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Como lidar com a raiva do seu aluno?

Quando bem gerenciada, a raiva pode ajudar crianças a desenvolver relações mais saudáveis consigo mesmas, com o outro e com o mundo

POR:
Ana Carolina C D'Agostini
Alunos brincam em sala de aula com brinquedos coloridos em volta de um aluno com cara de bravo
Foto: Getty Images

Na infância, uma pequena frustração pode ser sentida como o fim do mundo. É comum vermos crianças na escola com dificuldades para gerenciar suas emoções, arremessando objetos para longe, mordendo um amigo, se jogando no chão, chorando de tanta raiva, amassando um papel com uma atividade que não estão conseguindo fazer ou gritando para conseguir o que querem.

Se quando somos adultos já é difícil lidar com a raiva, no início da vida é ainda mais complicado. Crianças tendem a perder o controle mais facilmente porque o lobo frontal – região do cérebro responsável pela tomada de decisão – e o córtex pré-frontal - responsável pelo processo de tomada de decisão e pelo raciocínio, ainda não estão totalmente desenvolvidos, o que torna o controle da emoção ainda mais desafiador. 

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Mesmo sendo uma emoção básica que faz parte de todos nós e que deve ser acolhida assim como as demais, é possível ajudar as crianças a lidar com a raiva de maneira mais construtiva na escola. Assim, pouco a pouco, podemos ajudá-las a reconhecer as próprias emoções, a dos colegas e a administrar o próprio comportamento. Conheça a seguir algumas técnicas e dicas práticas para ajudar a promover o aprendizado socioemocional na infância.  

Ensine sentimentos e emoções

As crianças tendem a ter reações explosivas quando não compreendem seus sentimentos e emoções ou quando não são capazes de colocá-las em palavras. Uma criança que não consegue verbalizar que está muito brava ou com raiva, irá evidenciar sua emoção por meio de um comportamento muitas vezes inadequado para conseguir atenção de quem está próximo e para extravasar aquilo que está sentindo. Por isso, ajude a criança a identificar e a nomear os sentimentos, a chamada alfabetização emocional. Lentamente, ensine palavras mais sofisticadas, como preocupação e solidão, que também podem desencadear a raiva. 

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Quando perceber que uma emoção como a raiva está se manifestando, devolva isso à criança dizendo que percebe que ela está com raiva naquele momento. Quanto mais rico for o vocabulário e quanto mais exemplos próximos a realidade da criança forem incorporados a esse aprendizado, melhor será esse processo. Aos poucos, eles aprenderão a nomear os sentimentos por conta própria.

Uma boa sugestão é fazer uso de livros infantis. Mesmo que o tema central não seja propriamente sobre as emoções, pergunte sempre às crianças ao longo da leitura o que eles acham que cada personagem sentiu em diferentes momentos da história. Ajude a ampliar o vocabulário a partir dessa compreensão, trazendo exemplos claros que estejam na narrativa e nas ilustrações. 

A escritora paulista Blandina Franco escreveu dois livros infantis bastante interessantes sobre raiva. Um deles, intitulado "Fúlvio, o esquentado", conta a história de um vulcão bastante "esquentadinho" que está sempre prestes a explodir e leva os leitores a compreenderem os mistérios que o deixam dessa forma.  A outra sugestão, é a obra “A raiva”, que conta a história de um monstrinho que incialmente sentia pouca raiva, porém que com o tempo essa emoção começou a crescer e a tomar conta de tudo. 

As atividades de leitura podem se desdobrar em diversas outras. Proponha atividades temáticas como uma roda de conversa na qual os alunos possam contar situações nas quais se sentiram como os personagens. Questione quais sensações sentiram no corpo, se sentiram o rosto ficar quente ou vontade de gritar bem alto. Pergunte também como eles reagiram e se sabem alguma forma de se acalmar. Explique também que quando sentimos raiva, corremos o risco de agir mal com outras pessoas, incluindo nossos amigos da escola e a nossa família. Por isso, é importante que aprendamos a reconhecer quando estamos com raiva, quais são os sinais que o nosso corpo envia, e quais são as situações que mais facilmente nos tiram do sério. 

Você pode propor também que os alunos construam um "monstrinho da raiva" com material reciclável. Estimule que deem um nome para o monstrinho, que criem uma história sobre a vida dele, que citem tudo aquilo que o deixa com raiva e o que o faz se acalmar. Dê sugestões para aquilo que pode acalmar o monstrinho, como respirar fundo, fazer um desenho, pedir ajuda ou dar uma volta. Falar sobre emoções por meio de personagens é uma técnica bastante eficaz para as crianças. 

A raiva pode ser um sinal de alerta na infância quando ocorrer de maneira excessiva, podendo indicar, por exemplo, a presença de um quadro de depressão ou que a criança está sofrendo algum tipo de violência na escola ou em casa. Atente-se a casos que chamam a atenção e procure ajuda especializada.

Aprender a lidar com a raiva é chave para o autoconhecimento e desenvolvê-lo é um processo que se estende por toda a vida e que não se encerra na infância. Se conhecer significa saber lidar consigo mesmo, aprender a manejar os desafios que surgem na vida e compreender os próprios comportamentos e pensamentos. É, também, reconhecer aquilo que nos motiva e o que nos enfurece. Portanto, aprender a identificar, nomear e administrar as nossas emoções é parte fundamental do desenvolvimento humano. Quem sabe como estaria o mundo se muitos de nós, adultos, tivéssemos aprendido a fazer isso desde cedo. 

Ana Carolina C D'Agostini é psicóloga e pedagoga com formação pela PUC-SP, especialização em psicologia pela Universidade Federal de São Paulo e mestre em Psicologia da Educação pela Columbia University. Trabalha com projetos em competências socioemocionais e é consultora do projeto de Saúde Emocional da Nova Escola.

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