Por que a escola precisa falar sobre suicídio

Tema é delicado, mas não pode ser ignorado e a escola deve atuar para o desenvolvimento emocional e psicológico dos alunos

POR:
Priscilla Albuquerque Tavares
Adolescente conversa com adulto em sala fechada
Getty Images

A cada dia, 32 pessoas cometem suicídio no Brasil, segundo dados da organização Mundial da saúde (OMS). Este é um fenômeno de entendimento complexo e com múltiplas causas. Sabe-se, no entanto, que a depressão está presente na maioria dos casos. Ainda segundo a OMS, a faixa etária com o maior aumento do número de casos é a de 11 a 19 anos. A escola, portanto, não pode se ausentar dessa discussão: precisamos urgentemente falar sobre a saúde mental das crianças e adolescentes.

A depressão pode ser desencadeada por uma série de fatores, dentre os quais a ansiedade e o estresse. Estes podem estar associados a experiências enfrentadas pelo estudante na esfera pessoal, tais como o desemprego e severa privação financeira de seus pais ou responsáveis; problemas de saúde consigo ou um membro da família; luto pela perda de um ente querido; encarceramento de um membro da família; separação ou divórcio dos pais; discriminação; violência doméstica; abuso psicológico, físico ou sexual.

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Mas, para além do âmbito pessoal, muitas fontes de ansiedade também residem na escola: a responsabilidade para lidar com inúmeras tarefas simultaneamente; a cobrança por bons resultados (imposta pela família, pelos professores ou pelo próprio aluno); o medo de falhar; a competição com outros estudantes; as relações conflituosas com colegas ou professores. Todas essas são situações promotoras de estresse entre crianças e adolescentes.

Por um lado, as situações adversas são fonte de aprendizado necessário e inexorável. Entretanto, o constante estado de apreensão pode resultar em menores níveis de autoestima, auto eficácia e motivação intrínseca para a estudar. Infelizmente, o estresse afeta as capacidades cognitivas e torna-se uma barreira para o sucesso acadêmico. Dessa forma, os resultados mais temidos pelo estudante – uma reprovação, por exemplo - podem acabar ocorrendo.

No entanto, essa talvez seja a menor das consequências das desordens de natureza emocional ou psicológica. Indivíduos que sofrem com doenças ou transtornos mentais têm menos chances de completar o Ensino Médio e ingressar no Ensino Superior, de acordo com o estudo de Mojtabai e outros pesquisadores, realizado em 2015. Já os estudos de Blumenthal e outros pesquisadores (2010), Turner e outros estudiosos (2011), Benjamin e outros pesquisadores (2013), Barret e outros estudiosos (2015) mostram que eles têm mais chances de se tornarem pais na adolescência; mais chances de consumir álcool e drogas e de se envolver em atividades ilícitas, além de maiores chances de se envolver em acidentes fatais ou cometer suicídio. Wilson e Deane (2010) ainda mostram em sua pesquisa que adolescentes depressivos são menos propensos a procurar ajuda de amigos e familiares diante de dificuldades enfrentadas no dia a dia.

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A boa notícia é que o ambiente escolar exerce bastante influência sobre o bem-estar dos estudantes e sobre as conquistas acadêmicas e pessoais que eles são capazes de obter. Não estou sugerindo criar “zonas livres de tensão”. Além de isso não ser possível, nem mesmo seria desejável. O estresse faz parte da vida cotidiana e, na dose correta, auxilia na execução de atividades do dia a dia. Logo, aprender a lidar com ele é fundamental.

Mas há muitas maneiras pelas quais a escola pode atuar para o desenvolvimento emocional e psicológico dos alunos e para a prevenção de doenças ou transtornos dessa natureza e suas inúmeras consequências. Abordagens de redução do estresse entre estudantes incluem:

  1. Uma rede de relações sociais saudáveis entre os membros da comunidade escolar – com a realização de atividades e eventos de recreação, lazer e cultura que integre alunos, professores e funcionários;
  2. Apoio de orientação pedagógica, que ajude os alunos na gestão do tempo e organização de rotinas e ofereça suporte para dificuldades acadêmicas;
  3. Atendimento psicológico especializado, com profissional qualificado disponível para atendimento coletivo e individual. Há evidências de que estudantes que possuem acesso a serviços de apoio à saúde mental dentro das escolas não só apresentam melhor desempenho acadêmico, como apresentam melhor estado geral de saúde, são menos propensos ao abuso de substâncias (como álcool, cigarros e outras drogas) e ao comportamento de alto risco de forma geral (como dirigir embriagado).

O mecanismo que explica esse canal é muito claro. Procurar ajuda para uma dor psicológica nem sempre é fácil: como explicar o que estou sentindo, se nem mesmo eu sei ao certo o que está acontecendo? Serei compreendido? Serei julgado? Essas perguntas, que vêm à cabeça da criança ou do adolescente, são frutos das respostas que nós, pais e professores, damos às suas questões emocionais. Por exemplo, temos a tendência de ignorar ou amenizar sinais claros de estresse e ansiedade, como o cansaço e a hostilidade, e até mesmo colocar a responsabilidade no comportamento de quem é vítima desses transtornos: “você está cansado porque não dorme direito” (dormir mal não é sempre uma escolha, às vezes é outro sinal de que algo está errado). Ao sentir-se desconfortável e incompreendido, o estudante se isola e tenta lidar com esses problemas sozinho. Por essas razões, canais de comunicação ativos e apoio psicológico de fácil acesso podem aumentar a predisposição da criança ou do adolescente a pedir ajuda. Com assistência profissional, é mais fácil identificar as causas, prescrever tratamento adequado e evitar consequências mais severas em sua vida acadêmica, pessoal e familiar.

É importante destacar que a atuação da escola sobre a promoção do desenvolvimento emocional deve contar com profissionais especializados (psiquiatras, psicólogos, terapeutas). Para lidar com essas questões de maneira adequada, é preciso adotar metodologias e abordagens comprovadamente eficazes com embasamento científico. A saúde emocional deve ser tratada com a mesma seriedade que empregamos nas questões curriculares. Não há soluções fáceis ou espaço para amadorismo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que nove entre cada dez suicídios poderiam ser evitados, e os especialistas afirmam que a melhor medida preventiva é a Educação. A escola precisa enfrentar essa luta. É preciso falar sobre suicídio.

Priscilla Albuquerque Tavares é doutora em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), mestre e bacharel em Economia pela Universidade de São Paulo (USP). É professora da Escola de Economia de São Paulo, da FGV, pesquisadora na área de Economia da Educação e autora de diversos artigos que avaliam impactos de políticas educacionais no Brasil.

Para saber mais

Alezandria K. Turner, Carl Latkin, Freya Sonenstein, S. Darius Tandon, Psychiatric disorder symptoms, substance use, and sexual risk behavior among African-American out of school youth, Drug and Alcohol Dependence, Volume 115, Issues 1–2, 2011, Pages 67-73, ISSN 0376-8716, https://doi.org/10.1016/j.drugalcdep.2010.10.012.

Barrett, D.E., Katsiyannis, A., Zhang, D. et al. Predictors of Teen Childbearing Among Delinquent and Non-Delinquent Females. J Child Fam
Stud (2015) 24: 970. https://doi.org/10.1007/s10826-014-9907-6.

Benjamin, C. L., Harrison, J. P., Settipani, C. A., Brodman, D. M., & Kendall, P. C. (2013). Anxiety and related outcomes in young adults 7 to 19 years after receiving treatment for child anxiety. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 81(5), 865-876.

Blumenthal, H., Leen-Feldner, E. W., Frala, J. L., Badour, C. L., & Ham, L. S. (2010). Social anxiety and motives for alcohol use among adolescents. Psychology of Addictive Behaviors, 24(3), 529-534.

Kaplan DW, Calonge BN, Guernsey BP, Hanrahan MB. Managed Care and School-Based Health Centers: Use of Health Services. Arch Pediatr Adolesc Med. 1998;152(1):25–33. doi:10.1001/archpedi.152.1.25.

Mojtabai, R., Stuart, E.A., Hwang, I. et al. Long-term effects of mental disorders on educational attainment in the National Comorbidity Survey ten-year follow-up. Soc Psychiatry Psychiatr Epidemiol (2015) 50: 1577. https://doi.org/10.1007/s00127-015-1083-5.

Rahman, M., Todd, C., John, A., Tan, J., Kerr, M., Potter, R., Brophy, S. (2018). School achievement as a predictor of depression and self-harm in adolescence: Linked education and health record study. The British Journal of Psychiatry, 212(4), 215-221. doi:10.1192/bjp.2017.69.

Wilson, C.J. & Deane, F.P. Help-Negation and Suicidal Ideation: The Role of Depression, Anxiety and Hopelessness. J Youth Adolescence (2010) 39: 291. https://doi.org/10.1007/s10964-009-9487-8.

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