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Educador Nota 10 | Prêmio Educador Nota 10 | Gestão Escolar


Por: Rosi Rico

A força do trabalho coletivo

Os projetos de Joice e Juliana compartilham a aposta na gestão democrática e na corresponsabilização pela aprendizagem dos alunos

REFORMA: Quadra da escola em Serra (ES) ganhou nova vida após intervenção da gestão

Falta de interesse, indisciplina, pouca capacidade de aprender: ainda é comum responsabilizar o aluno pelo mau desempenho. Juliana Rohsner, diretora da EEEFM Jones José do Nascimento, em Serra, no Espírito Santo, e Joice Lamb, coordenadora pedagógica na EMEF Profª Adolfina J. M. Diefenthäler, em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, fazem o oposto. Vencedoras do Prêmio Educador Nota 10, elas atuam em escolas nas quais os resultados de aprendizagem são encarados como reflexo direto do trabalho desenvolvido por todos. 

Assumir essa postura não ocorreu da noite para o dia nas duas escolas: foi uma construção paulatina, fruto do fortalecimento das relações por meio de escuta, diálogo e reflexões sobre o papel da escola como espaço para garantia dos direitos de aprendizagem. Os projetos de Joice e Juliana compartilham a conquista do envolvimento de professores, estudantes, funcionários, famílias e comunidade na realização de um trabalho coletivo em prol da Educação. Isso só foi possível porque as duas escolas adotam uma gestão democrática, com instâncias de participação efetiva dos diversos segmentos nas decisões, o que gera uma corresponsabilização em relação ao que ocorre dentro da instituição. 

Salto impressionante 

NA PRÁTICA: Além de abrir o diálogo, Juliana engajou toda a escola por meio da ação e do exemplo. Crédito: Edson Chagas/NOVA ESCOLA

Em 2016, quando Juliana Rohsner assumiu a direção, a EEEFM Jones José do Nascimento era considerada uma das escolas mais violentas do Espírito Santo, marcada pelo abandono e com problemas crônicos de vandalismo e indisciplina. Além disso, os índices nas avaliações externas eram muito baixos. “Havia uma total apatia e a crença de que, não importava o que fosse feito, a escola estava fadada ao fracasso”, relembra Juliana. Ciente de que a direção seria incapaz de resolver os problemas sozinha, realizou ações simultâneas para conquistar a confiança e o respeito de todos. A primeira atitude foi ouvi-los. A escuta resultou na construção, coletiva, de listas de prioridades de ação: uma com questões que a equipe escolar poderia resolver com ajuda da comunidade; outra com intervenções que dependiam da Secretaria de Educação e a terceira com pontos que, a princípio, não estavam ao alcance deles, como os tiroteios constantes no bairro. 

Foram identificados problemas em todos os aspectos da gestão. A única opção era trabalhar cada um deles. Além do que está citado no quadro, Juliana, no início, elaborou regras rígidas para conter a indisciplina e, aos poucos, foi convidando os estudantes a criarem os combinados que hoje formam o regimento da escola. Também incentivou a formação do grêmio estudantil. “Logo percebemos que a violência era uma maneira de chamar atenção. Então, equilibramos a exigência de disciplina com a demonstração de cuidado ao promover, por exemplo, os passeios educativos”, relembra a diretora. 

Com a equipe, o caminho foi, além de diálogo, demonstrar disposição para fazer junto. Juliana fez de café para os professores até promover festas para aproximar gestores, docentes e funcionários. “A conversa pode até convencer, mas é o exemplo que engaja”, reflete. “Ao escutar de maneira respeitosa, estabelecer diálogo e definir as ações em conjunto, a diretora constrói um trabalho de participação que não é apenas de presença das pessoas na escola, mas de real atuação delas”, analisa Maura Barbosa, selecionadora do Prêmio. 

A EDUCADORA 

Nome: Juliana Rohsner Vianna Toniati 
Escola: EEEFM Jones José do Nascimento 
Cidade: Serra (ES)

O PROJETO 
Gestando sonhos, alcançando metas!

POR QUE É ESPECIAL
5 estratégias para transformar a escola 
Como a diretora envolveu professores, funcionários, estudantes, famílias e comunidade

Mobilização
Juliana fez todos acreditarem ser possível mudar a situação da escola. Para isso reorganizou o espaço, promoveu escuta e diálogo com todos os segmentos, fortaleceu instâncias de participação, elegeu prioridades de ação e liderou pelo exemplo

Um lugar melhor 
O espaço é condicionante para o aprendizado. Assim, a diretora fez mutirão de limpeza, retirou entulhos e mobiliários quebrados, consertou os banheiros, tirou as pichações e negociou a finalização da obra da quadra e a compra de cadeiras e carteiras.

Foco na aprendizagem 
A diretora Juliana envolveu pedagogos e professores na realização de avaliação diagnóstica e retomada de conteúdos. O principal objetivo era reverter o porcentual elevado de alunos com aprendizagem abaixo do básico nos índices registrados no Espírito Santo. 

Articulação com a comunidade 
Percorreu o bairro para se apresentar, realizou parcerias com instituições que mantêm projetos sociais no local, abriu a quadra para utilização da comunidade, reforçou o Conselho Escolar, promoveu festas e reformulou as reuniões com as famílias.

Ampliar conhecimento de mundo 
Tornou-se rotina a promoção de passeios educativos para que crianças e jovens conheçam o que está no bairro e, principalmente, além dele. Assim eles descobrem cinema, teatro, museus e parques da cidade.

Foto: Edson Chagas/NOVA ESCOLA

Atitude aprendiz 

TODOS JUNTOS: Joice tornou a gestão mais democrática e incentivou a troca entre turmas e idades diferentes. Crédito: Andre Feltes/NOVA ESCOLA

A EMEF Profª Adolfina J. M. Diefenthäler, em Novo Hamburgo, também fica em uma área exposta à vulnerabilidade social, mas sem a gravidade da violência enfrentada pela escola do Espírito Santo. Isso permitiu que Joice partisse de outro ponto, mas sem deixar de construir, com a direção, os meios para uma gestão democrática. Com um ambiente de valorização de trabalho coletivo, a coordenadora pôde convidar os professores a reavaliar as práticas pedagógicas e experimentar novas ideias. 

Os projetos (leia mais no quadro abaixo) foram, aos poucos, subvertendo a maneira tradicional de ensino. Alunos e docentes foram estimulados a explorar os ambientes da escola e trocar com colegas de turmas e idades diferentes. “Este componente de movimento é importante, porque desacomoda a pessoa não só mentalmente, mas também fisicamente”, explica Joice. “Essas ações ajudam a compreender o sentido de compartilhar, pois acaba com a ideia de minha sala, meus alunos, meus professores. São os docentes da escola, os estudantes da escola”, completa a coordenadora. No projeto de iniciação científica, a noção do docente como transmissor de conhecimento também é modificada ao colocar todos no papel de aprendizes. 

O reflexo dessas experiências foi a adoção de um intervalo único, com crianças e adolescentes liberados ao mesmo tempo e oferta de jogos e atividades. “A ideia geral é de que essa mistura vai gerar um caos. Se não houver um trabalho prévio, talvez isso ocorra. Mas a escola mostra ser possível realizar propostas para que as coisas se transformem em vez de apenas se submeter a elas”, diz Rosaura Soligo, selecionadora do prêmio. 

Convencer os docentes foi possível graças às formações continuadas, planejadas com base nas necessidades de professores e alunos. O projeto de matemática, por exemplo, surgiu a partir do pedido dos alunos do 6º ano, que diziam estar com dificuldades para aprender. Agora, há consenso de que as aulas regulares são muito expositivas e o desejo de explorar mais as metodologias ativas, levando para a sala a experiência de abordagem investigativa e resolução de problemas desenvolvida no projeto de iniciação científica.

A EDUCADORA

Nome Joice Lamb 
Escola EMEF Profª Adolfina J. M. Diefenthäler 
Cidade Novo Hamburgo (RS)

O PROJETO 
#aprenderecompartilhar – Escola Inovadora

POR QUE É ESPECIAL

Projetos inovadores 
Veja 4 propostas para subverter a maneira tradicional de ensino 

Fora da caixa 
A coordenação escolhe alunos de diferentes idades e turmas para os grupos que participam de oficinas. Isso favorece a convivência, a empatia, a cooperação e a integração. 

Contação de histórias 
Uma vez por semana, os docentes contam histórias para turmas diferentes daquelas em que atuam. Isso incentiva a leitura e contribui para melhorar a convivência na escola.

Iniciação científica 
Alunos do Fundamental II escolhem temas, equipe e orientadores para realizar um estudo a ser apresentado no fim do ano. Docentes, universitários e pessoas da comunidade avaliam os projetos. 

Projeto de matemática 
Propõe resolução colaborativa de problemas, em que o foco está no desenvolvimento do raciocínio matemático e não no ensino de fórmulas ou modelos prontos

Foto: Andre Feltes