O que atividades circenses podem ensinar aos seus alunos?

Para ensinar Arte, professor transformou em picadeiro ruas de pequena cidade no Rio Grande do Norte

POR:
Camila Cecílio
Crédito: André Menezes/Arquivo NOVA ESCOLA

“Faço versos pro palhaço que na vida já foi tudo/ Foi soldado, carpinteiro, seresteiro e vagabundo/ Sem juízo e sem juízo fez feliz a todo mundo/ Mas no fundo não sabia que em seu rosto coloria/ Todo encanto do sorriso que seu povo não sorria”. O trecho da música O Circo, interpretada pela cantora Nara Leão nos anos 1960, retrata um pouco do universo circense, tão bem conhecido pelo palhaço Emanuel Alves Leite. Mas, assim como diz a canção, ele tem outro ofício além de fazer rir: ensinar.

Emanuel é professor de Arte no Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) campus Pau dos Ferros, mas foi na EE Prof.ª Maria de Lourdes Bezerra, de Macau (RN), que ele criou o projeto que lhe daria o Prêmio Educador Nota 10 de 2014. Lugar de Circo é na Escola foi desenvolvido ao longo de seis meses com a turma do 9º ano. Nesse período, as ruas da cidade, de pouco mais de 30 mil habitantes, foram o picadeiro dos estudantes. 

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Emanuel havia acabado de chegar no município, que fica a 165 quilômetros de Natal, e o primeiro passo para realizar o trabalho foi conhecer os anseios dos alunos. Ele elaborou um questionário para saber quais representações artísticas existiam na cidade, quais delas os estudantes conheciam e quais gostariam de aprender. Como o circo já era uma manifestação cultural na região, o diagnóstico não surpreendeu. “Quando peguei o resultado vi que a questão do palhaço mexeu muito com eles e foi a partir dessa curiosidade que o projeto começou”, lembra o artista. 

Para auxiliar os estudantes, o professor buscou referências bibliográficas e escreveu uma apostila sobre a história do circo. Além disso, mostrou vídeos de palhaços e circos tradicionais e modernos, como o Cirque du Soleil, e trouxe alguns elementos para o contexto local. Depois da fase de estudo e pesquisa, Emanuel pediu a cada um que criasse e representasse seu próprio palhaço. Os alunos passaram por oficinas de figurino, maquiagem e interpretação. O projeto se encerrou com apresentações pelas ruas de Macau. 

Crédito: André Menezes/Arquivo NOVA ESCOLA

Como posso desenvolver esse projeto na minha escola?

Não é necessário ser ator ou palhaço para colocar o projeto em prática, segundo Emanuel. O mais importante é aprofundar o olhar para a comunidade escolar e buscar os materiais de apoio sobre a temática. Um deles é sua própria dissertação de mestrado: Lugar de Circo é na Escola: O estudo da palhaçaria em experiência artística pedagógica, onde a metodologia utilizada é detalhada. “Minha pesquisa mostra justamente que o percurso metodológico não requer que se tenha uma vida de palhaço porque os princípios norteadores são: contextualização, apreciação e prática”, ressalta. 

Lugar de Circo é na Escola - por Emanuel Alves Leite  

Crédito: André Menezes/Arquivo NOVA ESCOLA

Indicação: Ensino Fundamental 2
Disciplinas: Arte
Duração: de 6 meses a 1 ano

O que é o projeto?
O projeto “Lugar de Circo é na Escola” foi o estudo teórico/prático do universo do circo e do palhaço, no qual os estudantes se debruçaram sobre os objetos de estudo de forma contextualizada (relações históricas), desenvolveram apreciações artísticas e práticas circenses envolvendo a turma, a escola e ganhando as ruas da comunidade.    

Do que vou precisar?
- Vídeos, documentários e filmes, como O Palhaço, de Selton Melo, como referências;

- Textos com referências sobre circo e palhaço (fazer uma apostila sobre isso é uma boa dica);

- Visitas de artistas e a prática artística. 

Quais os objetivos de aprendizagem trabalhados?
O objetivo é que os alunos vivam um processo artístico/pedagógico, construindo um percurso metodológico teórico e prático, em que possam, também, vivenciar o ser palhaço e outras técnicas do circo, como malabares e corda bamba. Além de conseguir ler, compreender, relativizar, contextualizar e refletir sobre os circos e a palhaçada contemporânea nordestina, brasileira, mundial. A busca não era exclusivamente na formação de artistas, mas de cidadãos capazes de vivenciar a ação teatral, seja na prática do palco, ou na prática de espectador de forma analítica e reflexiva, compreendendo o espectador como parte integrante e consciente de sua função essencial para o desenvolvimento de um espetáculo. 

E os desafios? Como encará-los?
“Meu maior desafio foi lidar com o restrito espaço de tempo dedicado as aulas de Artes naquela situação, sendo restrito a uma aula de 50 minutos semanais, sendo necessário em alguns momentos pedir aulas de outros colegas para ter um espaço maior para algumas práticas por exemplo. Além da busca incessante por não deixar a aula se tornar monótona, para isso utilizamos como princípio para a construção de conhecimento o híbrido das Artes como potencializador metodológico do processo educativo em questão. Utilizamos para o desenvolvimento do projeto elementos de várias linguagens artísticas: Cinema, Música, Artes Visuais e Teatro. Como através de exercícios corporais, análises de imagens, ver e refletir sobre as películas cinematográficas e documentárias ligadas ao assunto estudado entre outros”, explica o professor.

E no final? O que meus alunos vão aprender?
“A experiência desenvolvida com a palhaçaria e o circo no espaço escolar contribuiu para a formação/conhecimento daqueles alunos que não tinham nas aulas do componente curricular Arte uma vivência da tríade fazer/fruir/contextualizar com a palhaço e circo. O projeto Lugar de Circo é na Escola possibilitou a construção e ampliação de conhecimentos artísticos e culturais dos estudos”, conta Emanuel.

Emanuel é Alves Leite é professor de Arte, palhaço, arteiro, formado em Licenciatura em Teatro pela Universidade do Rio Grande do Norte, mestre em Artes pelo Prof-Artes (UFRN), especialista em Literatura e Ensino pelo (IFRN). Membro do Movimento Escambo Popular Livre de Rua, da Cia. Arte e Riso, além de coordenador e encenador do grupo “Arrelia de xepa” do campus IFRN - Pau dos Ferros. Atualmente é professor de Teatro do IFRN - Campus Pau dos Ferros.

 

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