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Jornalismo

Por que levar brincadeiras africanas para a escola?

O uso de jogos e brincadeiras originárias do continente ajuda a turma a valoriza outras culturas e respeita as diferenças

PorLarissa Darc

15/10/2019

O mancala é um dos jogos de origem africana que podem ser levados para a sala de aula. Ilustração: Edson Ikê/NOVA ESCOLA

As crianças de cabelo liso zombavam das meninas de cabelo crespo. Quem tinha a pele mais escura não era convidado para algumas brincadeiras. Ao observar a interação no intervalo da EE Narciso da Silva César, em Araraquara (SP), a professora Maria Fernanda Luiz notou como as relações raciais interferiam na convivência entre os estudantes. E resolveu que o contato das turmas de 3º e 4º anos com a cultura africana poderia acontecer por meio das brincadeiras infantis e, de quebra, combateu os sinais de racismo.

Maria convidou estudantes africanos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e do Núcleo de Estudo e Pesquisa União Africana da Universidade Estadual Paulista (Unesp) para conversar com os alunos, alguns pessoalmente e outros pela internet. Eles mostraram um pouquinho da cultura de países como Angola, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde, orientando os alunos na execução das brincadeiras.

As crianças anotaram as atividades e suas regras nos cadernos, discutindo coletivamente sobre como redigir os textos para que outras pessoas entendessem o jogo. Em alguns momentos, Maria Fernanda organizou os alunos em duplas para escrever. "Algumas expressões faladas nos outros países eles não conheciam e precisaram procurar no dicionário. Foi ótimo, pois estávamos trabalhando a ordem alfabética", explica ela. Além de revisados, os textos foram ilustrados, compondo um livro entregue à Coordenadoria Executiva Especial de Promoção da Igualdade Racial da cidade de Araraquara.

Fabiano Maranhão, mestre em Educação pela Universidade Federal de São Carlos e especialista em relações étnico-raciais, defende a relevância de trazer esses saberes para a escola. "As brincadeiras praticadas na África podem ser uma boa porta de entrada para narrar a memória desse continente com 54 países", diz ele.

O contato com essa diversidade dá chance de diminuir preconceitos. "Na escola a trajetória dos africanos e afro-brasileiros é estudada unicamente a partir da escravização, mas não exploramos as reais origens dessas pessoas. Por isso, quis apresentar o ponto de vista de quem nasceu e cresceu no continente africano", conta a educadora, que também é pesquisadora do Grupo de Estudos em Educação das Relações Étnico-Raciais da Unesp.

"É essencial que as crianças conheçam as histórias de outros países, suas brincadeiras e costumes", defende Tizuko Morchida, pesquisadora da USP e coordenadora do Laboratório de Brinquedos e Materiais Pedagógicos. "O brincar é uma forma de expressão que possibilita aprender a interagir com os outros. Em jogos com regras, as crianças vivem situações que envolvem emoção, imaginário e valores", explica.

A mudança de postura dos alunos de Maria Fernanda foi gradual, mas hoje o clima na hora do recreio é outro. "Quem fazia piadas percebeu como as suas atitudes magoavam os outros." Também mudou a autoestima dos que eram deixados de lado. Eles se fortaleceram ao perceber que não eram culpados por serem tratados daquela forma. Viram que quem precisava mudar não eram eles, e sim, quem os discriminava.

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