me dedicar ao mestrado. Com o fim da licença, foi preciso muita dedicação para escrever a dissertação e trabalhar em duas escolas. Quando chegou o momento de fazer o doutorado, também obtive licença remunerada de um ano pela Secretaria do Rio de Janeiro e de quatro anos pela de Duque de Caxias. Com o trabalho desenvolvido no curso, me envolvi em um programa de formação de professores. Caso surja uma oportunidade, desejo lecionar na universidade, mas não tenho a pretensão de deixar a Educação Básica. Quero continuar dando aulas e desenvolvendo a pesquisa."

Sebastião Fernandes Raulino, professor de Ciências de 6º e 7º anos da EM Deputado Hilton Gama, no Rio de Janeiro, e da EM Professor Walter Russo de Souza, em Duque de Caxias, RJ.

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